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acalmar.

por Miguel Marujo, em 31.07.15

 

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Caetano-Veloso-and-Gilber-006.jpg

Lá em Londres, de vez em quando, Gil e Caetano sentiam-se longe daqui, daqui da Bahia, a sua Bahia natal, tinham saudades do Brasil, na ausência de calor, de cor, de sal, de sol, de coração pra sentir, como cantarão os dois amanhã, no Parque dos Poetas, em Oeiras, num concerto que assinala 50 anos de carreira conjunta: “Caetano & Gil - Dois Amigos, Um Século de Música”, assim se chama a tournée europeia, iniciada há pouco mais de um mês na Holanda. E é Back in Bahia que abre o concerto, uma canção que “é do meio caminho, mas aponta para a história toda”, como se explicava há dias Caetano, nas páginas do Público.

Um e outro, Gilberto Gil e Caetano Veloso, corações vagabundos na capital britânica de 1969 a 1972, exilados políticos não pararam de olhar o Brasil lá longe, com o calor, cor, sal e sol metidos num colete de forças de uma ditadura militar que não gostava daqueles rapazes pretos, quase pretos, a cantarem tropicalismos, áfricas utópicas, sambas, quilombos e bossas novas.

Amanhã à noite, esses rapazes não são mais rapazes e (visto o alinhamento da digressão, que Gilberto Gil disponibilizou na sua conta do Spotify) em pouco mais de hora e meia vão regressar, só de voz e violão, para desfiar 25 canções em que cantam um percurso que foi moldado logo naqueles anos fundadores dos finais de 1960 - da prisão, do exílio, da denúncia social, de errantes navegantes. Como em Terra, dizia Caetano: “Quando eu me encontrava preso/Na cela de uma cadeia/Foi que eu vi pela primeira vez/As tais fotografias/Em que apareces inteira/Porém lá não estavas nua/E sim coberta de nuvens...”

De fora, fica o Haiti (de Tropicália 2, de 1993) que não é aqui, mas bem podia ser, quando tantos são quase pretos, e o mar Mediterrâneo ou o túnel da Mancha feito túmulo desses “quase pretos, ou quase brancos quase pretos de tão pobres”.

O passado de um e outro (e Gil chegou a ministro da Cultura, num governo de Lula) é político. E o presente, também o é. Caetano incomodou-se no programa Fantástico, da Globo. “Quando eu vejo agora na passeata [manifestação] um sujeito pedindo a volta do regime militar, eu fico dizendo o cara não sabe de nada, entendeu? Sabe de nada. Porque isso foi uma porcaria. Aquilo foi uma porcaria.”

Nascidos há 73 e 72 anos (leram bem: Gil nasceu em Salvador, a 26 de junho de 1942, Caetano em Santo Amaro, a 7 de agosto de 1942) trazem um alinhamento em que vão cantando canções de um só ou dos dois, mas sempre com os dois em palco, mesmo que sem tocar. Há músicas em que Caetano fica ali a observar Gilberto a tocar e a cantar, outras em que Gil acompanha Veloso na sua guitarra. Só em três momentos, os dois se socorrem de composições que não são suas: de Maria Bethânia, haverá Marginália II; de Gilberto e Jorge Ben Jor vai ouvir-se Filhos de Gandhi; e de Caetano e Maria Bethânia virá De Manhã. Na versão ao vivo desta canção que Gilberto Gil colocou no Spotify para escuta, Bethânia - nascida em 1946, é a sexta dos sete filhos de Seu Zezinho e Dona Canô, logo depois de Caetano - explica que o seu irmão “faz parte de tudo” da sua vida. “Desde meu nome que foi escolhido por ele, foi ele, compositor, que escolheu minha voz para cantar uma canção dele de um filme da Bahia.”

A Bahia, sempre ela, em redor do Pelourinho ou nas ruas de Santo Amaro, transpira-se no percurso dos dois, mesmo quando os dois experimentam outras línguas, não se tratando de meras concessões a um auditório europeu. Há sempre calor, cor, sal e sol, seja em Come Prima, Tonada de Luna Llena ou Tres Palabras.

