Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Pássaros e beijos na utopia cantada por Björk

por Miguel Marujo, em 18.12.17

Bj.jpg

 

O regresso da islandesa é um disco otimista que viaja entre as paisagens do seu país e as florestas venezuelanas. Mas também há sons que chegam do espaço num dos melhores álbuns do ano que será apresentado ao vivo em Paredes de Coura no próximo ano. Utopia é uma viagem ao futuro em 72 minutos

Entre as paisagens geladas da Islândia, as florestas densas de humidade e verde da Venezuela ou a improvável imensidão galáctica da Guerra das Estrelas, Björk traz-nos uma polifonia utópica de vozes, flautas, cantos de pássaros, cordas e eletrónicas que tornam este Utopia uma viagem em que o futuro se entranha em cada um dos seus 72 minutos.

E é das entranhas sempre que se deve falar dos álbuns da cantora islandesa, físicos, viscerais, orgânicos, numa pop que desde Biophilia recusa mediatismos e espartilhos. Prova disso é The Gate, o single de apresentação deste Utopia, que estilhaça a linguagem pop e nos faz planar por entre uma voz cada vez única, brilhantemente única, no universo musical atual.

Para trás ficaram os sons tão sombrios quanto poderosos do anterior Vulnicura (2015), história vivida e fresca da separação intempestiva de Björk e do seu então companheiro, Matthew Barney (episodicamente evocada em Sue Me). Com Utopia, é a própria intérprete-cantora-compositora que recupera o amor, no último verso cantado no álbum, pedindo Hold fort for love forever. Ou como cantava momentos antes nessa mesma canção (que tem um dos títulos mais otimistas do ano, Future Forever): "You say I mirror peoples' missions at them/ Now you mirror at me who I used to be/ What I gave to the world/ You've giving back at me."

O que Björk continua a dar ao mundo é este espanto feito música. A inspiração chegou também de álbuns antigos que ela e o seu companheiro desta viagem (que já tinha colaborado em Vulnicura), o produtor venezuelano Arca, ouviram no processo de criação de Utopia. "Eu queria que o álbum fosse como o ar, por isso há ar por todo o lado, nas letras, na minha voz, nas flautas, e onde as flautas mudam para sintetizadores e os sintetizadores para as flautas", explica à revista britânica Uncut.

Estas flautas estão por todo o lado (e na capa também há uma) como os pássaros. "Há pássaros no álbum que nunca ouvi e que soam como techno, e há também pássaros islandeses, corvos e himbrimi, mobelhas-grandes, que vivem junto à minha cabana" na Islândia, junta Björk na mesma conversa.

Noutra entrevista, à New Musical Express, a islandesa conta que também usou um álbum de vinil de música venezuelana, que tem na sua coleção, Hekura-Yanomamo Shamanism From Southern Venezuela, gravado nos anos 1970, com pássaros venezuelanos. "Os pássaros soam completamente diferentes", diz. "Eles soam como o R2-D2, ou techno", acrescenta, invocando o pequeno robô da saga de George Lucas. Os pássaros, insiste Björk, parecem-se com sintetizadores analógicos dos anos 1970. "É um dos meus ruídos favoritos de todos os tempos", entusiasma-se a islandesa, falando do álbum de xamanismo dos Yanomami. "Pode realmente ouvir-se os arranhões do vinil nos pássaros. É uma afinidade em camadas para mim."

Björk entra em The Gate para explicar que "há um som bonito" que termina no início dessa canção, "uma gravação de pássaros que os venezuelanos acreditam serem fantasmas de fetos. Se eles têm nados-mortos ou crianças pequenas que morrem, eles pensam que vão para a selva e fazem esses sons".

Não há nada de macabro nestas leituras da islandesa. Estes sons são oníricos e líricos, uma poesia que respira amor. Na descoberta de sons e no diálogo com Arca, Björk escreveu um arranjo para harpa que remeteu para o produtor. "Na altura não tinha consciência disso, mas acho que provavelmente estava a realizar um dos momentos mais festivos e ampliando-o numa canção sobre um beijo. São como cíclicos fogos-de-artifício em redor da boca de alguém que se está a beijar pela primeira vez. Aquelas faíscas que voam quando duas bocas se encontram." É Arisen My Senses, a canção de abertura de Utopia.

Nos tempos que se vivem é urgente definir uma utopia, aponta a autora. Body Memory estende-se nos seus quase dez minutos por entre coros e a voz sempre distinta de Björk e Losss parece convocar lá longe, no tempo, aquela mulher de óculos grossos que iniciava uma estranha dança por entre máquinas e o ritmo sincopado industrial com uma letra que explicava que também isto é música: "Clatter, crash, clack/ Racket, bang, thump/ Rattle, clang, crack, thud, whack, bam!/ It's music/ Now dance." Era Selmasongs, o álbum de canções que ilustravam na perfeição as imagens do filme Dancer in the Dark.

A obra de Björk não é estanque, faísca entre passado e presente (uma das referências assumidas pela islandesa é um velho "lado b" seu, Batabid), como duas bocas que se encontram e beijam e criam algo de novo.

Precipitaram-se pois as publicações da especialidade ao publicarem as suas listas dos melhores do ano antes de novembro se finar, não incluindo nessas listas Utopia (que a islandesa trará em 18 de agosto a Paredes de Coura e foi já lançado a 24 de novembro). Ultrapassada a fealdade quase repulsiva da capa, este novo álbum é um dos mais belos trabalhos de 2017. E cheio de amor.

