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notas soltas de quem andou lá no meio

por Miguel Marujo, em 27.05.14

[andei durante 15 dias a acompanhar, em reportagem, a campanha do PS e depois a noite eleitoral no Altis - e o que aqui escrevo parte desses dias e do que via e ouvia sobre as outras campanhas]

 

A campanha.
Escrevi a meio da campanha, no DN, que este era um País de ruas (e lojas) vazias. E isso impressiona. Não porque as pessoas fugissem das caravanas. Apenas não havia gente. À falta de gente a quem convencer nas ruas, os candidatos entravam no comércio local. E a desolação era idêntica. Este barómetro não tem qualquer rigor científico, mas devia preocupar quem mede otimismos e confianças de consumidores. É verdade que (e a Cristina Figueiredo escreveu-o e bem no Expresso) as campanhas insistem num registo porventura ultrapassado que parece fazer depender destas ações de rua a prova da existência de eleições e dos partidos, mas do outro lado (insisto) não há gente porque essa gente não anda nas ruas - nem se enfiou nas lojas. Exceções: Lisboa e Porto, o que diz também muito do desequilíbrio deste País.


Já a campanha socialista viveu a dois tempos, constatámos todos os que acompanharam a caravana. Definitivamente, Francisco Assis não se dá com a rua e é incapaz de estabelecer uma empatia que vá para lá de um contacto fugaz. Esta falta de chama foi revertida ligeiramente com a entrada (já tardia de Seguro) na campanha - mas faltou a rua (o líder socialista apareceu em visitas a empresas e uma lota e a almoços e comícios) para também empurrar mais o PS.

 

A Convenção Novo Rumo atrasou essa chegada de Seguro, mas o ponto alto que foi esse sábado, dia 17 (pela unidade mostrada em torno do líder, apenas uma semana antes das "facas longas" de agora; pela capacidade do PS ir para além das suas fronteiras, ao captar apoios significativos vindos de quem andou pelo PSD, PCP e BE; pela oportunidade na apresentação de propostas concretas para um governo) não se traduziu em termos eleitorais como seria esperado. Fica por perceber o que terá falhado.

Os episódios.
José Sócrates, a comparação com o partido nazi por Alegre, Mário Soares e uma eventual moção de censura socialista acabaram por ser episódios que atrapalharam (mais do que ajudaram) o discurso socialista na campanha. Agora que se agitam de novo alguns barões (os do costume, que ficam a maior parte das vezes na bancada) é importante olhar para o que foram também estes casos. Quanto a mim, houve demasiado Sócrates, e se a Aliança Portugal abusou na forma, no tom e no conteúdo (caramba, parece que em 3 anos estes senhores não fizeram nada de irrevogável), o PS também deu o flanco: Assis com a insistência de pré-campanha na necessidade de ter um abraço de Sócrates e um discurso insistente numa certa glorificação acrítica da governação socrática; a direção - ou quem por ela falou - a abrir o flanco sobre a discussão de quando e se Sócrates devia aparecer; e o próprio ex-primeiro-ministro a fazer sair cá para fora a notícia no último dia de que tinha ido visitar Soares. Depois o caso de Soares: um erro de Seguro abrir mais este. Um e outro caso podiam ter sido cedo resolvidos.

 

O tradicional almoço na Trindade, nos últimos dias de campanha, é um excelente pretexto para arrumar estes casos e bastava Seguro ter convidado, antes da campanha, todos os ex-secretários-gerais para estarem lá; depois respondia à chamada quem quisesse - e não passava a imagem de quem teme um passado, que tem de ser elogiado no que teve de bom, mas também criticado no que errou (e isso, os partidos, todos os partidos, continuam a não ter capacidade de o fazer - exceto António Guterres).

 

Os resultados.
A direita finge que não existiu aquilo que salta à vista de todos: uma derrota pesada, histórica, de quem já não consegue animar ninguém. O CDS elegeu um deputado, tanto como o Bloco e menos que Marinho Pinto-Terra. O PSD valerá uns 22-24%. Mas os senhores da coligação fiam-se na vitória curta do PS, esquecendo-se que (outros) 40% dos eleitores estão sobretudo contra eles. Não veem os portugueses uma alternativa clara? Não. Ainda não. Mas também há dois fatores a ter em conta, quanto a mim: 1. o voto nas eleições europeias tende a ser mais dividido, de protesto, e nestas há dois fenómenos (mais à esquerda) que roubam votos ao PS - o MPT e o Livre (2,2% de votos que talvez apostassem mais no PS que no BE); 2. a abstenção continua a pesar mais nestas eleições que noutras, mas há um facto que ninguém quer extirpar de vez que são os eleitores fantasmas. Ter 9,7 milhões de votantes é ficção num país de 10 milhões de habitantes.

