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O Haiti é aqui. Os Arcade Fire foram às origens

por Miguel Marujo, em 10.02.18

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Ouçam-se as percussões e as guitarras, aceleradas, viscerais, que irrompem logo aos 11 segundos, abafando aqueles sons de gente que conversa nas ruas, dos carros que passam, e que mesmo antes dos 30 segundos se transformam num ritmo quase dengoso, sensual, com as teclas a acompanharem mais à frente o compasso das palavras que dão título a esta canção dos Arcade Fire, Here Comes the Night Time. Quatro minutos depois, guitarras e percussões voltam a tornar urgente a dança frenética dos corpos - e este tema é o retrato perfeito de The Reflektor Tapes, o documentário de Kahlil Joseph, que nos apresenta o processo criativo dos canadianos durante as gravações de Reflektor e a passagem para o palco desse trabalho de 2013.

Oito dias depois do novo single I Give You Power nos apontar possíveis caminhos para as canções novas que aí vêm (para além de ter funcionado como um manifesto contra Donald Trump, na véspera da tomada de posse do novo e perigoso presidente americano), os Arcade Fire chegam ao mercado de DVD e de Blu-ray com um filme que transporta para o ecrã aquele pingue-pongue constante de Here Comes the Night Time, entre o festim das atuações em concerto - no improviso de um pequeno palco num hotel haitiano ou nas gigantescas arenas de Los Angeles e de Londres - e o recato quase ascético dos ensaios e gravações do disco. Nesta edição, disponível desde ontem nas lojas, o documentário faz-se acompanhar do concerto Live at Earls Court.

Apresentado em 2015 no festival de cinema de Toronto, The Reflektor Tapes quis replicar a paisagem sonora do álbum numa experiência visual forte, entre jardins e praias sobre-expostas a uma intensa luz branca ou a luxúria dos corpos que dançam num desfile carnavalesco no Haiti.

Kahlil Joseph (que em 2016 apresentou Lemonade, um especial para a televisão sobre Beyoncé, e já assinou vídeos de Kendrick Lamar ou de FKA Twigs) domina na perfeição o tempo e o modo para contar a viagem que a banda protagonizou na gravação de Reflektor, o álbum que o converteu ao som dos Arcade Fire - até aí, Kahlil não era fã da banda.

Port Antonio, na Jamaica, é o primeiro porto em que Win Butler e Régine Chassagne e os seus companheiros lançam as bases para a sua criação artística. "Uma das formas de fazer arte é ignorar o mundo e criar música com quem te rodeia", explica Butler, sobre o tempo de estúdio. É Régine quem regressa às origens: a sua família haitiana procurou asilo político no Canadá para fugir à ditadura de Jean-Claude Duvalier, o Baby Doc, que sucedeu ao pai François Papa Doc Duvalier. "A minha mãe é mais escura do que eu. A minha irmã é mais escura do que eu. Mas tenho os genes", lamenta-se a canadiana, que é branca para os haitianos. "Estou entre dois mundos que colidem, flutuo entre dois mundos." O Haiti é aqui, pretos, todos pretos, brancos quase pretos, com Régine e comparsas a flutuarem entre os dois mundos. My Body Is a Cage é a canção que se ouve logo de seguida.

Porventura, as afirmações de Régine funcionam como uma perfeita descrição da música dos Arcade Fire, e mais ainda de Reflektor, numa permanente colisão entre dois mundos de uma sonoridade que vai flutuando também sobre esses dois mundos. E a banda a estabelecer a ponte entre os tambores caribenhos e o ascetismo filosófico do dinamarquês Søren Kierkegaard, em que o presente bebe na prudência e na reflexão e a paixão é um breve fogacho. "As pessoas têm falsas expectativas sobre o que é o amor", atira Win Butler.

Na digressão que se seguiu ao álbum - e que passou por Lisboa em 2014 e no verão de 2016 - o alinhamento fez-se também ouvir com os anteriores trabalhos, de Funeral, Neon Bible e The Suburbs, os tais que o realizador não tinha na sua prateleira de discos. Mas Kahlil Joseph acaba por fazer mergulhar o seu filme de 75 minutos naquela colisão de mundos, não temendo desconstruir a presença da banda em palco, apesar de se socorrer sobretudo dos temas mais populares da banda, escapando à ousadia que demonstra nas imagens para fugir ao óbvio na banda sonora.

Esta banda sonora é sempre parcial e parcelar. Sobra o registo do concerto que acompanha a edição do documentário, Live at Earls Court, gravado a 6 de junho de 2014 na sala londrina com o mesmo nome, em que a banda percorre a sua principal discografia, incluindo no alinhamento Reflektor, No Cars Go, Rebellion (Lies), Neighbourhood #3 (Power Out), The Suburbs, Wake Up, After Life ou Ready to Start. São quase duas mãos-cheias de clássicos do grupo canadiano, num complemento que ajuda a compreender melhor a história que se conta em The Reflektor Tapes e a visceralidade das suas atuações ao vivo.

Se o fio condutor do filme é ir intercalando os excertos de músicas com declarações dos membros da banda, muitas vezes pouco mais que frases únicas, como que breves statements para melhor entender o universo lírico dos Arcade Fire, Butler antecipa que o seu desejo é que a música que fazem perdure. Eventualmente como a de Elvis Presley, The King, com quem Win sonhou por duas vezes.

Mas é o Haiti que interpela a banda e a sua sonoridade, com ritmos quase primitivos dançados por corpos pichados de tinta negra, mais negra do que os negros, por entre corpos franzinos de malabaristas ou máscaras de animais e outros bestiários e um diabo à solta - é o Carnaval solto nas ruas da cidade de Jacmel, as canções dos Arcade Fire presas a ritmos que Régine reconhece da sua infância. "C'est beau, acho que conseguimos", diz ela aos dois percussionistas haitianos que acertam nos batimentos que o pai da vocalista canadiana tocava.

É em Reflektor, título no qual Kierkegaard cauciona o nome do último álbum, que surge mais uma vez a colisão entre os dois mundos de que falava Régine Chassagne, com a vocalista a cantar entre as duas línguas do seu país (e das suas origens). "Entre la nuit, la nuit et l'aurore./ Entre les royaumes, des vivants et des morts./ If this is heaven/ I don't know what it's for/ If I can't find you there/ I don't care."

