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mon amour, la mort

por Miguel Marujo, em 29.01.17

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Emmanuelle Riva. 1927-2017. Em "Hiroxima, meu amor" é o rosto e o corpo de uma história impossível. Em "Amor" é o rosto e a memória da história possível. Dois filmes filmados com mais de meio século de diferença, em que ela nos ensinou a fazer a diferença. Morreu no sábado, dia 28.

E no mesmo dia 28 morreu John Hurt. O homem elefante, o ator imperador.

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Listen very carefully: morreu René

por Miguel Marujo, em 23.01.17

 

Morreu Gorden Kaye, o René de 'Allo 'Allo!. Ator tinha 75 anos e foi o principal rosto de uma das mais populares séries de humor da televisão britânica dos anos 1980.

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Sobre o futebol e outros suicídios do jornalismo

por Miguel Marujo, em 15.01.17

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(ou como jornalistas e católicos são tão parecidos)

António Marujo

 

"Hesitei muito sobre a minha participação no congresso e sobre a possibilidade de fazer ou não esta comunicação – já direi porquê. Desde há anos, foi crescendo o meu desencanto com algumas práticas do jornalismo. A 7 de Julho de 2014, esse desencanto ficou gravado como um espinho na carne: nesse dia, estive à porta do DN, numa manifestação contra os despedimentos que a então Controlinveste se preparava para fazer em vários meios do grupo. Nesse dia, ou na véspera, tinha ouvido na TSF (rádio do grupo, onde também haveria despedimentos) um noticiário que abriu com as declarações de um treinador de futebol sobre as suas expectativas acerca de um jogo que seria disputado dois dias depois. 

Dei comigo a pensar que estávamos ali alguns (não muitos, aliás...) a protestar contra mais uma decisão intolerável de uma administração, mas que muito do que está a acontecer com as redacções e o jornalismo é cada vez mais da nossa responsabilidade. 

Infelizmente, situações deste género repetem-se com demasiada frequência sobretudo nas televisões e em algumas rádios, dando um espaço desmesurado a coisas que, em si, não são notícia (é notícia ouvir “a minha equipa vai dar o melhor?” ou são notícia cuspidelas em balneários?...); promovemos programas de suposto debate que, exacerbando clubites já de si agudas, não debatem coisa nenhuma e só contribuem para degradar o nível do debate público; somos, enquanto jornalistas, veículo da publicidade dos patrocinadores de campeonatos ou clubes; fazemos entrevistas rápidas em cenários de marcas comerciais; designamos campeonatos com o nome dos patrocinadores... Há anos, o Parlamento quis impor restrições à livre circulação dos jornalistas em S. Bento; durante um mês, omitimos o noticiário parlamentar, em protesto contra essa ideia e os deputados recuaram. Pelos vistos, é mais fácil enfrentarmos o poder político que o poder do futebol...

Em síntese, o jornalismo desportivo audiovisual reflecte a tremenda inversão das prioridades noticiosas. Recordo-me de ouvir um camarada de televisão que esteve na Alemanha a acompanhar o Mundial de Futebol de 2006, contar que nem os jogos nem o próprio torneio eram notícia nos jornais televisivos daquele país; havia, isso sim, programas especiais, bem feitos e criativos, a propósito do futebol, mas ele não ocupava horas infindas de emissão até à náusea, sem nada para dizer.

Não quero generalizar e também não digo que o jornalismo é pior agora do que antes – não creio que alguma vez tenha havido uma idade de ouro do jornalismo. Mas, para os problemas de cada tempo, os jornalistas foram procurando respostas. E hoje não vejo que isso aconteça. Este congresso pode ser o início da inversão desta tendência e por isso estou muito grato a quem teve a ideia e o organizou.  

As situações que referia não são receita para o sucesso. Se fosse, não teríamos cada vez menos leitores e audiências.

Claro que não é só o futebol o problema. Matamos o jornalismo e o melhor de nós, também, pelo facto de não querermos saber, muitas vezes, da vida das pessoas. Saúde, educação ou justiça, por exemplo, interessam, na maior parte dos casos, mais pelas guerras políticas do que pelos efeitos para cidadãos e utentes. Suspiramos por equipas Soptlight mas não investigamos coisas básicas até ao fim: em Fevereiro de 2010, o então presidente do governo regional da Madeira decretou que havia 47 mortos nas inundações no Funchal. Bastaria perguntar aos vários padres da cidade quantos funerais tinham feito e contar a história de cada pessoa que morrera para perceber se aquele número é verdadeiro ou não. Aqui fica uma ideia para o próximo 20 de Fevereiro (e não cobro direitos de autor por ela, apesar de estar desempregado). Esquecemos a importância de contar profundamente as histórias da actualidade – o que se passou com a alegada agressão dos filhos do embaixador iraquiano, em que estivemos vários dias sem perceber importantes detalhes do sucedido, é exemplo disso.

