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Está já dito: Elizabeth Grant voltou feliz, a dizer-nos que mudou, mesmo que não saiba dizer se está feliz, a falar-nos do verão e a respirar amor nas canções e nas palavras, all you need is love avisa ela em Lust for Life, um título que deixa para trás uma atração pelo abismo, ainda que essa nos parecesse mais encenada que verdadeira.

É inevitável que a cada novo álbum (e está aí o quarto) Lana del Rey — a personagem musical que Elizabeth personifica há seis anos — seja mais discutida por aquilo que parece do que por aquilo que é. Verdade se diga: muito por culpa da própria, enredada em proclamações sobre a morte ou o feminismo. E estas sentenças, repetidas e excessivas, sentenciaram muitas vezes convicções sobre a música sem que se prestasse atenção às músicas, desde a explosão de Video Games (2011), passando por Born to Die, a canção e o álbum de 2012, Ride, National Anthem, Ultraviolence, Honeymoon, God Knows I Tried ou a assombrosa versão de Blue Velvet.

A abrir Lust for Life, Lana canta então o amor, em Love, que é também a celebração da nostalgia, o primeiro e mais arrebatador single do álbum que não traz grandes ruturas com a sonoridade que Del Rey fez sua, tecida entre uma voz tão sussurrada quanto lânguida, grave e serena, num formato assumidamente pop que dialoga com orquestrações rítmicas densas.

Neste quarto álbum, há tempo para a americana piscar o olho ao rhythm'n'blues e subir literalmente ao topo de Hollywood, o letreiro no Mount Lee sobranceiro à cidade de Los Angeles, na companhia do canadiano The Weeknd. "Climb up the H of the Hollywood sign, yeah/ In these stolen moments/ The world is mine/ There's nobody here, just us together/ Keepin' me hot like July forever", e Abel Makkonen Tesfaye a subir e a dançar com ela também no vídeo. Há roupagens e códigos do hip hop a navegarem de forma mais evidente em Summer Bummer com Playboi Carti e A$AP Rocky ou em Groupie Love, também com A$AP Rocky, ou na produção de Metro Boomin, o jovem DJ e produtor do Missouri, sem que se deixe de sentir que o álbum é de Lana del Rey.

Há outras colaborações que resgatam Stevie Nicks para um dueto em Beautiful People Beautiful Problems e Sean Ono Lennon em Tomorrow Never Came, mas em que o registo, que é de Lana, sai valorizado pela vocalista dos Fleetwood Mac e pelo filho de Yoko Ono e John Lennon.

Na capa, não há carros, como houve nos álbuns anteriores, mas há um White Mustang que ele conduz, depois de ela empacotar as coisas todas para o verão. Há as praias da Califórnia que Lana não se cansa de cantar, como em 13 Beaches, metáfora para perseguições de paparazzi, em que a cantora chega à praia deserta que é finalmente sua.

No álbum, há críticas a estes tempos em que Donald Trump é eleito, numa América desencantada, como aquela que canta em God Bless America - And All the Beautiful Women in It: "May you stand proud and strong like Lady Liberty shining all night long", canta o verso, e é impossível não reconhecer uma referência ao presidente americano. "É como que gritar pelas mulheres ou quaisquer outras pessoas que nem sempre se sentem seguras a caminhar pelas ruas à noite. Foi nisso que pensei quando escrevi even when I'm alone I'm not lonely/ I feel your arms around me. Não é sempre como me sinto quando caminho pela rua, mas por vezes na minha música tento escrever sobre um local onde quero chegar", explicou-se em entrevista à Pitchfork.

Nessa conversa com a publicação online americana, Lana del Rey recusa-se com um suspiro a dizer se vê o mundo a cores agora. "Eu realmente não sei como descrever a minha perspetiva no momento." Ou se Lust for Life é uma tentativa para o ver assim, a cores. "Não é. Não sei do que se trata. Não sei o que é." Nova insistência, sobre se pelo menos este álbum procura dizer que Lana quer ser feliz. Nova fuga em frente. "Não. É apenas algo que está a acontecer."

Não é só. A própria canta-o num dos melhores temas do álbum, já quase no final, Change. "Every time that we run, we don't know what it's from/ Now we finally slow down, we feel close to it/ There's a change gonna come, I don't know where or when/ But whenever it does, we'll be here for it." Ou como sintetiza em Get Free, a última canção, num registo de balada delreyniana também ela luminosa: "Finally, I'm crossing the threshold/ From the ordinary world/ To the reveal of my heart." E logo a seguir: "Take the dead out of the sea/ And the darkness from the arts/ This is my commitment/ My modern manifesto."

Lust for Life é então este regresso de quem tem vontade da vida, uma mudança anunciada em Change, quando Lana nos diz desse poder. "Change is a powerful thing, people are powerful beings/ Trying to find the power in me to be faithfull/ Change is a powerful thing, I feel it coming in me/ Maybe by the time Summer's done." Pelo verão está feito, ouvimos uma e outra vez.

[publicado originalmente no DN a 8 de agosto de 2017]

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