Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


LCD.jpg

 A notícia sobre o fim dos LCD Soundsystem foi manifestamente exagerada, já sabemos. Depois de um concerto que seria um longo adeus, em 2011, James Murphy regressou, primeiro com uma canção de Natal, em 2015, depois com concertos aqui e ali e, por fim, o anúncio de que vinha novo álbum, antecipado por três canções.

Há sempre um risco quando se espera muito tempo por algo de que gostamos bastante, mas o compositor, produtor e frontman dos LCD Soundsystem não falhou neste seu renascimento em que revisita o sonho da América, neste novo American Dream. Neste intervalo, Murphy fez muitas outras coisas mas não descurou o seu gosto, apurado nos três (sim, apenas três) álbuns que fazem do grupo uma história maior na música americana — um primeiro disco homónimo (2005), o segundo Sound of Silver (2007) e o terceiro This Is Happening (2010), a que se somam álbuns de remisturas e gravações ao vivo.

Quem conhece estas suas obras anteriores sabe das múltiplas referências musicais, nos estilos e nos nomes, que Murphy bebe e destila para apurar um som e um conceito únicos. Para American Dream foram convocados os nomes de Lou Reed, Leonard Cohen, Alan Vega, dos Suicide, e David Bowie (todos eles morreram nestes últimos anos), mas também os Talking Heads de Once in a Lifetime se fazem ouvir ao som da guitarra de Robert Fripp em Other Voices.

Esta curiosidade pelo mundo dos sons levou James Murphy às propostas mais inesperadas. O homem que chegou tarde à linha da frente do palco (e porque os The Rapture, a banda que se preparava para produzir, foram bater à porta ao lado) chateou à exaustão as autoridades de transportes de Nova Iorque para que o som dos torniquetes do metro da cidade fosse alterado para "uma bela sinfonia eletrónica". Ao jornal britânico The Guardian, um funcionário da empresa explicou com enfado que o ouviram muitas vezes e que lhe responderam repetidamente que não podiam fazer isso.

Será pois um jogo divertido percorrer as estrias de American Dream a adivinhar as influências de um melómano que nunca teve vergonha em cruzar o rock e música das pistas de dança, mas o que este registo revela é um trabalho de filigrana que depura todas essas influências num som muito seu e próprio.

Logo a abrir há a espantosa Oh Baby, que explica-se exatamente assim, depurado, viciante nas suas camadas de um ritmo cadenciado de sintetizadores a acompanharem numa dolência quase sensual a voz inconfundível de Murphy, um sonho mau nos braços do seu amor. Em Other Voices, os LCD Soundsystem abrem a janela e deixam entrar a luz, avançando para um jogo de percussões em que Murphy é acompanhado por Nancy Whang para mais um poema desconfortável sobre as relações — de amizade e amor. Este é um álbum de pessoas comuns, em que se cruzam heróis e uma visão do sonho americano, que é hoje mais amarga (e não, Murphy não precisa de se meter na política para fazer destas letras um olhar desencantado dos tempos de hoje).

O passo seguinte é I Used To em que o nova-iorquino canta "I"m still trying to wake up/ I"m so tired to wake up", num registo que se mantém — seja nos sons como nas palavras — em Change Yr Mind, em que Murphy reconhece que "I ain't seen anyone for days/ I still have yet to leave the bed/ It's impossible/ Feeling safe with it now". Change Yr Mind antecede uma composição intricada que se prolonga por mais de nove minutos, How Do You Sleep, uma canção com tempo para o crescendo de baterias, percussões, sintetizadores e uma voz mais aguda a dar-nos conta de que "You warned me about the cocaine/ Then dove straight in", com uma ténue esperança quase a fechar este tema: "And if I see you, it's like nothing went wrong."

Nada corre mal neste álbum que entra na sua segunda metade com os três temas já conhecidos, que apresentaram o regresso dos LCD Soundsystem: Tonite, Call the Police e American Dream, cada uma à sua maneira, transportam-nos de novo para relações difíceis ("Oh good gracious/ I sound like my mom", lamenta-se com humor) num tempo em que nem aqueles que amamos nos salvam ("I never realized these artists thought so much about dying", diz-nos em Tonite).

O sonho americano parece ainda mais difícil de se viver, como notam os versos de American Dream: "Grab your clothes and head to the doorway/ If you dance out, no one complains/ Find the place where you can be boring/ Where you won't need to explain/ That you're sick in the head and you wish you were dead."

Este desencanto caminha para o fim, com Emotional Haircut a antecipar o mais longo tema do álbum, de 12 minutos, uma canção que é deste tempo: Black Screen canta Murphy no seu ecrã negro do computador, numa canção a meias (em sonhos) com David Bowie.

O The Guardian escreveu que só uma coisa pode ensombrar a genialidade de American Dream: os álbuns precedentes dos LCD Soundsystem. Deem-lhe tempo, ouçam-no muito.

[originalmente publicado no DN a 5 de setembro de 2017 | foto de Artur Machado/Global Imagens, dos LCD Soundsystem em Paredes de Coura em 2016]

Autoria e outros dados (tags, etc)

LanadelRey.png

 

Está já dito: Elizabeth Grant voltou feliz, a dizer-nos que mudou, mesmo que não saiba dizer se está feliz, a falar-nos do verão e a respirar amor nas canções e nas palavras, all you need is love avisa ela em Lust for Life, um título que deixa para trás uma atração pelo abismo, ainda que essa nos parecesse mais encenada que verdadeira.