[artigo originalmente publicado no DN de 28 de janeiro de 2017]

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U2 em Lisboa. Vem aí uma lição de rock

por Miguel Marujo, em 19.01.18

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Depois da digressão dos 30 anos do álbum The Joshua Tree, durante o ano de 2017, é tempo de os portugueses ouvirem (por fim!) os U2 com a sua digressão Experience+Innocence, após a reação um pouco mais do que morna a Songs of Experience, o álbum que dividiu a crítica especializada. Será a 16 de setembro, em Lisboa, na Altice Arena (com bilhetes à venda a 26 deste mês).

Há uma verdade incontornável: um concerto dos U2 não deixa ninguém indiferente. Sejam fãs indefetíveis que ouvem sempre a sua música como uma liturgia que se renova nos detalhes ou se transmuta em grandes passos (e assim se podem resumir os quase 40 anos do percurso da banda); ou sejam aqueles que descreem da salvação da humanidade pela música destes quatro rapazes irlandeses, desde The Joshua Tree (1987) ou, pelo menos, desde o díptico berlinense de Achtung Baby/Zooropa(1991/1993).

Uma qualquer concerto dos U2 faz de um imenso estádio uma sala de estar, as colunas no máximo, um grande grupo de amigos à volta de hinos mais ou menos reconhecíveis e que têm marcado gerações.

Esta digressão que trará os irlandeses a Lisboa já andou pela América e pela Europa, numa primeira versão depois da publicação de Songs of Innocence (2014). A Innocence+Experience Tour de então demonstrou o experimentalismo visual que a banda sempre ousa nas suas digressões com um palco único e inovador em 360º.

A tour de 2015 acabou por ficar marcada pelos atentados em Paris, na noite de 13 de novembro desse ano, que atingiram também a mítica sala parisiense Bataclan, onde atuavam os Eagles of Death Metal. Os U2 atuavam em Paris na noite seguinte e o concerto foi adiado, para uma nova data que contou com os Eagles of Death Metal e Patti Smith, em palco, a celebrar People Have The Power, a 7 de dezembro de 1975. Foi também esse concerto que esteve na origem de uma edição em DVD.

Depois dessa primeira parte, chamemos-lhe assim, os U2 preparavam a edição de Songs of Experience, desde o primeiro momento assumido como uma continuação do álbum de 2014. Só que o mundo mudou - houve o brexit e Donald Trump chegou onde ninguém acreditava - e a banda irlandesa preferiu olhar para esse mundo em vez de se enfiar numa concha (a dose de risco que, ao fim de quase quatro décadas de estrada, nem muitas bandas mais novas arriscam).

Primeiro, suspenderam a edição do álbum, lançado no passado mês de dezembro, e depois lançaram-se para uma outra digressão, a comemorar os 30 anos de The Joshua Tree, sem ponta de nostalgia, numa imensa lição de rock e humanismo, como se de uma grande produção de Hollywood se tratasse e onde torcemos pelo final feliz, numa síntese certeira do jornalista e crítico musical Vítor Belanciano.

Para 2018, promete-se uma atualização desse palco para um cenário com múltiplos palcos e um sistema de som inovador, com um novo ecrã de elevada resolução - nove vezes maior que o de 2015. Pelo meio tivemos também o ecrã único de Joshua Tree no qual se mergulhava no deserto americano, como se não estivéssemos num estádio, como testemunhou o DN em julho passado em Londres.

Agora, o alinhamento destes concertos (que só se pode especular) incluirá algumas das canções mais fortes de Songs of Experience, para além de revisitar o repertório clássico da banda. Nisso, Bono, The Edge, Adam Clayton e Larry Mullen são exímios na arte de equilibrar entre os hinos que todos sabem de cor e salteado e as canções que muitos provavelmente nem reconhecerão.

Na sexta visita a Portugal, os U2 vão apresentar aquele que é, no seu rock mais reconhecível, provavelmente o melhor conjunto de canções da banda irlandesa deste século XXI. Sabe a pouco, para muitos. Mas uma coisa é certa: teremos uma verdadeira lição de rock.

AS OUTRAS CINCO VEZES EM PORTUGAL
360º TOUR, 2010
Foi em Coimbra, no estádio da cidade, que os irlandeses tocaram pela última vez em Portugal, em duas datas de outubro, perante 42 mil fãs. Os bilhetes esgotaram numa hora. Entraram em palco ao som de Space Oddity, de David Bowie.

VERTIGO TOUR, 2005
A 14 de agosto, nova incursão em Alvalade, para encerrar a digressão Vertigo, num concerto com 52 mil espectadores. Antes de subirem ao palco, os U2 foram condecorados com a Ordem da Liberdade pelo presidente Jorge Sampaio.

POPMART TOUR, 1997
Levaram a Alvalade, a 11 de setembro, um alinhamento rico em clássicos como I Will Follow, Pride, New Year's Day, Desire, With Or Without You ou Mysterious Ways.

ZOO TV Tour, 1993
A 15 de maio, Bono e companhia subiam ao palco do estádio de Alvalade pela primeira vez, com a escala portuguesa da Zoo Tv Tour, iniciada em fevereiro. Foi a primeira grande digressão da banda, com efeitos visuais. Tinha como base o álbum Achtung Baby. Durante a tournée, sairia Zooropa.

VILAR DE MOUROS, 1982
Os irlandeses tocaram na primeira edição do Festival Vilar de Mouros, com o álbum October recém editado. O bilhete custava 400 escudos e os U2 tocaram a 3 de agosto. O cartaz incluía nomes como The Stranglers, Echo & The Bunnymen e Durutti Column.

[artigo publicado originalmente no DN de 17 de janeiro de 2018]

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O mesmo desopilanço 20 anos depois

por Miguel Marujo, em 18.01.18

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Vinte anos depois parece que nada mudou: Lust For Life abre a banda sonora de Trainspotting 2 (T2 para os amigos), mas tal como o filme a canção de Iggy Pop ganha uma nova roupa made in século XXI, numa remistura de Prodigy que acelera o desopilanço do tema original e dá o mote para esta nova coletânea de canções.

