[a ditadura do espaço - entenda-se: o espaço finito no papel impossibilita muitas vezes que os textos possam sair como os escrevemos originalmente, o que não acontece na imensidão da net - ditou que a minha reportagem de ontem, nos jardins em frente do Palácio de Belém, numa ação de protesto durante o Conselho de Estado, se resumisse hoje no DN a um parágrafo longo; recupero aqui o texto original, como já outras vezes o fiz.]
O cisma grisalho já está na rua. Paulo Portas, que o temia há 15 dias, está em Caracas e não o viu ontem às portas do Palácio de Belém. Como não o viram o Presidente da República e os 19 conselheiros, mantidos à distância de uma avenida atravessada por carros e autocarros e carrinhas da polícia e um gradeamento que colocava a ação de protesto do movimento “Que se lixe a troika!” a meio do jardim da Praça Afonso de Albuquerque. São mais os velhos que se juntam aos protestos - como também neste, convocado na página de facebook do movimento, que já a 2 de março tinha visto a sua manifestação em 40 cidades portuguesas com muitos pensionistas e reformados. “Um governo que não respeita os seus velhos não é digno do respeito da sociedade”, resumia um cartaz da APRE! - Associação de Aposentados, Pensionistas e Reformados. “Está-se a pôr em causa a sustentabilidade demográfica”, completava ao DN Nuno Ramos de Almeida, do movimento “Que se lixe a troika!”, recuperando o número dos que emigraram, sobretudo jovens – “e muitos também iam às manifestações”. O propósito desta “ação de pessoas” – escassas centenas, que foram crescendo no final da tarde – passou por “não deixar passar em claro a reunião do Conselho de Estado”, disse o responsável. Que sublinharia que “não há nenhum cenário pós-troika”, o tema da reunião, “que não passe por eleições”. Os manifestantes repetiam a ideia: “Está na hora do governo ir embora.” A alternativa política tem de existir, insistiu Ramos de Almeida, porque “na terra já todos perceberam que a troika é uma merda” porque o Governo “não cumpre nenhuma previsão nem estimativa”. Pelos jardins em frente ao palácio passaram representantes do PCP e do Bloco de Esquerda alinhados no pedido de demissão do Governo. Já o movimento recolheu assinaturas para uma “moção de censura popular” ao executivo, a entregar a Cavaco Silva e ao Parlamento. E publicitaram a manifestação internacional de 1 de junho, que em Lisboa passará à porta do FMI.
Um breve apontamento - para ilustrar isto tudo. Em Paris, no aeroporto de Orly, dois chocolates Snickers, numa máquina de snacks, são vendidos a 2 euros. Em Portugal, no aeroporto de Lisboa, o mesmo chocolate, uma unidade só, custa 1,50 euro. É o que chamaria viver acima das nossas possibilidades.
Vamos ali à terra da Fantasia, que hoje - na vitória ou na derrota - também será em Amsterdão. Mas a nossa perdura até domingo, entre sonhos e princesas, entre ratos e monstros. Sim, também é um tremendo manguito aos Gaspares.
Com o Euro 2004 à porta, hoje jogamos em terreno escorregadio. Cresci a respeitar a devoção a Fátima e beatos e santos. Coisas de um catolicismo acrítico que despertava das amarras do Estado Novo. Mas chutemos para canto este assunto e caminhemos até Santiago de Compostela.
Em peregrinação com a selecção espanhola de futebol que se encomendou ao apóstolo, descobrimos um tipo de religiosidade que cremos própria de quase-analfabetos ou de cobradores de promessas. Afinal, Raul salta do relvado para a catedral com pontaria afinada e remata «pelos marginalizados e deserdados da Terra. Pelos que se esforçam nos estudos e no trabalho. Pelos que cuidam da nossa segurança. Pelas famílias. Pelos que se unem e organizam para fazer deste um mundo melhor».
A prece foi apresentada no domingo passado pelo capitão da equipa espanhola. O treinador Iñaki Sáez foi menos "politicamente correcto" e pediu a táctica directamente a São Tiago: «[...] Não seríamos sinceros se não vos pedíssemos fervorosamente que nos afasteis em todo o momento de lesões, que nos incutais valor nos momentos de desânimo e que, se puder ser, nos façais acreditar na vitória».