[texto publicado originalmente no DN a 16 de dezembro de 2017]

Autoria e outros dados (tags, etc)

Mão-Morta.jpg

Novo álbum dos Mão Morta regista os concertos com o Remix Ensemble. "Duas estruturas abertas a trocarem galhardetes e experiências", diz Adolfo Luxúria Canibal ao DN. Uma declaração política

Só os mais distraídos podem estranhar o mais recente trabalho dos Mão Morta, resultado de quatro noites de concerto com o Remix Ensemble, a orquestra contemporânea com residência na Casa da Música. Nós Somos Aqueles Contra Quem Os Nossos Pais Nos Avisaram é o registo ao vivo em que a banda de Braga revisita o seu repertório num choque entre a garagem e a academia. Em entrevista ao DN, Adolfo Luxúria Canibal recordou que "este bichinho" vinha já de 2012, com uma experiência ensaiada na Guimarães Capital Europeia da Cultura.

"Nós não queríamos pegar no nosso repertório e dar-lhe um ar sinfónico, não o queríamos adornar, queríamos pô-lo em causa, de alguma forma suscitar uma espécie de choque entre duas formas de olhar e fazer música, entre a forma da garagem, a forma popular, ligada ao rock, e a forma académica, erudita, dos conservatórios. Para que acontecesse esse choque e desse frutos, não podíamos estarmos numa posição perfeitamente popular e não podíamos chocar contra alguém perfeitamente fechado no seu academismo. Tinham de ser duas estruturas abertas a trocarem galhardetes e experiências."

Os Mão Morta, desafiados pelo Theatro Circo a encerrar as comemorações dos 100 anos desta estrutura cultural de Braga, em 2016, quiseram fazê-lo com a sinfonieta de 15 elementos, dirigidos pelo maestro Pedro Neves, e arranjos de Telmo Marques. Adolfo não lhes poupa elogios. "O Remix Ensemble é, dentro da música erudita e contemporânea, um agrupamento de exceção. Achámos que o Remix seria o nosso oponente ideal."

Não se esperem adornos ou meros ornamentos, os Mão Morta não se domesticaram. Recordando os primeiros anos, na década de 1980, Luxúria Canibal lembra que "todos os concertos dessa época eram muito mais viscerais". "Na altura arranhávamos muito mal os instrumentos, conseguíamos fazer o que queríamos mas era limitado pelo que sabíamos — e sabíamos muito pouco, fazíamos coisas muito mais rudes e primitivas do que fazemos hoje." Mas "a essência dos concertos dos Mão Morta mantém-se. A forma como interpretamos visceralmente os temas continua a ser idêntica, a sua exteriorização é que já não é a mesma. A forma como encarnamos e como levamos a sério, sem nos levarmos a sério, o que estamos a tocar, continua a ser exatamente o mesmo."

Nós Somos Aqueles Contra Quem Os Nossos Pais Nos Avisaram não é só o título deste álbum, é uma declaração política. Mas Adolfo recusa que esta música seja de intervenção, pelo menos no "sentido em que se cristalizou a ideia" desse género. "Não temos nada a ver com esse tipo de intervenção mais imediato." No entanto, "de alguma forma falamos sobre política, temos um olhar social sobre o mundo, isso temos e não escondemos e fazemos finca-pé em ter a liberdade de o fazer. Não distribuímos palavras, não chamamos as pessoas à ação." E regressa ao choque que é este disco. "Quando chegámos ao fim dos nossos espetáculos, sentimos que tínhamos ultrapassado a diferença, a rutura que existe entre estes dois universos, o olhar o outro como o diferente sem ter receio do outro — que é uma banalidade do quotidiano, basta ver como olhamos para os muçulmanos, para minorias, todo este advento da extrema-direita, do Trump..."

E nós podemos ser aqueles que vos avisamos, tomando as palavras de Adolfo. "Uma pessoa ouve estes temas e não diz, 'ah, isto é o património dos Mão Morta com toquezinhos sinfónicos'. Não, não é, há ali uma revisão completa." E funciona muito bem.

[texto publicado originalmente no DN a 12 de março de 2017]

Autoria e outros dados (tags, etc)




Seguir

foto do autor


Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2006
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2005
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2004
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2003
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D


Links

KO! [EM DESTAQUE]

  •  
  • OS QUE LINKAM A...

  •  
  • MUITO CÁ DE TODOS OS DIAS

  •  
  • CÁ DA CASA TUDO PARADO

  •  
  • MUITO CÁ DO PRÉDIO

  •  
  • MUITO CÁ DO BAIRRO

  •  
  • ESPECIALISTAS [CINEMÚSICA]

  •  
  • ESPECIALISTAS [COMUNICAÇÃO]

  •  
  • ESPECIALISTAS [ESCRITA]

  •  
  • ESPECIALISTAS [HISTÓRIA]

  •  
  • ESPECIALISTAS [FOTOGRAFIA+ILUSTRAÇÃO]

  •  
  • ESPECIALISTAS [IGREJA]

  •  
  • ESPECIALISTAS [HUMOR]

  •  
  • ESPECIALISTAS [SABERES]

  •  
  • PARA DESCOBRIR

  •  
  • FORA DOS BLOGUES





    Sitemeter