"Nostalgia: é por isso que estamos aqui, és um turista na tua própria juventude", atira Sick Boy, a personagem de Jonny Lee Miller - e 20 anos depois nada mudou mesmo, apesar de os Underworld estrearem Slow Slippy, que é no fundo uma revisitação nostálgica e bem mais romântica de Born Slippy, o hino eletrónico adotado como uma das imagens eufóricas da trip que foi o filme de Danny Boyle em 1996.

Somos turistas da nossa juventude, por isso se regressa a Iggy Pop, mas também a (mais ou menos) clássicos como Frankie Goes To Hollywood, The Clash, Run DMC, Queen ou Blondie, equilibrados na sua exuberância e ritmo com novas propostas, que inclui três temas dos Young Fathers (que vimos no ano passado nalguns dos melhores momentos do concerto dos Massive Attack em Lisboa), um trio escocês-nigeriano-liberiano que é das propostas mais interessantes no hip-hop atual. Aliás, Boyle apontou Only God Knows como a nova Born Slippy, com a mesma dose de adrenalina — e os pés começam a bater e o corpo fica a pedir para se mexer.

Neste T2, não há Brian Eno ou New Order, nem a brit pop tem espaço como tinha em 1996, com os Pulp, Blur e Elastica (vivemos tempos de triunfo do hip hop). Mas há Lou Reed, de novo com o seu Perfect Day, que se ouve só no filme num versão em piano que o disco deixou de fora. Seria a cereja no topo de um bolo que se ouve com prazer, mesmo que o tempo pareça não ter passado por aqui. Nem sempre é mau ser-se turista na própria cidade, mais ainda com os sons da própria juventude. Desopilemos, pois.

[artigo originalmente publicado no DN a 23 de fevereiro de 2017]

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Do pequeno restaurante com alpendre para o mundo

por Miguel Marujo, em 12.01.18

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A pequena casa verde na E Broad Street, logo depois da esquina com a Wilkerson Street e imediatamente antes da ponte sobre o rio Oconee, na cidade de Athens, no estado americano da Georgia, tem um pequeno alpendre com duas mesas e bancos corridos de madeira. O letreiro de fundo branco anuncia nas suas letras pretas Weaver D’s Delicious Fine Foods - e por baixo o slogan da casa de restauração pronta a comer: "Automatic for the people", mote para um serviço "pronto, rápido e eficiente para as pessoas".

Foi ao lema do restaurante de Mr. Weaver que Michael Stipe e os seus companheiros foram buscar o nome para o oitavo álbum de estúdio dos R.E.M., lançado a 5 de outubro de 1992, agora celebrado com uma edição especial do 25.º aniversário. Automatic for the People foi o difícil sucessor de Out of Time (1991), que atirou o grupo de Athens para o palco do mundo — e basta nomear Losing My Religion, que todos trauteámos, para nos lembrarmos porquê.

"Verdadeiramente nada mudou", recorda agora o guitarrista Peter Buck, depois de vendidos dez milhões de cópias "ou assim". "Nenhum de nós comprou mansões ou grandes carros ou alguma coisa. Juntámo-nos de novo apenas para ensaiar e gravar."

Do Weaver D’s Delicious Fine Foods para o mundo, a banda repetiu a receita do sucesso com um álbum que o jornalista e crítico Tom Doyle apresenta como o "mais misterioso" de todos dos R.E.M., no libreto que acompanha agora a reedição aniversariante — há ainda uma edição luxuosa, com 3 CD e Blu-ray, com inéditos, incluindo Photograph, tema inédito com essa outra voz essencial da América que é Natalie Merchant. Talvez seja misterioso de facto: a morte percorre as 12 canções do álbum, numa época em que o advento da sida nos anos 80 ainda se fazia sentir no dia-a-dia.

"Out of Time pode ter-nos libertado um pouco para abandonarmos o nosso formato tradicional de guitarra, baixo e bateria", explica o baterista Bill Berry. "Éramos livres de seguir a direção que queríamos." E seguiram: Bill, Peter e o baixista Mike Mills juntaram-se em Athens e ensaiaram primeiro sozinhos. Na sala de ensaios da banda em Clayton Street e no estúdio do amigo de longa data e engenheiro de som, John Keane, a uns quantos quarteirões das suas casas, ainda no outono de 1991, foram gravadas as primeiras demos, sem o vocalista Michael Stipe. "O Peter estava cansado de tocar guitarra e andava a tocar diferentes instrumentos", nota Stipe. "Na verdade, o meu trabalho foi simplesmente tentar construir a partir da base musical que eles me deram. A génese desta grande mudança para algo menos rock realmente começou com estes tipos", conta o vocalista.

Havia uma certa brincadeira que marcou estes primeiros dias de experimentação musical, como recuperou Doyle nas histórias que acompanham a boxset destes 25 anos, mas o álbum é "mórbido", como o classifica Mills, mesmo ouvindo a leveza de The Sidewinder Sleeps Tonite ou o fulgor de Man on the Moon, sobre o humorista Andy Kaufman (uma letra que nasceu no último dia de gravações do álbum, como lembra a Rolling Stone).

É em Nova Orleães, já na primavera de 1992, que prossegue a gravação do álbum. "Sabíamos que este era um disco mais mórbido e vibrante, por isso que melhor local para o gravar que Nova Orleães? É uma cidade muito confortável com a morte", sublinha Mike Mills. É Tom Doyle quem defende que Automatic for the People também nos anima o espírito, como a personagem central de Try Not to Breathe, que se dirige ela própria para a sepultura mas diz ter vivido uma vida cheia e quer que os seus mais próximos e queridos a recordem com amor.

Afaste-se a morbidez, recupere-se a magia e poesia: 25 anos depois sobra o génio de Stipe e companheiros. O sucessor de Out of Time é, depois de todos estes anos, uma obra obrigatória — aliás, qualquer álbum em que se ouça Everybody Hurts é obrigatório.