A página desportiva do jornal diário parece quase o "pasquim" da paróquia, que debita preces pelas melhoras de quem «foi este mês internado» no hospital local. E Iñaki tem direito a micro-entrevista que não quer saber das coisas da bola, mas do terreno da fé: «O Europeu é uma questão de fé», pergunta o jornalista – sublinhando o poiso da selecção de "nuestros hermanos", à sombra da Senhora do Sameiro – para uma resposta que (perdoe-se nova citação e peça-se por isso indulgência para este vosso escriba), que exige um estudo psicossociológico: «A religiosidade é uma tradição cultural com enorme força em Espanha. É claro que se queremos vencer temos que contar connosco, com a nossa capacidade. O certo é que interiormente temos sempre qualquer coisa a pedir. Primeiro a nós próprios e depois como equipa. Só pedi três coisas: que não haja lesões, expulsões ou azar com as arbitragens.»
Ainda não passámos do meio-campo, a defesa continua a trocar a bola atrás das linhas da equipa adversária, mas já percebemos que uma vitória de Espanha nos estádios portugueses será de ordem divina – ou, pelo menos, de Santiago. Por cá, não há quem não se encomende à Senhora de Fátima, com resultados práticos evidentes: o ministro da Defesa na invocação da protecção da maré negra do Prestige ou José Mourinho na sua demanda do Graal inglês com goleadas em Portugal e Genselkirchen ("qualquer-coisa-igreja, diz-me o meu fraquíssimo alemão).
Em tempos de longínquo 12º ano, pediram-me um trabalho sobre Santa Joana Princesa, padroeira de Aveiro. Não fui capaz de pensar no milagre de um jardim de Primavera que se fazia tarde de Outono em Maio, no funeral da filha de rei feita monja. Preferi lembrá-la na atenção às pequenas coisas que os biógrafos registaram – na atenção aos pobres, aos marginalizados. Como Raul, mas sem preces encomendadas. Apenas na prática do seu dia-a-dia.
Passe longo do trinco para o avançado da equipa, abrindo uma rápida frente de ataque: o que me incomoda nestas encomendas das almas é uma apropriação ilegítima de Deus, profetas e santos. A bola é só deles, e a descrença acontece na angústia dos jogadores no momento da derrota. «Meu deus, porque nos abandonaste?», grita-se aos deuses do estádio e nas alturas. Uma fé que se alimenta de cobradores de calções ou peregrinos ajoelhados – em que só se valida o crer por Ele nos responder. Ao golo, à cura, à sorte no amor e no trabalho.
Bolas! Não podemos deixar Deus, o apóstolo Tiago ou a Senhora de Fátima fora deste jogo? E dos outros que todos os dias jogamos na nossa vida? Podemos pois. Querendo. Crendo.
No outro dia, o sapateiro acidental disse que as sapatilhas não tinham arranjo. Hoje, o sapateiro de sempre, com a loja forrada de Benfica, disse que sim, que se arranjavam e que ia fazer o melhor. É assim: acreditar até ao fim.
«Sabemos que esta medida pesaria sobre o rendimento disponível dos pensionistas e, por isso, queremos que o crescimento económico em que estamos empenhados possa atenuar diretamente os sacrifícios que são pedidos aos pensionistas, desejavelmente até ao ponto em que ela possa desaparecer por completo» - Passos Coelho.
Sábado, 4.
«Neste menu de medidas que ontem apresentei, há várias que decorreram do seu [de Portas] empenho pessoal. Ele tem aplicado muito do seu talento, para encontrarmos melhores soluções, para discutirmos com a troika e parceiros. [...] Traduz o seu sentido de responsabilidade muito grande.» - Passos Coelho.
Domingo, 5.
«Num país em que grande parte da pobreza está nos mais velhos e em que há avós a ajudar os filhos e a cuidar dos netos, o primeiro-ministro sabe e creio ter compreendido que é a fronteira que não posso deixar passar» - Paulo Portas.
