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A banda sonora e as canções que fazem a nova temporada da série de David Lynch revelam um universo onde cabe a pop mais atmosférica, o rock mais pesado e a atmosfera muito própria criada por Angelo Badalamenti. São dois discos que recuperam em sons as paisagens frias e húmidas de Twin Peaks, a cidade onde todos têm algo a esconder

Nos últimos meses, desde que o mundo soube que ia regressar à cidade de Twin Peaks, houve quem arrumasse listas musicais numa Lynchlândia imaginária — o universo de David Lynch não se encerra nos filmes e nesta série já mítica, que regressou para um "longo filme de 18 horas", completa-se e ganha outra dimensão com a banda sonora desta nova temporada de Twin Peaks.

É o próprio realizador que o confessou à revista Pitchfork, ao antecipar que "a música de Twin Peaks foi parte integrante da experiência". "Houve tanto que saiu da música que a série ganhou vida e um estado de espírito" com estas composições, apontou Lynch. Afinal, reconhece o americano, a música acaba muitas vezes por apontar um caminho ou uma ideia, ditar um movimento de um filme. "O mundo está cheio de acidentes bonitos", replicou David.

Com a assinatura inconfundível de Angelo Badalamenti, que acompanha há muito Lynch e assinou em 1990 as composições originais da série (e do filme que se lhe seguiu em 1992, Twin Peaks: Fire Walk with Me), David Lynch propõe-nos dois registos distintos para a série. No primeiro, Twin Peaks (Limited Event Series Original Soundtrack), o palco é quase todo de Badalamenti.

O compositor americano recupera três canções da sua banda sonora de 1990 — Twin Peaks Theme (Falling), Laura Palmer's Theme (Love Theme from Twin Peaks) e Audrey's Dance —, e projeta o seu trabalho recente para a dimensão mais sombria, misteriosa e inexplicável deste opus televisivo criado por David Lynch e Mark Frost.

Nos seus temas, Angelo Badalamenti tanto parece ilustrar o tempo frio e chuvoso de Twin Peaks, numa atmosfera densa de sintetizadores, guitarras ou instrumentos de sopro, como se ouve por exemplo em Accident/Farewell Theme ou Dark Mood Woods/The Red Room, como nos transporta por entre sons mais soltos de percussões jazzísticas, uma influência óbvia na sua obra, como em Grady Groove, num tema que conta com a intervenção de Grady Tate.

Esta banda sonora não se esgota em Angelo Badalamenti: David Lynch ensaia-se em duas colaborações, com Dean Hurley e o próprio Badalamenti, os Chromatics seduzem num instrumental, Saturday, Muddy Magnolias cantam das entranhas American Woman (numa remistura do realizador) e Johnny Jewel não foge muito ao ambiente sonoro que se colou às paisagens de Twin Peaks, no tema Windswept.

A composição Threnody for the Victims of Hiroshima, interpretada pela Orquestra Filarmónica Nacional de Varsóvia e dirigida pelo maestro polaco Witold Rowicki, é mais uma prova do ecletismo de David Lynch, que recusa fechar-se em estereótipos.

No segundo registo musical da série, Twin Peaks (Music from the Limited Event Series), o palco é entregue aos muitos estilos e grupos e músicos que se cruzam neste universo — uma imagem de marca que as bandas sonoras de alguns dos filmes mais populares de Lynch, como Blue Velvet, Twin Peaks: Fire Walk with Me, Lost Highway ou Mulholland Drive, já mostravam à saciedade. Logo no primeiro episódio do regresso da série, o agente do FBI Dale Cooper (interpretado por Kyle MacLachlan) ouvia um aviso sério: "Escute os sons."

Fiquemos então à escuta: este segundo disco é mais desequilibrado, habitado por uns indispensáveis Sharon van Etten, Au Revoir Simone ou os Nine Inch Nails (do colaborador de longa data de Lynch, Trent Reznor), como por uns ZZ Top de quem já não tínhamos saudades ou a esforçada pop de Lissie.

No mais, há (quase) clássicos como Eddie Vedder (já se pode incluir num panteão assim), Otis Redding e The Platters. E também há umas deliciosas Paris Sisters, as irmãs Paris que nos anos 1960 foram produzidas por Phil Spector, aqui em I Love How You Love Me.

Num álbum que abre com o tema principal de Twin Peaks, recuperado da banda sonora original, quase falta Julee Cruise, a voz que nos arrebatava nesse registo de 1990 com Falling, The Nightingale e Into the Night. Os Chromatics recuperam em Shadow algum desse mistério de Cruise, mas felizmente (a fechar este volume) há The World Spins, canção mágica do já longínquo ano de 1989, do seu álbum de estreia, Floating into the Night. É aí que Julee Cruise nos leva a sonhar de forma irresistível a cantar-nos Love/ Don't go away/ Come back this way/ Come back and stay/ Forever and ever. Há amores para a vida — e, com estes dois beijos, Lynch parece saber muito bem como nos conquistar.

[originalmente publicado no DN a 9 de setembro de 2017]

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