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[comovente]

por Miguel Marujo, em 24.01.11

Pequenos milagres democráticos
Por Rui Tavares

...O meu pai nasceu em 1929, já em ditadura. Cresceu numa aldeia do Ribatejo, em ditadura. Veio a Guerra Civil de Espanha, havia refugiados do país vizinho pelos campos, "comiam até o musgo das paredes, com a fome que tinham" dizia-me ele de vez em quando. Depois a II Guerra Mundial, o racionamento, e as irmãs dele - minhas tias - adoeceram gravemente - "entuberculisaram", como se diz na Arrifana. O pai do meu pai morreu, e era ainda ditadura. O meu pai namorou e desfez-se o namoro, casou e teve filhos e enviuvou, e casou de novo com a primeira namorada e teve mais filhos e, em todo este tempo, era sempre, sempre, sempre a mesma ditadura.

(Talvez eu já tenha contado aqui esta história; honestamente não estou certo se o fiz ou não. Para mim é como uma oração familiar.)

Só quando o meu pai tinha já cinco filhos e quarenta e cinco anos que viu a democracia pela primeira vez. Poucos depois do 25 de abril viu em Lisboa, numa manifestação, um velhinho que chorava copiosamente num dos passeios da Almirante Reis, enquanto via a multidão subir a avenida. "Achei que já não chegava a ver este dia", disse-lhe o homem. Um ano depois o meu pai, e espero que aquele homem também, votaram pela primeira vez numas eleições livres e justas.

Hoje o meu pai é aquele velhinho. Ainda na aldeia preparamo-nos para o ritual cada vez mais frágil do voto. "Acho que desta vez ele já não consegue", diz a minha mãe, forçando-se a ser objetiva. Ele insiste uma, duas vezes: "se não votar com a mão esquerda (é canhoto) voto com a direita (com que foi ensinado a escrever)". A voz dele ficou afetada recentemente, temos dificuldade em entendê-lo.

A minha mãe vem com a minha irmã num carro, e eu trago o meu pai no meu. Na estrada para Lisboa digo-lhe em que lugares do boletim estão os candidatos. "Eu conheço a cara deles", diz-me. Já na cidade, apanhamos a minha sobrinha. Aqui há uns anos o ritual dos votos incluía um almoço de bife numa cervejaria. Hoje seria demasiada confusão para eles.

Chegamos à escola secundária onde estudaram os meus irmãos. Novo obstáculo: não trouxemos cadeira de rodas. A minha mãe, apenas um ano mais nova que o meu pai, vota imediatamente e explica o nosso problema à mesa de voto.

E em dia eleitoral opera-se momentaneamente a magia cívica. O presidente da mesa de voto indica-nos os bombeiros. Os bombeiros têm uma cadeira de rodas. Um deles vem buscar o meu pai. Trata com jovialidade, com alguma ternura até, aquele velhinho que nunca viu.

De repente o meu pai está na mesa de voto, sem sair da cadeira de rodas. Foi tão rápido aqui chegar como é lento o que se passa a seguir. Numa sala silenciosa, com todos os membros da mesa de voto, e a minha mãe, e eu, e o bombeiro a torcermos por ele, o meu pai demora uma eternidade a fazer o primeiro traço da cruz. Quando achamos que terminou, demora outra eternidade a fazer o segundo traço. Demorará mais ainda a dobrar o boletim. Ninguém se aproxima, ninguém o apressa, deixamo-lo levar o seu tempo.

Está, finalmente, feito. À saída da escola, a minha mãe diz o que sempre diz nestes dias: custou muito conquistar isto, tantos anos sem poder votar, etc. - outra oração familiar. Ela está orgulhosa. O meu pai acabou por votar com a mão direita, sabemo-lo bem, e num candidato de esquerda. Aconteça o que acontecer, valeu a pena.

Mas, sinceramente, eu gostaria de o ver repetir daqui a quinze dias.

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10 comentários

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De Ricardo Raimundo a 24.01.2011 às 16:31

História magnífica! :)
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De Antonio Veiga a 24.01.2011 às 19:34