Em abril passado, quando foi anunciada esta digressão, Caetano reconhecia que a escolha destas 25 canções era difícil. “É difícil para escolher porque é muito vasto, muita coisa. A gente tem é de encontrar um critério”, afirmava no programa Fantástico, da Globo. Ou como acrescentou ao Público. “Quisemos visitar todos os períodos de nossas carreiras, destacar músicas de relevância para nós nesses anos, e um opinou no repertório do outro.”

O critério, qualquer que ele tenha sido, fica defendido com a história comum. “Eu costumo dizer que é o irmão que eu não tive, né? A amizade toda se desenvolveu a partir desse sentimento básico, de proximidade parental mesmo”, justificou-se Gilberto no mesmo programa.

As canções nasceram assim, com Caetano a aprender a tocar violão com Gil. “Aprendi com ele. Olhando ele, olhando as mãos dele e ouvindo o que tocava. Eu queria deixar de fazer música e ele me pediu para que não fizesse isso.” Agora, nos 50 anos de carreira, percebe-se porquê. Gilberto contou no Fantástico que Caetano “tinha interesses variados, cinema, literatura, pintura, coisas assim. E aí [Gil] disse: ‘mas se você não for continuar a fazer música, eu também não vou fazer’.”

Veloso reconheceu que a música falou mais. “Para mim era a própria música que estava me pedindo. Era a própria música. Porque ele é a música.” E Gil ripostou: “A música não queria ficar pela metade.”

Foi Gilberto quem cantou, na canção que abre amanhã o concerto: “Hoje eu me sinto como se ter ido fosse necessário para voltar.” Ter ido para o exílio, entranhando nos sons de uma América quase preta as influências de uma transição de décadas que se agitavam na Europa, absorvendo.

“I’m alive, vivo, muito vivo”, canta Caetano em Nine Out of Ten, monumento tropical que vem de Transa, o álbum de 1972 que assinala a saída de Londres para o Brasil. Estão os dois vivos - e o nosso coração não se cansa deste verde esperança.

[hoje no DN, sobre o concerto de amanhã]

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bonjour tristesse

por Miguel Marujo, em 26.07.15

by-pablo-colturi.jpg

 

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aplausos omissos

por Miguel Marujo, em 26.07.15

feet.jpg

 

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aqui

por Miguel Marujo, em 25.07.15

 

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é aqui

por Miguel Marujo, em 25.07.15

Carandiru.jpg

 

[...]

E na TV se você vir um deputado em pânico
Mal dissimulado
Diante de qualquer, mas qualquer mesmo
Qualquer qualquer
Plano de educação
Que pareça fácil
Que pareça fácil e rápido
E vá representar uma ameaça de democratização do ensino de primeiro grau
E se esse mesmo deputado defender a adoção da pena capital
E o venerável cardeal disser que vê tanto espírito no feto
E nenhum no marginal
E se, ao furar o sinal, o velho sinal vermelho habitual
Notar um homem mijando na esquina da rua sobre um saco brilhante de lixo do Leblon

 

E quando ouvir o silêncio sorridente de São Paulo diante da chacina
111 presos indefesos
Mas presos são quase todos pretos
Ou quase pretos
Ou quase brancos quase pretos de tão pobres
E pobres são como podres
E todos sabem como se tratam os pretos
E quando você for dar uma volta no Caribe
E quando for trepar sem camisinha
E apresentar sua participação inteligente no bloqueio a Cuba

 

Pense no Haiti
Reze pelo Haiti

 

O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui

Caetano Veloso, Gilberto Gil

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Do bloco-notas

por Miguel Marujo, em 20.07.15

image.jpg

Das notas soltas que escrevi apressadamente para a apresentação deste livro, António Costa - Os meios e o fins do líder socialista, lançado na última quinta-feira, com sala cheia na FNAC Chiado (apesar de ausências mais notadas), trago-vos esta passagem:

 