Automatic for the People é também um disco marcado por baladas como Drive ou Nightswimming; são os arranjos de cordas pelo antigo baixista dos Led Zeppelin, John Paul Jones, em quatro canções; e é também pop de primeira água. Mas os R.E.M. não esquecem o rock em que se formaram desde Murmur (1983). Basta ouvir o concerto ao vivo, que acompanha esta edição de luxo. Radio Free Europe, que abria Murmur, fecha este concerto gravado no 40 Watt Club em novembro de 1992. E é rock de primeira água.

[publicado originalmente no DN de 1 de janeiro de 2018]

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Sufjan Stevens canta a história de Tonya Harding, protagonista de um bailado perfeito no gelo que foi vilã e é uma improvável heroína americana

 

Uma improvável estrela da patinagem artística, nascida pobre em Portland, que vestia fatos costurados por uma mãe abusadora e dominadora, protagonista de um bailado perfeito no gelo e de uma conspiração terrífica contra a sua rival na pista que lhe acabou com a carreira, vilã involuntária de tablóides e piada para os americanos, atriz de uma sextape com o então marido vendida a uma revista pornográfica, mais tarde protagonista noutros ringues de combates de boxe contra celebridades duvidosas, subiu ao palco para a única atuação de uma banda, conduziu carros vintage e salvou a vida a uma velhinha de 81 anos, com respiração boca-a-boca. 

Tudo isto antes de Tonya Harding fazer 30 anos — e, por tudo isto, Tonya “brilha no panteão da história americana, simplesmente porque nunca deixou de tentar mais”, diz dela Sufjan Stevens. O cantor americano explica-se: “Ela lutou contra o classismo, o sexismo, o abuso físico e a censura pública para se tornar numa incomparável lenda americana.” E ao explicar-se assim, Sufjan justifica a sua nova canção, Tonya Harding, nome de patinadora cantada em duas versões (num single já disponível nos serviços de streaming, em cassete e vinil).

Tonya triunfou onde não se esperava, argumenta o cantor americano de Detroit. Nascida nos meios operários de Portland, Oregon, Tonya aplicou-se num mundo estranho ao seu, o da patinagem artística, até vencer o campeonato dos Estados Unidos em 1991 — e a sua ascensão em fama e títulos “foi vista, por alguns, como uma nódoa num desporto que favorecia a sofisticação e o estilo”. Na pista, a sua técnica de patinagem era determinada, feroz e muito atlética, descreve Sufjan, e foi a primeira americana a fazer o salto de Axel triplo.

Foi sem sofisticação e estilo que Tonya e o marido Jeff Gillooly contrataram um rufia, Shane Stant, para que partisse a perna a Nancy Kerrigan, a adversária de Tonya a uma possível vaga nos Jogos Olímpicos de Inverno de 1994. Nancy foi agredida e na memória de todos ecoaria o “why? why? why?” de dor e choro da jovem patinadora. Nancy Kerrigan’s charm/ Well she took quite a beating/ So you’re not above cheating/ Can you blame her for crying?, canta Sufjan. Descoberta a conspiração, Tonya seria irradiada e vilipendiada por todos, apesar de ainda ter competido nos Jogos. Nancy vingou-se na pista olímpica de Lillehammer: foi medalha de prata, Tonya apenas oitava.

E é depois disto que Tonya insiste noutras arenas — o filme da noite de núpcias da patinadora e Jeff é vendido à Penthouse por 200 mil dólares para cada um dos dois protagonistas, os combates de boxe onde partilhou o ringue com Paula Jones, que acusou Bill Clinton de assédio sexual e ajudou ao processo de impeachment que os republicanos ensaiaram ao presidente democrata. É uma improvável “estrela americana brilhante”, como nos canta Sufjan Stevens que chega a tempo do Natal para uma qualquer redenção da patinadora. “Ela foi uma estrela de reality TV antes ainda destas existirem. Mas ela também não era simplesmente classificável: a namorada dos americanos com um lado negro. Mas acredito que isso é o que a tornou tão interessante e uma verdadeira heroína americana”, defende Stevens.

O músico reconhece que o primeiro esboço desta canção era pouco “mais do que alguns trocadilhos, com punch lines e uns toques de sexo”, para chegar a “um arco narrativo divertido”. “Quanto mais editava, e quanto mais eu meditava e considerava a totalidade da pessoa de Tonya Harding, comecei a sentir a vontade de escrever algo com dignidade e graça” sobre a “verdadeira história desta estranha e magnífica heroína da América”. E “no fim do dia”, Tonya “era apenas uma mulher comum, com um talento extraordinário e uma ética de trabalho incansável que se propôs a dar o seu melhor”.

Sufjan Stevens é também ele incansável: só este ano trouxe-nos Planetarium, um álbum com Bryce Dessner, James McAlister e Nico Muhly, e The Greatest Gift Mixtape — Outtakes, Remixes, & Demos from Carrie & Lowell, álbum que já tinha conhecido uma edição ao vivo em 2017 e agora foi recuperado numa recolha de misturas e inéditos das sessões de gravação do disco de 2015.

O rapaz que oferecia discos de natal que gravava à família (embalados e comercializados em duas caixas, que são excelentes prendas de Natal), traz-nos a beleza do bailado do gelo neste single Tonya Harding, entre a leveza da primeira versão e uma segunda versão que é como um lullaby em que Sufjan protege a sua heroína. Tonya Harding, my friend/ Well this world is a bitch, girl/ Don’t end up in a ditch, girl/ I’ll be watching you close to the end. Tonya está redimida.

[versão mais longa de texto originalmente publicado no DN a 18 de dezembro de 2017]

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Pássaros e beijos na utopia cantada por Björk

por Miguel Marujo, em 18.12.17

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O regresso da islandesa é um disco otimista que viaja entre as paisagens do seu país e as florestas venezuelanas. Mas também há sons que chegam do espaço num dos melhores álbuns do ano que será apresentado ao vivo em Paredes de Coura no próximo ano. Utopia é uma viagem ao futuro em 72 minutos

Entre as paisagens geladas da Islândia, as florestas densas de humidade e verde da Venezuela ou a improvável imensidão galáctica da Guerra das Estrelas, Björk traz-nos uma polifonia utópica de vozes, flautas, cantos de pássaros, cordas e eletrónicas que tornam este Utopia uma viagem em que o futuro se entranha em cada um dos seus 72 minutos.