Também foi muito triste assistir aos debates televisivos que acompanharam as manifestações de Paris, no Domingo seguinte aos atentados contra o Charlie Hebdo; todos os moderadores e convidados peroravam sobre segurança, islão, terrorismo, história e religião, manifestando uma profunda ignorância sobre o islão, a história ou questões religiosas. 

Suicidamo-nos enquanto profissionais quando misturamos informação e entretenimento; quando abdicamos de ser jornalistas e entregamos esse papel a comentadores que mais não são que políticos ou economistas com interesses a defender; quando destratamos a língua, adoptando o “economês”, o “politiquês” ou o inglês porque é mais sexy; quando nos encerramos cada vez mais numa bolha, sem conhecer a realidade de tantas vidas; quando as questões laborais passam a interessar quase só na sua vertente económica ou economicista; quando o emprego e o desemprego são estatísticas que se debitam sem rosto e sem nome; quando não somos críticos para com os verdadeiros poderes que hoje nos dominam e que ninguém elegeu – o financeiro e o económico. O que se passou, por exemplo, com a inconsequente divulgação dos Panama Papers, é revelador. Mas essa falta de espírito crítico revela-se na forma como se acolhe cada vez mais, no jornalismo, a legitimidade de banqueiros, agências de notação financeira e outras entidades que não são escrutinadas por ninguém e que ameaçam a sobrevivência da própria democracia enquanto escolha livre dos cidadãos sobre a forma como querem ser governados. 

Grave também é que nos preocupamos cada vez mais em ser os primeiros em dar a notícia, sacrificando a correcção e o rigor. O que se passou com os obituários do Presidente Mário Soares é exemplo disso. 

Esta não é, repito, a receita para o sucesso. Se fosse, não estaríamos a falar da crise do jornalismo. Falta-nos espírito autocrítico. Aliás, como eu tenho feito jornalismo religioso, vejo que muitos jornalistas e muitos católicos se parecem: num caso, a culpa é da internet, das novas tecnologias ou dos patrões; no outro, é a perda de valores e os novos padrões culturais. Nem uns nem outros procuram entender as razões profundas que levam ao afastamento das pessoas. 

Entre parêntesis: mais dificilmente eu estaria no desemprego se tratasse de futebol ou de economia. Mas como trato de religião (apesar de ter ajudado várias vezes o jornal onde trabalhei a aumentar as vendas com trabalhos que fiz), sinto-me às vezes como acontece muito com as mulheres em algumas áreas: tenho de provar duplamente a minha competência, sendo-me exigidas coisas que não o são noutros trabalhos. 

Também desvirtuámos o nosso papel: passámos a ter directores e editores que, em boa parte do tempo, abdicam dessas funções e da exigência de pensar o trabalho editorial, para passar a ser gestores do tempo, de orçamentos e de dinheiro; pior: em vez de assumirem o seu papel de jornalistas e se colocarem ao lado dos seus jornalistas e redacções, colocam-se, muitas vezes, contra eles, ao lado das administrações ( o caso Relvas no Público foi lamentável). 

Para quem está desempregado como eu, a conversa sobre a falta de dinheiro tem uma variante: pergunta-se se estamos disponíveis para fazer um trabalho e avisa-se logo, à cabeça, que não há muito dinheiro para pagar (forma suave de dizer que o que se paga roça por vezes a indignidade). Nunca quis ser rico, só quero que o meu trabalho seja dignamente pago. E são camaradas meus que me propõem estas coisas mas, a seguir, lamentam o estado a que chegámos. 

Hernest J. Gans escrevia em 2003, no livro Democracy and the news, que as pressões pelo lucro e as reduções orçamentais nos meios de comunicação “afectaram também o controlo dos jornalistas sobre as notícias e a sua autonomia profissional” na concepção das mesmas. Com isso, romperam-se os “antigos muros entre ‘igreja’ e ‘estado’” (sendo igreja, nesta leitura, o jornalismo, aquilo que para nós deveria ser sagrado, e correspondendo o estado às administrações), com os executivos do marketing e da publicidade a sugerirem aos directores e editores “que prestem mais atenção às necessidades comerciais das empresas”.