 

Quanto ao PS que reagiu à vitória curta, ou "de Pirro", como lhe chamou hoje Soares. Foi Soares que esteve ausente. Foram os socráticos que se mantiveram em guerrilha de baixa intensidade. E Costa preferiu jogar à Ronaldo, mas fazendo-se de D. Inércia. A forma como falou logo na noite eleitoral, comparando os votos de agora com os das autárquicas, não cuidou de fazer a distinção que faço acima, nem de sublinhar quão diferentes são essas duas eleições. Num ponto teria razão: Seguro levou o partido atrás de si nas autárquicas, aqui chegou tarde.

O discurso do PS foi demasiado eufórico. Ao apontar do descalabro da direita, teria ficado melhor o discurso (ideológico) de quem quer ir recuperar o eleitorado de Marinho Pinto-Terra, como confidenciou um dirigente ao DN, e dialogar com a esquerda. As sondagens para as legislativas falam de empate técnico ou de uma vantagem curta do PSD/CDS, apondo um bloco central como resultado. Esquecem as sondagens, e esquece-se o PS, de que pode haver pontes à esquerda (Livre e BE, por exemplo).

Última hora. [ao acabar o texto, a atualidade impos-se]
António Costa é candidato à liderança que há um ano não quis disputar. Primeiro, deixou Seguro ir a votos, resguardado na fácil vitória em Lisboa, por falta de alternativa, agora resolve estilhaçar o partido. Com uma oposição assim, dentro da oposição, mais do que o PS, sofre o País. O autarca de Lisboa faz o favor à direita que teve o pior resultado de todos. Os socialistas continuam nesta tendência absurda de pensarem mais neles que nos portugueses. Foi isto que começou por matar Sócrates, foi isto que nunca fez descolar Seguro, é isto que Costa provará mais cedo ou mais tarde.

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A História não admite becos

por Miguel Marujo, em 27.05.14

Francisco Seixas da Costa

Realismo

Francisco Seixas da Costa

 

«Terá a Europa sabedoria para parar e refletir sobre o que aconteceu nas eleições europeias? Terão as suas instituições suficiente elasticidade estratégica para poderem acomodar mudanças à altura dos desafios limite com que está confrontada? Terão as suas lideranças capacidade para pilotarem um processo de reorientação que ainda salve o projeto europeu?

Não sou dado a alimentar premonições catastróficas, mas tenho a sensação, porventura exagerada pelo impacto do passado fim de semana, de que o projeto europeu volta a atravessar um dos seus tempos mais delicados. Já tivera um desses períodos, a partir do momento em que a crise financeira se desencadeou, quando descobriu, com patética surpresa, que não dispunha de mecanismos para acorrer à assimetria diferenciada das situações que tinham ocorrido no seu seio.

Agora, o desafio é outro, embora decorrente do anterior. A Europa é confrontada com tensões nos seus variados equilíbrios nacionais que revelam que se instalou, numa maioria dos seus cidadãos, uma desconfiança muito profunda sobre se o projeto de integração responde aos seus anseios ou se não é, ele próprio, fautor do problema. E o facto dessa atitude assumir formas e modelos muito diversos, numa cumulação perversa de agendas nacionais de preocupação, agrava a minha interrogação sobre se a Europa, enquanto estrutura funcional, terá hoje mecanismos para poder responder, de forma eficaz, a este imenso desafio.

"What went wrong?" titulava, há anos, um livro sobre o curso da civilização árabe. Definitivamente, e se queremos ser práticos, temos de deixar-nos de discursos grandiloquentes e passar a uma "desconstrução" fria das razões deste mal-estar, do que "correu mal" e porquê, sem subscrevermos necessariamente as teses eurocéticas, mas igualmente sem nos deixarmos embalar pelas sereias do politicamente correto bruxelense. Há uma diversidade nacional de situações a atender, mas parece haver alguns elementos comuns que lhes estão na génese.

Sem pretender simplificar, neste curto espaço, uma realidade muito complexa, quero crer que foi o excesso de ambição que prejudicou a Europa. Ambição em queimar etapas no aprofundamento das suas políticas, sem atender suficientemente à sua imensa diversidade interior, sem cuidar em instalar previamente mecanismos compensatórios à altura da dimensão do projeto. Ambição em colocar sob a pressão da globalização, económica e humana, um tecido económico muito desigual e com tradições culturais díspares e frequentemente contraditórias. Ambição em querer responder estrategicamente, com alguma precipitação temporal, à demanda gigantesca que o alargamento ao seu Leste representava. Pode não ser popular afirmar as coisas assim, mas acho que chegou o tempo de olharmos de frente a realidade.

E como a História não admite becos, temos rapidamente de criar uma saída para este impasse.» [in Económico]

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Saída limpa

por Miguel Marujo, em 05.05.14

"Nós, na próxima semana, iremos comunicar essas medidas. Não são medidas que incidam em matéria de impostos, salários ou pensões. Creio que já esclareci bem essa matéria e não creio, sinceramente, que devemos estar todos os dias a criar uma notícia em volta dessa matéria", Pedro Passos Coelho, 14 de abril de 2014.

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