E é das entranhas sempre que se deve falar dos álbuns da cantora islandesa, físicos, viscerais, orgânicos, numa pop que desde Biophilia recusa mediatismos e espartilhos. Prova disso é The Gate, o single de apresentação deste Utopia, que estilhaça a linguagem pop e nos faz planar por entre uma voz cada vez única, brilhantemente única, no universo musical atual.

Para trás ficaram os sons tão sombrios quanto poderosos do anterior Vulnicura (2015), história vivida e fresca da separação intempestiva de Björk e do seu então companheiro, Matthew Barney (episodicamente evocada em Sue Me). Com Utopia, é a própria intérprete-cantora-compositora que recupera o amor, no último verso cantado no álbum, pedindo Hold fort for love forever. Ou como cantava momentos antes nessa mesma canção (que tem um dos títulos mais otimistas do ano, Future Forever): "You say I mirror peoples' missions at them/ Now you mirror at me who I used to be/ What I gave to the world/ You've giving back at me."

O que Björk continua a dar ao mundo é este espanto feito música. A inspiração chegou também de álbuns antigos que ela e o seu companheiro desta viagem (que já tinha colaborado em Vulnicura), o produtor venezuelano Arca, ouviram no processo de criação de Utopia. "Eu queria que o álbum fosse como o ar, por isso há ar por todo o lado, nas letras, na minha voz, nas flautas, e onde as flautas mudam para sintetizadores e os sintetizadores para as flautas", explica à revista britânica Uncut.

Estas flautas estão por todo o lado (e na capa também há uma) como os pássaros. "Há pássaros no álbum que nunca ouvi e que soam como techno, e há também pássaros islandeses, corvos e himbrimi, mobelhas-grandes, que vivem junto à minha cabana" na Islândia, junta Björk na mesma conversa.

Noutra entrevista, à New Musical Express, a islandesa conta que também usou um álbum de vinil de música venezuelana, que tem na sua coleção, Hekura-Yanomamo Shamanism From Southern Venezuela, gravado nos anos 1970, com pássaros venezuelanos. "Os pássaros soam completamente diferentes", diz. "Eles soam como o R2-D2, ou techno", acrescenta, invocando o pequeno robô da saga de George Lucas. Os pássaros, insiste Björk, parecem-se com sintetizadores analógicos dos anos 1970. "É um dos meus ruídos favoritos de todos os tempos", entusiasma-se a islandesa, falando do álbum de xamanismo dos Yanomami. "Pode realmente ouvir-se os arranhões do vinil nos pássaros. É uma afinidade em camadas para mim."

Björk entra em The Gate para explicar que "há um som bonito" que termina no início dessa canção, "uma gravação de pássaros que os venezuelanos acreditam serem fantasmas de fetos. Se eles têm nados-mortos ou crianças pequenas que morrem, eles pensam que vão para a selva e fazem esses sons".

Não há nada de macabro nestas leituras da islandesa. Estes sons são oníricos e líricos, uma poesia que respira amor. Na descoberta de sons e no diálogo com Arca, Björk escreveu um arranjo para harpa que remeteu para o produtor. "Na altura não tinha consciência disso, mas acho que provavelmente estava a realizar um dos momentos mais festivos e ampliando-o numa canção sobre um beijo. São como cíclicos fogos-de-artifício em redor da boca de alguém que se está a beijar pela primeira vez. Aquelas faíscas que voam quando duas bocas se encontram." É Arisen My Senses, a canção de abertura de Utopia.

Nos tempos que se vivem é urgente definir uma utopia, aponta a autora. Body Memory estende-se nos seus quase dez minutos por entre coros e a voz sempre distinta de Björk e Losss parece convocar lá longe, no tempo, aquela mulher de óculos grossos que iniciava uma estranha dança por entre máquinas e o ritmo sincopado industrial com uma letra que explicava que também isto é música: "Clatter, crash, clack/ Racket, bang, thump/ Rattle, clang, crack, thud, whack, bam!/ It's music/ Now dance." Era Selmasongs, o álbum de canções que ilustravam na perfeição as imagens do filme Dancer in the Dark.

A obra de Björk não é estanque, faísca entre passado e presente (uma das referências assumidas pela islandesa é um velho "lado b" seu, Batabid), como duas bocas que se encontram e beijam e criam algo de novo.

Precipitaram-se pois as publicações da especialidade ao publicarem as suas listas dos melhores do ano antes de novembro se finar, não incluindo nessas listas Utopia (que a islandesa trará em 18 de agosto a Paredes de Coura e foi já lançado a 24 de novembro). Ultrapassada a fealdade quase repulsiva da capa, este novo álbum é um dos mais belos trabalhos de 2017. E cheio de amor.

[texto publicado originalmente no DN a 16 de dezembro de 2017]

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Novo álbum dos Mão Morta regista os concertos com o Remix Ensemble. "Duas estruturas abertas a trocarem galhardetes e experiências", diz Adolfo Luxúria Canibal ao DN. Uma declaração política

Só os mais distraídos podem estranhar o mais recente trabalho dos Mão Morta, resultado de quatro noites de concerto com o Remix Ensemble, a orquestra contemporânea com residência na Casa da Música. Nós Somos Aqueles Contra Quem Os Nossos Pais Nos Avisaram é o registo ao vivo em que a banda de Braga revisita o seu repertório num choque entre a garagem e a academia. Em entrevista ao DN, Adolfo Luxúria Canibal recordou que "este bichinho" vinha já de 2012, com uma experiência ensaiada na Guimarães Capital Europeia da Cultura.

"Nós não queríamos pegar no nosso repertório e dar-lhe um ar sinfónico, não o queríamos adornar, queríamos pô-lo em causa, de alguma forma suscitar uma espécie de choque entre duas formas de olhar e fazer música, entre a forma da garagem, a forma popular, ligada ao rock, e a forma académica, erudita, dos conservatórios. Para que acontecesse esse choque e desse frutos, não podíamos estarmos numa posição perfeitamente popular e não podíamos chocar contra alguém perfeitamente fechado no seu academismo. Tinham de ser duas estruturas abertas a trocarem galhardetes e experiências."