É inevitável que a cada novo álbum (e está aí o quarto) Lana del Rey — a personagem musical que Elizabeth personifica há seis anos — seja mais discutida por aquilo que parece do que por aquilo que é. Verdade se diga: muito por culpa da própria, enredada em proclamações sobre a morte ou o feminismo. E estas sentenças, repetidas e excessivas, sentenciaram muitas vezes convicções sobre a música sem que se prestasse atenção às músicas, desde a explosão de Video Games (2011), passando por Born to Die, a canção e o álbum de 2012, Ride, National Anthem, Ultraviolence, Honeymoon, God Knows I Tried ou a assombrosa versão de Blue Velvet.

A abrir Lust for Life, Lana canta então o amor, em Love, que é também a celebração da nostalgia, o primeiro e mais arrebatador single do álbum que não traz grandes ruturas com a sonoridade que Del Rey fez sua, tecida entre uma voz tão sussurrada quanto lânguida, grave e serena, num formato assumidamente pop que dialoga com orquestrações rítmicas densas.

Neste quarto álbum, há tempo para a americana piscar o olho ao rhythm'n'blues e subir literalmente ao topo de Hollywood, o letreiro no Mount Lee sobranceiro à cidade de Los Angeles, na companhia do canadiano The Weeknd. "Climb up the H of the Hollywood sign, yeah/ In these stolen moments/ The world is mine/ There's nobody here, just us together/ Keepin' me hot like July forever", e Abel Makkonen Tesfaye a subir e a dançar com ela também no vídeo. Há roupagens e códigos do hip hop a navegarem de forma mais evidente em Summer Bummer com Playboi Carti e A$AP Rocky ou em Groupie Love, também com A$AP Rocky, ou na produção de Metro Boomin, o jovem DJ e produtor do Missouri, sem que se deixe de sentir que o álbum é de Lana del Rey.

Há outras colaborações que resgatam Stevie Nicks para um dueto em Beautiful People Beautiful Problems e Sean Ono Lennon em Tomorrow Never Came, mas em que o registo, que é de Lana, sai valorizado pela vocalista dos Fleetwood Mac e pelo filho de Yoko Ono e John Lennon.

Na capa, não há carros, como houve nos álbuns anteriores, mas há um White Mustang que ele conduz, depois de ela empacotar as coisas todas para o verão. Há as praias da Califórnia que Lana não se cansa de cantar, como em 13 Beaches, metáfora para perseguições de paparazzi, em que a cantora chega à praia deserta que é finalmente sua.

No álbum, há críticas a estes tempos em que Donald Trump é eleito, numa América desencantada, como aquela que canta em God Bless America - And All the Beautiful Women in It: "May you stand proud and strong like Lady Liberty shining all night long", canta o verso, e é impossível não reconhecer uma referência ao presidente americano. "É como que gritar pelas mulheres ou quaisquer outras pessoas que nem sempre se sentem seguras a caminhar pelas ruas à noite. Foi nisso que pensei quando escrevi even when I'm alone I'm not lonely/ I feel your arms around me. Não é sempre como me sinto quando caminho pela rua, mas por vezes na minha música tento escrever sobre um local onde quero chegar", explicou-se em entrevista à Pitchfork.

Nessa conversa com a publicação online americana, Lana del Rey recusa-se com um suspiro a dizer se vê o mundo a cores agora. "Eu realmente não sei como descrever a minha perspetiva no momento." Ou se Lust for Life é uma tentativa para o ver assim, a cores. "Não é. Não sei do que se trata. Não sei o que é." Nova insistência, sobre se pelo menos este álbum procura dizer que Lana quer ser feliz. Nova fuga em frente. "Não. É apenas algo que está a acontecer."

Não é só. A própria canta-o num dos melhores temas do álbum, já quase no final, Change. "Every time that we run, we don't know what it's from/ Now we finally slow down, we feel close to it/ There's a change gonna come, I don't know where or when/ But whenever it does, we'll be here for it." Ou como sintetiza em Get Free, a última canção, num registo de balada delreyniana também ela luminosa: "Finally, I'm crossing the threshold/ From the ordinary world/ To the reveal of my heart." E logo a seguir: "Take the dead out of the sea/ And the darkness from the arts/ This is my commitment/ My modern manifesto."

Lust for Life é então este regresso de quem tem vontade da vida, uma mudança anunciada em Change, quando Lana nos diz desse poder. "Change is a powerful thing, people are powerful beings/ Trying to find the power in me to be faithfull/ Change is a powerful thing, I feel it coming in me/ Maybe by the time Summer's done." Pelo verão está feito, ouvimos uma e outra vez.

[publicado originalmente no DN a 8 de agosto de 2017]

Autoria e outros dados (tags, etc)




Seguir

foto do autor


Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2008
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2007
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2006
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2005
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2004
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2003
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D


Links

KO! [EM DESTAQUE]

  •  
  • OS QUE LINKAM A...

  •  
  • MUITO CÁ DE TODOS OS DIAS

  •  
  • CÁ DA CASA TUDO PARADO

  •  
  • MUITO CÁ DO PRÉDIO

  •  
  • MUITO CÁ DO BAIRRO

  •  
  • ESPECIALISTAS [CINEMÚSICA]

  •  
  • ESPECIALISTAS [COMUNICAÇÃO]

  •  
  • ESPECIALISTAS [ESCRITA]

  •  
  • ESPECIALISTAS [HISTÓRIA]

  •  
  • ESPECIALISTAS [FOTOGRAFIA+ILUSTRAÇÃO]

  •  
  • ESPECIALISTAS [IGREJA]

  •  
  • ESPECIALISTAS [HUMOR]

  •  
  • ESPECIALISTAS [SABERES]

  •  
  • PARA DESCOBRIR

  •  
  • FORA DOS BLOGUES





    Sitemeter