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 Há 20 anos, quando vinha aí a correr o século XXI, os Radiohead anteciparam-se ao milénio para nos cantarem logo como era - OK Computer, nascido entre 1996 e 1997, fechou-nos em casa, dias a fio assim, a ouvir o álbum que profetizaria a idade digital que vivemos sem o adivinharmos, uma revolução em forma de disco.

Agora, 20 anos depois de 21 de maio de 1997, data do seu lançamento, os Radiohead revisitam uma das suas obras maiores (e a mais icónica) juntando três inéditos e muitos lados b à história perfeita dos 12 temas originais, aqui remasterizados, numa edição a que deram o nome de OK Computer OKNOTOK.

A história é conhecida: o vocalista Thom Yorke dizia que andava a preparar um álbum "positivo", depois de Creep ter feito o sucesso de Pablo Honey (1994) e de The Bends (1995), o seu segundo álbum, ter entreaberto a porta a novas sonoridades. Faltou em otimismo o que sobrou em claustrofobia e nem as suspeitas guitarras que abrem Airbag, no início de OK Computer, disfarçam o que logo se intui: este álbum seria diferente, romperia com a britpop em que já tinham sido arrumados estes rapazes de Oxford. E se dúvidas restassem, Paranoid Android, o segundo tema, desfazia numa assentada, com a voz sempre aparentemente frágil e perdida de Thom Yorke a deambular por entre personagens que nos assustam. Será também assim em Karma Police, outra canção que entrou num panteão onde o difícil é indicar alguma que fique de fora. This is what you'll get, When you mess with us, canta Thom.

Como se escreveu no jornal britânico The Guardian, "o facto de continuarmos a achar que OK Computer é muito mais do que estrelas de rock a gemerem por serem estrelas de rock tem tanto que ver com a música como com a habilidade lírica de Yorke em transformar os seus medos e ansiedades pessoais em algo mais universal".

Nem todas as canções eram novidade: Lucky tinha surgido no álbum a favor das crianças vítimas da guerra na Bósnia, HELP, gravado num único dia, e Exit Music (For a Film) acompanhava os créditos finais de um filme do ano anterior, a fantástica versão pop shakespeariana de Romeo+Juliet de Baz Luhrmann, mas tinha ficado de fora da banda sonora publicada. O contributo para HELP é também importante por outro facto: Nigel Godrich, que já tinha trabalhado com a banda como engenheiro de som, produziu Lucky e seria chamado depois para OK Computer, tornando-se a partir daí um sexto radiohead, ajudando a cozinhar a complexidade sonora de várias camadas de que vive o álbum - e que seria aprofundado até aos limites da desconstrução pop em Kid A (2000) e Amnesiac (2001), as obras que se lhe seguiram.

Num tempo em que o YouTube ou o streaming eram quase ficção científica e que os telemóveis não cabiam num bolso nem estavam à distância de todos os bolsos, OK Computer teve honras de apresentação mundial, durante três noites de maio de 1997, em Lisboa, num Paradise Garage que nunca esgotou, apesar do sucesso de culto que os britânicos já iam conhecendo por cá.

Vinte anos depois, OKNOTOK deixa-nos KO, ao redescobrir que o sopro de inventividade e genialidade do álbum de 1997 permanece intacto e que os lados b e as canções inéditas ajudam a compreender o processo criativo do grupo e a perceber porque é que OK Computer ainda é essencial. Já estamos no século XXI, sem necessidade de nos fecharmos em casa, mas podemos sair a correr enquanto Thom Yorke nos pede aos ouvidos: "Please could you stop the noise/ I'm trying to get some rest/ From all the unborn chicken voices in my head/ What's that?" É um objeto belo este.

[texto publicado originalmente no DN a 25/6/17]

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