Os Mão Morta, desafiados pelo Theatro Circo a encerrar as comemorações dos 100 anos desta estrutura cultural de Braga, em 2016, quiseram fazê-lo com a sinfonieta de 15 elementos, dirigidos pelo maestro Pedro Neves, e arranjos de Telmo Marques. Adolfo não lhes poupa elogios. "O Remix Ensemble é, dentro da música erudita e contemporânea, um agrupamento de exceção. Achámos que o Remix seria o nosso oponente ideal."

Não se esperem adornos ou meros ornamentos, os Mão Morta não se domesticaram. Recordando os primeiros anos, na década de 1980, Luxúria Canibal lembra que "todos os concertos dessa época eram muito mais viscerais". "Na altura arranhávamos muito mal os instrumentos, conseguíamos fazer o que queríamos mas era limitado pelo que sabíamos — e sabíamos muito pouco, fazíamos coisas muito mais rudes e primitivas do que fazemos hoje." Mas "a essência dos concertos dos Mão Morta mantém-se. A forma como interpretamos visceralmente os temas continua a ser idêntica, a sua exteriorização é que já não é a mesma. A forma como encarnamos e como levamos a sério, sem nos levarmos a sério, o que estamos a tocar, continua a ser exatamente o mesmo."

Nós Somos Aqueles Contra Quem Os Nossos Pais Nos Avisaram não é só o título deste álbum, é uma declaração política. Mas Adolfo recusa que esta música seja de intervenção, pelo menos no "sentido em que se cristalizou a ideia" desse género. "Não temos nada a ver com esse tipo de intervenção mais imediato." No entanto, "de alguma forma falamos sobre política, temos um olhar social sobre o mundo, isso temos e não escondemos e fazemos finca-pé em ter a liberdade de o fazer. Não distribuímos palavras, não chamamos as pessoas à ação." E regressa ao choque que é este disco. "Quando chegámos ao fim dos nossos espetáculos, sentimos que tínhamos ultrapassado a diferença, a rutura que existe entre estes dois universos, o olhar o outro como o diferente sem ter receio do outro — que é uma banalidade do quotidiano, basta ver como olhamos para os muçulmanos, para minorias, todo este advento da extrema-direita, do Trump..."

E nós podemos ser aqueles que vos avisamos, tomando as palavras de Adolfo. "Uma pessoa ouve estes temas e não diz, 'ah, isto é o património dos Mão Morta com toquezinhos sinfónicos'. Não, não é, há ali uma revisão completa." E funciona muito bem.

[texto publicado originalmente no DN a 12 de março de 2017]

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escolhas muito pessoais deste ano

por Miguel Marujo, em 17.12.17

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álbuns lá de fora  

LCD Soundsystem - American Dream

Björk - Utopia

Kendrick Lamar - DAMN.

Melanie de Biasio - Lilies

Susanne Sundfor - Music For Pepole in Trouble

Ryuichi Sakamoto - async

St. Vincent - Masseduction

Planetarium - Planetarium

The National - Sleep Well Beast

Cigarettes After Sex - Cigarettes After Sex

 

álbuns cá de dentro

Lula Pena - Archivo Pittoresco

Aldina Duarte - Quando se Ama Loucamente

Tomara - Favorite Ghost

Mão Morta + Remix Ensemble - Ao Vivo no Theatro Circo

The Gift - Altar

[working in progress]

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As canções de tempos sem inocência

por Miguel Marujo, em 02.12.17

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Os U2 não chegam hoje de Berlim com a revolução de Achtung Baby e Zooropa, mas o seu 14.º álbum, que conhece este dia 1 de dezembro a sua edição mundial, traz-nos no seu rock mais imediatamente reconhecido um repositório de canções que é, provavelmente, o melhor da banda irlandesa deste século XXI. E traz-nos um Bono a descobrir que a morte é uma certeza.

Bono, The Edge, Adam Clayton e Larry Mullen Jr apresentam este Songs of Experience depois da digressão que comemorou os 30 anos dessa outra obra prima que é The Joshua Tree e que acabou por adiar o lançamento deste novo álbum. Verdade seja recordada: a culpa foi de Trump. Com a eleição de Donald Trump para a presidência dos EUA, os U2 quiseram fazer um compasso de espera e recuperar o álbum de 1987, para num fechar de círculo melhor cantarem a distopia do tempo em que vivemos.

Para chegar aqui é preciso olhar ainda um pouco mais para trás, para Songs of Innocence, o álbum anterior, de 2015, que foi lançado com a promessa de um segundo tomo (o álbum que é hoje lançado) e que em determinados momentos assoma à porta de canções deste Experience: American Soul, que conta com Kendrick Lamar a abrir este hino contra a política de Trump, começa onde terminava Volcano; e a fechar o álbum 13 (There Is a Light) é uma reinterpretação de Song for Someone

A pausa foi produtiva entre um e outro disco, com a digressão pelo meio, explicou Bono nas páginas da revista americana Rolling Stone. “A pausa no nosso álbum deu-nos a oportunidade de tocar ao vivo no estúdio estas canções, despindo-as até ao essencial, sem qualquer truque de estúdio, para ver o que realmente tínhamos. Foi um excelente presente para o álbum.”

Não é, ainda assim, um disco para cativar detratores de sempre ou miúdos que só os ouvem a encher estádios, mas também não se acomodam a revisitar a matéria dada sem ponta de novidade. O letrista e vocalista escreveu estas novas canções como uma coleção de cartas dirigidas à família, amigos e à América. Por isso, a intimidade de 13 (There Is a Light) resgata a luz de alguns bons momentos dos U2.