Boa tarde
O texto é muito comovente.
Mas não deixa de ser engraçado altura em que o coloca no seu blog. È para não falar mais na pesada derrota de Manuel Alegre? È para desviar a atenção dos leitores do seu blog, acerca das fragilidades da candidatura de Manuel Alegre?
Miguel numa coisa tem que concordar, Manuel Alegre destas presidenciais, nada tinha haver com Manuel Alegre de á 5 anos atrás.
À 5 anos atrás, tínhamos um Manuel Alegre, contra os partidos, pela cidadania, a favor das pessoas, a favor dos direitos das pessoas sem partido, contra as máquinas partidárias, contra proposta da direita á esquerda e a favor de propostas da esquerda á direita. À 5 anos atrás Manuel Alegre quase nunca atacou directamente os seus adversários. Apresentou propostas, mostrava o que queria fazer e como fazia, caso fosse eleito.
Manuel Alegre foi substituído por Fernando Nobre. Nem o PS queria a eleição de Manuel Alegre.
Isso mesmo ficou bem patente ontem na hora da derrota, Alegre sozinho, PS a dizer que não eram os partidos que escolhiam os seus candidatos.
A derrota de Alegre já á muito era esperada.
O PS queria a vitoria de Cavaco Silva...por incrível que pareça.
Manuel Alegre deu demasiados tiros nos pés. Falou do BPN e esqueceu que ele tinha estado do BPP .
Falou das acções e esqueceu que recebeu dinheiro do BPP .
Falou que tinha recebido em cheque, e depois já era transferência bancária.
Manuel Alegre entrou para a campanha pelo lado pior que podia ter entrado.Isso mesmo as sondagens o mostravam.
A vitória é de Cavaco não pelo seu valor, mas pela falta de valor dos seus opositores.
Cumprimentos
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De Miguel Marujo a 24.01.2011 às 19:38

António, a história é fantástica e se soubesse um bocadinho de política e conhecesse os protagonistas saberia que estava a ler um texto sobre al guém que votou Alegre. O resto são boutades suas. Passe bem, com Cavaco, a ver se daqui a cinco anos estaremos melhores. Não estaremos como se tem visto desde que esse senhor se tornou o político há mais tempo no poder desde o 25 de Abril. Diz muito sobre o estado a que isto chegou e sobre as responsabilidades de Cavaco.
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De Antonio Veiga a 24.01.2011 às 19:52

Saber perder é muito bom, melhor que saber ganhar. E por aquilo que escreveu ontem e hoje não sabe .
Não é com radicalismos que o país vai para frente.
Foi radical na luta pelo 25 de Abril.
Nas ruas de Lisboa, dei a minha voz, acompanhei os soldados na luta pela liberdade, pelo direito ao voto, pela democracia, pela liberdade de escolha do povo.
O povo é quem mais ordena, e nunca se engana nas escolhas que faz.
Não votei Cavaco, nunca votei.
Mas não é com este Manuel Alegre que o país fica melhor.
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De Miguel Marujo a 24.01.2011 às 19:55

Sim, sim, Cavaco soube ganhar com o seu discurso... Alegre é mil vezes melhor que Cavaco, ponto. O povo também se engana: o povo alemão enganou-se tragicamente em 1933.
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De xico a 24.01.2011 às 22:54

A história é muito bonita sim senhor. Mas é graças a esse direito de voto conquistado que Cavaco ganhou. Alegre foi companheiro de quem não gostava do voto democrático. Arrependeu-se em tempo e isso é louvável. Mas é preciso ter memória. E tanto quanto eu saiba é a esquerda quem está no governo. Ou sou muito estúpido e não percebi que ontem votámos nas legislativas? Se daqui a cinco anos estivermos pior será por culpa de quem estiver no governo, não do presidente, bom ou mau que seja. E a culpa será de quem vota. Ou para que estejamos melhores querem interromper a democracia? Lá se estragava a moral do conto.
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De Miguel Marujo a 25.01.2011 às 13:42

O PS está no governo em minoria e aprovou este orçamento com o PSD e o alto patrocínio, explicitamente dito e redito, de Cavaco Silva... Logo as culpas são destes 3 protagonistas.

Quem desejava interromper a democracia era Ferreira Leite, discípula dilecta de Cavaco. Como vê, vamos sempre dar aos mesmos protagonistas. Maus protagonistas.

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De Anónimo a 24.01.2011 às 22:28

Simplesmente fantástico. Obirgada.
maria trigoso
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De F. Monteiro a 25.01.2011 às 10:07

Uma linda história... adorei, felizmente não sou desse tempo e agradeço a quem por "mim" lutou.

Obrigado por ter partilhado!

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De M.Coutinho a 25.01.2011 às 17:47

O antónio não deixa de ter razão em alguns pontos principalmente na oportunidade deste texto ,muito carinhoso e que me merece respeito. Perde toda a razão,quando começa a comparar o dinheiro M.Alegre, recebeu pelo texto que escreveu e por ser cliente do BPP,quando ainda ninguem sabia de nada, com as malandrices que vieram a lume. Por esta sua posição,tudo que Rui Tavares dissesse nesta altura o Antonio ia criticar. Presumo que foi por respeito ao periodo de nojo a que os portugueses têm direito, que Rui Tavares,com bom senso pelos vistos fez uma trégua.

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