A 19 de Janeiro de 2016, Dillon Baker situava o fim dessa separação nos EUA em Setembro de 2015, quando Margaret Sullivan, editora do The New York Times, anunciou que um editor sénior do jornal iria trabalhar com a redacção para “analisar artigos e projetos” que poderiam ser patrocinados. Mas admitia que a separação vinha “morrendo lentamente há anos” e que a maioria dos editores/directores tem promovido a ideia de quebrar essa separação, alegando que uma melhor cooperação e mais transparência irá melhorar a paisagem editorial como um todo.

Sabendo das dificuldades de ser director e editor hoje em dia, o que gostaria era de ver directores e editores serem um pouco mais consequentes com o que dizem em público. 

Não ignoro que a crise de alguns pilares do jornalismo coincide com a profunda crise da democracia ocidental que também atravessamos. Como profissão e serviço essenciais à democracia, a minha preocupação com o futuro da profissão coincide com a preocupação que tenho em relação ao futuro da democracia. Faltou aqui, na minha perspectiva, a leitura de alguém que nos ajudasse a relacionar o que se passa no mundo com o que se passa na profissão. 

Dizia no início que hesitei muito sobre a minha participação no congresso e sobre a possibilidade de fazer ou não esta comunicação. Acabei por decidir participar pelo respeito que tenho ainda pelo trabalho de muitas e muitos camaradas que, contra ventos da moda, das imposições ou das pressões, continuam a tentar trazer-nos o melhor do jornalismo (incluindo pessoas das mais novas gerações). E também porque não desisti de ser jornalista e de acreditar que esta profissão é essencial à sociedade, quando é capaz de cumprir o seu papel. Por isso quis ajudar neste diagnóstico, com mais um contributo para um momento de que precisamos com urgência: o de parar para pensar. Espero sinceramente que este congresso confirme a minha expectativa de vir a ser o primeiro momento desse momento."

[intervenção do meu irmão, este sábado, 14, no 4º Congresso dos Jornalistas]

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Os dois sonetos de amor da hora triste

por Miguel Marujo, em 10.01.17

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I
Quando eu morrer - e hei-de morrer primeiro
do que tu - não deixes fechar-me os olhos
meu Amor. Continua a espelhar-te nos meus olhos
e ver-te-ás de corpo inteiro

como quando sorrias no meu colo.
E, ao veres que tenho toda a tua imagem
dentro de mim, se, então, tiveres coragem,
fecha-me os olhos com um beijo.

Eu, Marco Pólo,

farei a nebulosa travessia
e o rastro da minha barca
segui-lo-ás em pensamento. Abarca

nele o mar inteiro, o porto, a ria...
E, se me vires chegar ao cais dos céus,
ver-me-ás, debruçado sobre as ondas, para dizer-te adeus.

II
Não um adeus distante
ou um adeus de quem não torna cá,
nem espera tornar. Um adeus de até já,
como a alguém que se espera a cada instante.

Que eu voltarei. Eu sei que hei-de voltar
de novo para ti, no mesmo barco
sem remos e sem velas, pelo charco
azul do céu, cansado de lá estar.

E viverei em ti como um eflúvio, uma recordação.
E não quero que chores para fora,
Amor, que tu bem sabes que quem chora

assim, mente. E, se quiseres partir e o coração
to peça, diz-mo. A travessia é longa... Não atino
talvez na rota. Que nos importa, aos dois, ir sem destino.

Álvaro Feijó, lido na evocação de Mário Soares, pela voz de Maria Barroso

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"Peço desculpa, mas retiro-me."

por Miguel Marujo, em 07.01.17

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Morreu hoje Mário Soares. A notícia da morte aos 92 anos do antigo primeiro-ministro e antigo Presidente da República foi confirmada pelo Hospital da Cruz Vermelha, em Lisboa, depois de Mário Alberto Nobre Lopes Soares ter sido internado nessa instituição, já na madrugada de 13 de dezembro.

Nascido em Lisboa, a 7 de dezembro de 1924, Mário Soares era visto cada vez menos em público. A última vez tinha sido a 28 de setembro passado, numa homenagem do atual Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, à sua mulher, Maria Barroso, que morreu em 2015, a 7 de julho, no mesmo hospital onde estava agora internado o marido. Mário Alberto estava então de rosa amarela na mão e rosto enrugado do sorriso, amparado enquanto caminhava mas capaz de uma palmada mais vigorosa nas costas de Marcelo.