É por Love Is All Have Left que se inicia esta experiência, num tom quase místico de vozes sintetizadas e cordas a vibrarem nas palavras de um Bono que nunca deixa as coisas por menos: Nothing to stop this being the best day ever/ Nothing to keep us from where we should be, avisa, para início de conversa. E depois de Lights of Home entra-se na sequência das canções já mostradas ao mundo, com You’re The Best Thing About Me, Get out of Your Own Way e American Soul. Se na primeira, Bono sabe que The best things are easy to destroy, em American Soul é Kendrick Lamar que nos narra que Blessed are the bullies/ For one day they will have to stand up to themselves/ Blessed are the liars/ For the truth can be awkward

Também mais à frente The Blackout — outra das canções já reveladas — regressa à América de hoje. Bono confessou que este tema “começou por ser mais sobre um apocalipse pessoal”. E explicou-se em setembro na Rolling Stone: esta canção é sobre “alguns eventos na minha vida que me recordaram da minha mortalidade mas seguiu depois para a distopia política para onde estamos a caminhar”. E é o próprio que cita os versos da canção que melhor retratam esta canção: Dinosaur, wonders why it still walks the earth/ A meteor promises it's not going to hurt would — e com humor acrescenta que “seriam versos divertidos sobre uma velha estrela de rock mas menos piada quando estamos a falar sobre a democracia e antigas certezas, como a verdade”. É por isso que os versos seguintes vão diretos ao que está em jogo no mundo, neste momento, como defende Bono: Statues fall, democracy is flat on its back, Jack/ We had it all and what we had is not coming back, Zac/ A big mouth says the people they don't want to be free for free/ The blackout, is this an extinction event we see?

Na capa, os dois jovens fotografados pelo colaborador de sempre, Anton Corbijn, são os filhos adolescentes de Bono e de The Edge. E quando em The Little Things That Give You Away se ouve The air is so anxious/ All my thoughts are so reckless/ And all of my innocence has died, melhor percebemos que a inocência ficou para trás e é a maturidade de uma obra como esta dos U2 que nos ajuda também a ouvir melhor os dias de hoje.

[publicado originalmente no DN de hoje, 2 de dezembro de 2017]

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Já se ouve o órgão quase religioso há 40 segundos quando entra a guitarra dedilhada num ritmo e num som hoje tão característicos, logo depois a bateria sincopada, antecipando a voz, também ela única, a cantar I wanna run, I want to hide/ I wanna tear down the walls/ That hold me inside — e entramos no deserto, na América das paisagens a perder de vista, nas cidades onde as ruas não têm nome, das colinas forjadas no trabalho árduo de mineiros.

É a América que os U2 nos apresentaram há 30 anos, quando a 9 de março de 1987 chegou às lojas o seu disco The Joshua Tree, uma carta de amor pelos Estados Unidos, que nos fez também apaixonar pela América.

Para cantar esta terra imensa, "a poesia deste país", Bono Vox, The Edge, Adam Clayton e Larry Mullen Jr. viajaram de caravana para lá das silhuetas de grandes cidades, acompanhados das letras de Tennessee Williams, Allen Ginsberg, Charles Bukowski ou Sam Shepard e dos blues ouvidos nas rádios locais.

É esta América a que o grupo irlandês regressará na sua digressão anunciada para comemorar exatamente estes 30 anos. É também o fechar de um ciclo, como explicou Adam Clayton à revista britânica Mojo: "The Joshua Tree assemelha-se de alguma forma a um espelho das mudanças que estavam a acontecer no mundo no período de Thatcher/Reagan. Parece que completámos o círculo e voltámos a esse período com um conjunto diferente de personagens." Não é preciso perceber do que fala o baixista dos U2: a eleição de Donald Trump para presidente dos EUA, o brexit ou a ascensão dos extremismos na Europa.

Já em 2007, Bono explicava-se na edição especial comemorativa dos 20 anos do álbum: "Eu sempre disse que a América não é apenas um país, é uma ideia, e andámos à procura de como essa ideia se expressava nos anos 1980. Era quando a ganância era boa, era o fenómeno de Wall Street e o filme Wall Street, era ganhar, ganhar, ganhar, sem tempo para derrotados, era a material girl, preços astronómicos no mercado de arte, uma nova forma de prosperidade e o amanhecer de uma idade da informação... e então tivemos de destruir isto tudo descrevendo-o como um deserto."

É o deserto que faz também a icónica capa do álbum (e dos vários singles), com fotografias de Anton Corbijn no inóspito Mojave.

Para levar ao palco (a partir de maio) o álbum, os U2 deixaram de lado, por enquanto, o novo trabalho, Songs of Experience (um segundo tomo para Songs of Innocence, de 2014) que pode ainda ser publicado neste ano. "As novas canções já estavam prontas a sair e, entretanto, o mundo mudou", explicou Bono, nas páginas da Mojo. "E tivemos um daqueles momentos 'para onde vamos? Vamos voltar um bocadinho atrás'. É um álbum muito pessoal, não será um álbum político de um momento para o outro."

Agora, é The Joshua Tree que nos interessa: o álbum abre com o tríptico Where The Streets Have no Name, I Still Haven't Found What I'm Looking For e With or Without You, os três primeiros singles que arrebataram multidões e levaram a obra até à marca de quase 30 milhões de discos vendidos.

Este é também o disco que retrata duas Américas (o nome que Bono pensou para o álbum), de tensão política e social, como em Bullet The Blue Sky ou Red Hill Mining Town (nunca tocada ao vivo) ou na sequência final de Exit e Mothers of the Disappeared. Mas também da terra mítica que é In God's Country. Ou das canções que ficaram fora do álbum (como no lado B de With or Without You, com as geniais Luminous Times e Walk to the Water).

Há uma demo dessas gravações, Desert of Our Love, que parece sintetizar o lugar deste álbum na história da música popular: é no deserto que encontramos o amor.

 

[agora que é publicado o 14.º álbum dos U2 recupero este artigo publicado originalmente no DN de 9 de março de 2017 — dia em que passavam 30 anos da edição de The Joshua Tree, o álbum que obrigou a adiar o lançamento de Songs of Experience]

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Há filme nas salas sobre Morrissey quando era o jovem Stephen, há um disco novo seu e ainda a reedição de luxo da obra-prima da banda de Manchester, The Queen Is Dead. Felizmente a porta da casa de Stephen abriu-se num dia de sol.

Quando se abre a porta do número 384 de Kings Road, em Stretford, Manchester, fecha-se o filme: a história do jovem Steven Patrick Morrissey começa verdadeiramente depois deste último plano de England is Mine, o filme que chegou às salas esta quinta-feira e relata os tempos adolescentes daquele que o mundo veio a conhecer por Morrissey, o carismático e desconcertante líder da banda maior da nossa adolescência, The Smiths. (Sim, haverá outros amores adolescentes, mas a adolescência é assim mesmo.)