Quinta, 9.
«[Há] uma enorme preocupação social, que foi transversal nas intervenções do primeiro-ministro, do ministro dos Negócios Estrangeiros e dos deputados do PSD e do CDS» - Nuno Magalhães, ao lado de Luís Montenegro, no final de reunião das bancadas dos dois partidos com Passos e Portas.
«Paulo Portas admitiu que os socialistas têm a agenda sequestrada pelas eleições autárquicas» - in Público.
Sexta, 10.
«Se tivéssemos seguido os apelos da oposição não estaríamos hoje a discutir o crescimento, o emprego e o regresso aos mercados a juros mais baixos, mas sim um segundo resgate e o desnorte de Portugal» - Passos Coelho, no debate quinzenal.
«Há várias medidas relativamente ao sistema de pensões. Uma delas é esta contribuição para a Segurança Social que possa ser suportada pelos pensionistas» - Passos Coelho, no debate quinzenal.
«O tempo político de Vítor Gaspar terminou» - Carlos Abreu Amorim, vice-presidente da bancada do PSD e candidato à CM de Gaia.
«Quero em nome do PSD lamentar estas declarações e esperar que o Dr. Abreu Amorim tenha condições para explicar qual era a intenção, na medida em que essas declarações são, do ponto de vista dos princípios, inaceitáveis, do ponto de vista estratégico, incorretas e, do ponto de vista eleitoral, ineficientes» - Jorge Moreira da Silva, vice-presidente do PSD.
Fala hoje ao País às 19h00. Não é de esperar nada de bom. Como já se ouviu às 20h00 de sexta-feira.
[atualize-se, à noite] Portas faz de conta que é o grilo falante - a consciência de Pinóquio. Esquece-se é que faz parte todos os dias do governo, o mesmo de Vítor Gaspar e Passos Coelho, não apenas quando lhe dá jeito.
[Ela prostituta, ele alcoólico. Há duas freiras que continuam sempre a distribuir panfletos no fundo da cena...]
- Só estivemos juntos uma noite, mas senti que estávamos a criar uma relação... Fiquei assustada. Não, acho que não devia voltar a vê-lo. Mas vou procurá-lo. Saí ontem à noite e procurei-o.
[e encontra-o; ele bebe; sentado num banco na rua; vendeu o carro]
- A partir de agora só vou andar de táxis.
- O que vai ser hoje? Mais 500 dólares para vê-lo dormir?
[ele bebe]
- Procurei-a esta noite. Não sei se tem namorado ou namorada, mas, se tiver tempo livre, pensei que podíamos ir jantar.
- Está a falar a sério?
- Acho que sabe que estou a falar a sério. Eu pago-lhe, se quiser, mas só quero estar consigo.
[ela vira-lhe costas... e chama um táxi, enquanto lhe diz]
- Não, não posso jantar consigo.
[ela dirige-se para o táxi]
- Podíamos comer entrecosto. Está em promoção por dois dólares e 99 cêntimos.
[ela já não o ouve, entrou no táxi]
- Adoro esse vestido.
Leaving Las Vegas/Morrer em Las Vegas, de Mike Figgis, com Elisabeth Shue e Nicolas Cage.
What we call the beginning is often the end And to make an end is to make a beginning. The end is where we start from.
We die with the dying: See, they depart, and we go with them. We are born with the dead: See, they return, and bring us with them. The moment of the rose and the moment of the yew-tree Are of equal duration. A people without history Is not redeemed from time, for history is a pattern Of timeless moments. So, while the light fails On a winter’s afternoon, in a secluded chapel History is now and England.
With the drawing of this Love and the voice of this Calling
We shall not cease from exploration And the end of all our exploring Will be to arrive where we started And know the place for the first time.