Permitam-me uma breve nota biográfica minha. Iniciei a minha atividade política aos 14 anos, como AC. Sosseguem, acabam aqui as semelhanças com António Costa: foi numa associação juvenil, o Movimento Católico de Estudantes, que iniciei um caminho que foi uma verdadeira aprendizagem da política e da democracia. E aí o confronto e o diálogo com outros, juventudes partidárias incluídas, desafiava-nos sempre. Entendíamos que tínhamos de estar preparados, informados, estudar as coisas. É assim que hoje continuo a entender a forma de estar e participar na política: de uma maneira informada. E o leitor-eleitor poderá ter um instrumento e encontrar pistas para de uma forma mais informada participar nas escolhas que o país tem de fazer. Foi isso que nos propusemos. Não estrago a leitura se revelar o final deste livro. Seremos nós que vamos também escrever novas páginas desta biografia. O livro está nas vossas mãos para também vocês escreverem outras páginas: com uma leitura atenta e critica. É todo vosso.  

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Acha mesmo que escolhe um deputado?

por Miguel Marujo, em 11.07.15

"Sem prejuízo do direito de divergência em questões de consciência, os candidatos a deputados deverão igualmente assumir o compromisso de, sempre que estejam em causa questões consideradas relevantes para a política nacional, se fazer substituir, nos termos regimentais, por forma a assegurar a posição do Partido no momento das votações. Além disso, os candidatos a deputados deverão também comprometer-se a renunciar ao mandato no caso de existir uma persistente divergência entre as orientações gerais do Grupo Parlamentar, e a sua posição individual, em ordem a salvaguardar o pleno cumprimento das opções programáticas com que o Partido se apresenta aos Portugueses e que esteve na base da sua própria eleição." - dos critérios definidos pelo PSD para os seus candidatos a deputados [sublinhados nossos]

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Mais um pedaço da nossa memória

por Miguel Marujo, em 10.07.15

Sharif_in_Lawrence_of_Arabia.png

Omar Sharif, 1932-2015

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Convite.

por Miguel Marujo, em 09.07.15

AC convite.jpg

 

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O rosto

por Miguel Marujo, em 07.07.15

SoaresCVP.jpg

No dia 28 de junho, o fotógrafo da Global Imagens, Paulo Alexandrino, captou esta imagem à entrada do Hospital da Cruz Vermelha: Mário Soares chegava para visitar a sua companheira de uma vida cheia, Maria Barroso. O rosto diz muito da sua dor. Na morte de quem sempre viveu fora da sombra de Mário, o desamparo deste rosto diz tudo sobre quem antecipava o fim próximo da vida dela. Que foi uma vida cheia.

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Dos preguiçosos do Sul

por Miguel Marujo, em 06.07.15

calor.pjpeg

 

É ideia gasta, em dias gregos, mas que nos assenta como uma luva: somos preguiçosos. Os do Sul, essa faixa mais ou menos irreal entre o Cabo da Roca e o estreito do Bósforo, que não trabalham. E vem-me à memória aquele sueco, numa canícula de junho, por trás de um balcão de uma loja em Estocolmo, que deitava os bofes de fora com 28 graus. À indicação de Portugal, respondeu que Lisboa seria "assim" quente, que não, que era mais, que havia dias em que podia chegar aos 40 graus. No espanto da cara nórdica soltou-se a afirmação de que "não trabalham nesses dias, claro!". Claro que trabalhamos.

Talvez o clima devesse ajudar as aventesmas tecnocratas de Bruxelas e de governos afins a compreender determinados comportamentos - sim, a siesta faz sentido -, mas já que não compreendem, talvez fosse de os trazer para cá em dias de canícula e sem ar condicionado (que isso gasta dinheiro). Iam logo querer trabalhar menos, aumentar dias feriados, flexibilizar horários mas não estender. No fundo, a crise europeia começa no desconhecimento atroz da história, da cultura e geografia de uns e outros.

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Magníficos dias atlânticos (bloqueio)

por Miguel Marujo, em 03.07.15

 

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