Um dos 27 que se juntou em abril de 1973 na cidade alemã de Bad Münstereifel para fundar o Partido Socialista teve uma vida intensa dedicada à política e à democracia. Advogado e professor, envolveu-se desde cedo em atividades de oposição à ditadura do Estado Novo. Preso 12 vezes, acabou deportado para São Tomé, em 1968, e depois exilou-se em França. A seguir ao 25 de Abril, regressou a Lisboa três dias depois, no que ficou conhecido como o "comboio da Liberdade", tendo a aguardá-lo uma multidão na estação de Santa Apolónia.

Desde então o Portugal democrático deve-lhe muito — é reconhecido como sendo o principal líder civil do campo da democracia na convulsão dos dias do PREC (Processo Revolucionário Em Curso) e, nestes 42 anos de liberdade no país, foi ministro dos Negócios Estrangeiros (1974-75) e primeiro-ministro por três vezes (1976-77, 1978 e 1983-85) e foi o obreiro da adesão de Portugal à CEE (a União Europeia de hoje) assinada em 1985.

Chegou a Presidente da República em 1986, como o primeiro Presidente "de todos os portugueses", como se afirmou nessa noite de 26 de janeiro em que foi eleito (numas eleições que dividiram o país ao meio). O seu primeiro mandato foi de tal modo consensual que seria reeleito com uns estratosféricos 70,35% (quase três milhões e meio de votos, resultado nunca alcançado por outro político em eleições nacionais).

Este largo consenso nunca escondeu o facto de Mário Soares não ser unânime. Houve um país à direita que nunca lhe perdoou o processo de descolonização nos anos de 1974-75, como se este processo não estivesse atrasado pela obstinação de uma ditadura. Houve outro país à esquerda que nunca lhe perdoou o 25 de novembro e um certo socialismo enfiado numa gaveta. Houve um país que lhe apontou uma relação nem sempre transparente com a coisa pública e outro país que nunca esqueceu um segundo mandato presidencial com o propósito de derrubar Cavaco Silva. Há um país que se lembra do último combate político permanente contra o governo de Passos Coelho — e em forma de letra todas as semanas nas páginas do DN — mas também da amizade que fez questão de manifestar até muito recentemente para com o ex-primeiro-ministro José Sócrates, a quem visitou na cadeia várias vezes.

Mário Soares deixou Belém em 1996, nas mãos de outro socialista, Jorge Sampaio, mas não se resignou a ser senador da República. Primeiro, ensaiou um percurso internacional, ainda em dezembro de 1995, com a presidência da Comissão Mundial Independente sobre os Oceanos, mas a política doméstica voltaria a impor-se no seu percurso. Foi o cabeça de lista socialista às eleições europeias de 1999 e ensaiou a candidatura a presidente do Parlamento Europeu, que perderia para Nicole Fontaine, a quem se dirigiria de forma deselegante.

Anos mais tarde, em 2005, voltou a colocar-se na corrida a Belém, apenas para impedir que o então secretário-geral do PS, José Sócrates, apoiasse Manuel Alegre, outro histórico socialista, com quem estava zangado. A zanga foi má conselheira: Soares acabou humilhado em terceiro lugar e Alegre em segundo não evitou a eleição à primeira volta de... Cavaco Silva. Os dois só fariam as pazes oito anos depois, por telefone, mediados pelo líder socialista de então, António José Seguro, depois de Soares ter estado internado com uma forte encefalite, em janeiro de 2013.

Com quem Mário Soares nunca ultrapassou ressentimentos foi com Francisco Salgado Zenha. Amigos de longa data, socialistas, os dois divergiram em 1980 sobre o apoio a dar ao presidente recandidato Ramalho Eanes - e entraram em rutura, mais tarde sublinhada na candidatura dos dois às presidenciais em 1986.

A 20 de fevereiro de 2015, em entrevista ao jornal i, Mário Soares dizia que não seria "um homem imortal" para a história. "Eu? Não! Eu sou um pobre homem que teve a sorte de ter tomado posições e de ter acertado, e de ter sido auxiliado por muita gente." Em 2004, nas páginas do DN, já dizia de si: "Não acredito na eternidade, na imortalidade, na alma. O que fica de mim é um rodapé num livro de história."

Em 2013, numa homenagem a Aquilino Ribeiro, logo depois da doença que o atirou para a cama do hospital durante nove dias, Mário Soares fez uma intervenção em que deliciou quem o ouvia com pequenas histórias em que a memória já o atraiçoava. No final, arrumou os seus óculos no bolso interior do sobretudo. "Peço desculpa, mas retiro-me."

 

[texto da minha autoria publicado hoje no DN online, com o título Morreu o primeiro Presidente "de todos os portugueses", foto Arquivo DN/Global Imagens]

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