T. S. Eliot (1888-1965) Little Gidding (1942) from Four Quartets poema publicado como epígrafe do missal das cerimónias fúnebres de Margaret Thatcher
Não há ainda nomes a quem apontar a carnificina (mesmo que, até agora, haja só três mortos) de Boston. Na cidade que percorremos num outono de chuva, em que os esquilos brincavam no parque e as folhas das árvores se toldavam naquelas cores vibrantes que o cinema nos apresentou tantas vezes, o comentário que teremos mais vezes repetido era o de nos sentirmos em casa (não apenas pelo acolhimento do A., que ontem nos dizia estar bem), mas sim por aquelas ruas nos parecerem tão europeias. Não é isso que nos faz sentir mais próximos da tragédia. É antes a história do Martin, 8 anos, morto enquanto esperava ver o pai a cortar a meta ao fim de quatro horas de corrida. Ou de tantos outros que viram a alegria explodida por pregos assassinos. Há um mal presente que, venha de onde vier, é «hediondo», disse Obama. Seja interno ou externo o inimigo, este mal não entende que nada justifica estes meios. Na hora de descobrir quem, esperemos que não haja pressa em pagar nessa moeda. O mal de quem desconhece a democracia não pode nunca ser combatido pela democracia com as mesmas armas de ódio.
Projeto de Resolução n.º 672/XII/2.ª (PCP) - Recomenda a suspensão imediata do processo de desmantelamento e encerramento da Maternidade Alfredo da Costa
Favor – PS, PCP, BE e PEV
Contra – PPD/PSD e CDS-PP
Rejeitado
Projeto de Resolução n.º 674/XII/2.ª (PEV) - Pela continuidade do funcionamento da Maternidade Alfredo da Costa
Favor – PS, PCP, BE e PEV
Contra – PPD/PSD e CDS-PP
Rejeitado
Projeto de Resolução n.º 677/XII/2.ª (BE) - Recomenda ao Governo a manutenção em funcionamento da Maternidade Alfredo da Costa até à sua transferência para o futuro Hospital Oriental de Lisboa
No sábado estava um sol imenso e a relva do jardim da Estrela gostou de ser pisoteada e corrida a jogar a uma apanhada sem vencedores nem vencidos, só pelo prazer de correr e apanhar. As birras todas esquecem-se com aquele sol e a relva e à apanhada. É quando paramos a pensar nisso, que sabemos da tristeza de quem nos governa: não apanham sol, nem se deitam na relva, nem correm à apanhada. E depois dá nisto: fazem birras.
«"O PS mostra que nem aquilo que ele próprio considera como de relevante interesse nacional o impede de levar por diante o seu propósito interno de criar rutura com o governo e instabilidade política no país", acrescentou Passos Coelho, acusando a direção socialista de António José Seguro de agir em função do "calendário partidário, em detrimento do calendário relevante para o país".» [da Lusa, na véspera de Miguel Relvas, o ministro coordenador político do Governo, sair do Executivo; foto Público]
A leis são feitas para serem cumpridas - mais ainda a lei fundamental. Não acriticamente. Por isso, devemos lutar nos espaços certos para as alterarmos, quando delas discordamos. Eu que, desde 1990, acho a lei das propinas uma aberração (e, então, tinha a meu lado Passos Coelho ou Mariano Gago, para citar exemplos opostos), sempre fui compelido a cumpri-la. Para um partido e um governo, mais facilmente se consegue resolver um dilema destes. Por isso, é patética a forma como o Governo e o PSD tentam imputar a outros, que não aos próprios, a responsabilidade por a lei do Orçamento atropelar (se for esse o entendimento do Tribunal Constitucional) a própria Constituição. Se alguém tiver culpas no cartório, será o Governo. Se alguém tiver de encontrar alternativas, será o Governo e a maioria. O resto chama-se desespero.
Não há compasso na cidade - temo bem que muitos nem saibam o que isso é -, a cruz a ir de porta em porta, e são cada vez menos as portas abertas. Flores e folhas à entrada para acolher o compasso, mesmo que a chuva copiosa torne os passos mais lentos. Depois a saudação, o folar, a oferenda. A Páscoa também é isto. Longe da aldeia, na cidade a trabalhar, sinto falta do folar com pito, dos breves reencontros, do sino pequeno que anuncia a chegada da cruz. E do meu Pai que há um ano pegava nela, para a levar a cada um de nós.