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O Haiti é aqui. Os Arcade Fire foram às origens

por Miguel Marujo, em 10.02.18

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Ouçam-se as percussões e as guitarras, aceleradas, viscerais, que irrompem logo aos 11 segundos, abafando aqueles sons de gente que conversa nas ruas, dos carros que passam, e que mesmo antes dos 30 segundos se transformam num ritmo quase dengoso, sensual, com as teclas a acompanharem mais à frente o compasso das palavras que dão título a esta canção dos Arcade Fire, Here Comes the Night Time. Quatro minutos depois, guitarras e percussões voltam a tornar urgente a dança frenética dos corpos - e este tema é o retrato perfeito de The Reflektor Tapes, o documentário de Kahlil Joseph, que nos apresenta o processo criativo dos canadianos durante as gravações de Reflektor e a passagem para o palco desse trabalho de 2013.

Oito dias depois do novo single I Give You Power nos apontar possíveis caminhos para as canções novas que aí vêm (para além de ter funcionado como um manifesto contra Donald Trump, na véspera da tomada de posse do novo e perigoso presidente americano), os Arcade Fire chegam ao mercado de DVD e de Blu-ray com um filme que transporta para o ecrã aquele pingue-pongue constante de Here Comes the Night Time, entre o festim das atuações em concerto - no improviso de um pequeno palco num hotel haitiano ou nas gigantescas arenas de Los Angeles e de Londres - e o recato quase ascético dos ensaios e gravações do disco. Nesta edição, disponível desde ontem nas lojas, o documentário faz-se acompanhar do concerto Live at Earls Court.

Apresentado em 2015 no festival de cinema de Toronto, The Reflektor Tapes quis replicar a paisagem sonora do álbum numa experiência visual forte, entre jardins e praias sobre-expostas a uma intensa luz branca ou a luxúria dos corpos que dançam num desfile carnavalesco no Haiti.

Kahlil Joseph (que em 2016 apresentou Lemonade, um especial para a televisão sobre Beyoncé, e já assinou vídeos de Kendrick Lamar ou de FKA Twigs) domina na perfeição o tempo e o modo para contar a viagem que a banda protagonizou na gravação de Reflektor, o álbum que o converteu ao som dos Arcade Fire - até aí, Kahlil não era fã da banda.

Port Antonio, na Jamaica, é o primeiro porto em que Win Butler e Régine Chassagne e os seus companheiros lançam as bases para a sua criação artística. "Uma das formas de fazer arte é ignorar o mundo e criar música com quem te rodeia", explica Butler, sobre o tempo de estúdio. É Régine quem regressa às origens: a sua família haitiana procurou asilo político no Canadá para fugir à ditadura de Jean-Claude Duvalier, o Baby Doc, que sucedeu ao pai François Papa Doc Duvalier. "A minha mãe é mais escura do que eu. A minha irmã é mais escura do que eu. Mas tenho os genes", lamenta-se a canadiana, que é branca para os haitianos. "Estou entre dois mundos que colidem, flutuo entre dois mundos." O Haiti é aqui, pretos, todos pretos, brancos quase pretos, com Régine e comparsas a flutuarem entre os dois mundos. My Body Is a Cage é a canção que se ouve logo de seguida.

Porventura, as afirmações de Régine funcionam como uma perfeita descrição da música dos Arcade Fire, e mais ainda de Reflektor, numa permanente colisão entre dois mundos de uma sonoridade que vai flutuando também sobre esses dois mundos. E a banda a estabelecer a ponte entre os tambores caribenhos e o ascetismo filosófico do dinamarquês Søren Kierkegaard, em que o presente bebe na prudência e na reflexão e a paixão é um breve fogacho. "As pessoas têm falsas expectativas sobre o que é o amor", atira Win Butler.

Na digressão que se seguiu ao álbum - e que passou por Lisboa em 2014 e no verão de 2016 - o alinhamento fez-se também ouvir com os anteriores trabalhos, de Funeral, Neon Bible e The Suburbs, os tais que o realizador não tinha na sua prateleira de discos. Mas Kahlil Joseph acaba por fazer mergulhar o seu filme de 75 minutos naquela colisão de mundos, não temendo desconstruir a presença da banda em palco, apesar de se socorrer sobretudo dos temas mais populares da banda, escapando à ousadia que demonstra nas imagens para fugir ao óbvio na banda sonora.

Esta banda sonora é sempre parcial e parcelar. Sobra o registo do concerto que acompanha a edição do documentário, Live at Earls Court, gravado a 6 de junho de 2014 na sala londrina com o mesmo nome, em que a banda percorre a sua principal discografia, incluindo no alinhamento Reflektor, No Cars Go, Rebellion (Lies), Neighbourhood #3 (Power Out), The Suburbs, Wake Up, After Life ou Ready to Start. São quase duas mãos-cheias de clássicos do grupo canadiano, num complemento que ajuda a compreender melhor a história que se conta em The Reflektor Tapes e a visceralidade das suas atuações ao vivo.

Se o fio condutor do filme é ir intercalando os excertos de músicas com declarações dos membros da banda, muitas vezes pouco mais que frases únicas, como que breves statements para melhor entender o universo lírico dos Arcade Fire, Butler antecipa que o seu desejo é que a música que fazem perdure. Eventualmente como a de Elvis Presley, The King, com quem Win sonhou por duas vezes.

Mas é o Haiti que interpela a banda e a sua sonoridade, com ritmos quase primitivos dançados por corpos pichados de tinta negra, mais negra do que os negros, por entre corpos franzinos de malabaristas ou máscaras de animais e outros bestiários e um diabo à solta - é o Carnaval solto nas ruas da cidade de Jacmel, as canções dos Arcade Fire presas a ritmos que Régine reconhece da sua infância. "C'est beau, acho que conseguimos", diz ela aos dois percussionistas haitianos que acertam nos batimentos que o pai da vocalista canadiana tocava.

É em Reflektor, título no qual Kierkegaard cauciona o nome do último álbum, que surge mais uma vez a colisão entre os dois mundos de que falava Régine Chassagne, com a vocalista a cantar entre as duas línguas do seu país (e das suas origens). "Entre la nuit, la nuit et l'aurore./ Entre les royaumes, des vivants et des morts./ If this is heaven/ I don't know what it's for/ If I can't find you there/ I don't care."

[artigo originalmente publicado no DN de 28 de janeiro de 2017]

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