Com este filme nas salas, há outros dois motivos para voltarmos a este amor: esta semana há novo álbum de Morrissey, Low in High School, e há uma edição luxuosa que nos traz The Queen Is Dead, com o terceiro trabalho de originais dos Smiths, editado em 1986 e agora remasterizado, acompanhado dos inevitáveis extras, que tornam ainda mais apetecível aquilo que já ouvimos tantas vezes em cassete, vinil ou CD. 

É a primeira vez que a obra de Morrissey, Johnny Marr, Andy Rourke e Mike Joyce merece este tratamento gourmet: o álbum é o que é, um conjunto de canções sem mácula, daquelas que cantámos em coro, a sós, com mais ou menos álcool no sangue, no meio da pista de dança de uma matiné numa discoteca e à volta da fogueira, ao ouvido de alguém ou afundados no sofá a chorar mais uma tampa da miúda gira da turma do lado. Basta dizer que o álbum de 1986 abre com The Queen Is Dead, tem I Know It’s Over, Bigmouth Strikes Again, The Boy With The Torn In His Side, Some Girls Are Bigger Than Others e, para sempre, a luminosidade incandescente de There Is A Light That Never Goes Out. Neste alinhamento, deixámos de fora quatro canções e só porque são “apenas” muito boas. O banquete desta obra-prima completa-se com um segundo disco de lados B e demos, um terceiro ao vivo em Boston e um DVD áudio com o filme de Derek Jarman para The Queen Is Dead e outros dois vídeos de There Is A Light That Never Goes Out e Panic.

Quando falamos dos Smiths e das suas canções, é disto que nos rezam crónicas de jornais, teses académicas ou o filme que já podemos ver nas salas: estes quatro rapazes de Manchester cativaram uma geração de adolescentes angustiados, com as suas letras sofridas e narcísicas (o corretor do computador sugeriu a palavra narcóticas, e também ia bem) de Morrissey e aquelas guitarras de Johnny Marr. 

Em England is Mine, a biografia realizada por Mark Gill — a que a distribuidora portuguesa acrescentou um redundante e desnecessário Descobrir Morrissey — não há canções dos Smiths (o cantor não deixou) mas sobra o génio convencido do jovem Stephen, cáustico com o que vê à sua volta, deslocado num mundo de trabalho de mangas de alpaca, tímido nas relações, arrogante na sua mudez e fechado numa concha, mesmo quando está num concerto de bloco na mão e cerveja noutra.

Só quando se fecha a porta do seu quarto e em frente ao espelho, Stephen canta por cima de êxitos da Motown, dança de braços abertos e sonha em conquistar Inglaterra, ele é alguém que tem uma “versão incrível de si mesmo”, como se espantou o ator que lhe dá vida, Jack Lowden. Na máquina de escrever solta amargura na sua poesia e destila desprezo sobre as bandas dos concertos que vê (como os Sex Pistols, a quem deseja um dia ganhem o suficiente para comprar roupas que não pareçam que eles dormissem com elas). Os textos envia-os para a New Musical Express, onde um dia mais tarde escrevem erradamente o seu nome, como vocalista de uma banda local de um concerto só, The Nosebleeds. Chamam-lhe Morrisson e o NME desculpou-se quase 40 anos depois — “sorry, Moz”, escrevem na crítica ao filme de Gill.

Na BBC Radio 4 dizia-se que ele permanece outsider’s outsider, o outsider de todos os outsiders. O jornalista britânico Jon Savage notou que The Queen Is Dead (a canção) é um manifesto claro, uma “crítica explícita da monarquia, como pilar do sistema de classes existente”. No seu novo disco a solo, com a capa de um miúdo que segura um machado e um cartaz que diz “Axe the Monarchy”, uma das canções diz-nos no título que Jacky’s Only Happy When She’s Up on the Stage. Tal qual o jovem Stephen, ainda que este tema seja um olhar desencantado sobre o brexit (Jacky será então uma referência à bandeira britânica, a Union Jack). “Jacky cracks when she isn't on stage/ See the effects of sexual neglect/ No script, no crew, no auto-cue/ No audience telling her what to do!/ Exit, exit/ Everybody's heading for the exit, exit”, canta Morrissey. Savage disse que as letras do rapaz de Stretford são “uma explosão de raiva eloquente” (“falas sempre assim com palavras caras”, atira-lhe uma rapariga no filme) “do ponto de vista de um outsider”. 

É este tipo que continua de fora, sem se deixar arrumar em estereótipos ou clichés, que estabelece o fio condutor entre a personagem biográfica de England is Mine (afinal, trata-se do filme de um outro rapaz de Manchester e fã dos Smiths), The Queen Is Dead, a obra-prima de Morrissey e Marr, e Low in High School, o seu 11.º álbum de originais depois do fim da banda.

O filme termina com a porta a abrir-se. É Stephen quem a abre, a sorrir, para Johnny, que o vem convidar para formar uma banda. “Estava um dia de sol”, recordou Marr. Felizmente para nós que assim pudemos ter este amor.

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Numa certa noite, depois de jantar, Neil Tennant e Chris Lowe passeavam pelas ruas do Porto quando entraram num bar, por um dos motivos mais banais deste mundo: Chris precisava de ir à casa de banho. Não havia muita gente no bar, apenas um grupo sentado a ouvir tocar guitarra, mas os dois Pet Shop Boys resolveram ficar mais um bocado. "Foi fantástico. Estava um tipo com uma guitarra a cantar e estava um grupo de pessoas à volta dele e então todos se juntaram em coro. Uma das canções era mesmo boa e então eu perguntei o que é que era." Perante a resposta, Chris agradeceu "as maravilhas da tecnologia moderna", enquanto comprava a canção no iTunes: era As Sete Mulheres do Minho, o tema popular musicado por José Afonso, que o cantor gravou em Fura Fura (1979).

De regresso ao estúdio, onde estavam a gravar Glad all over, os Pet Shop Boys andavam às voltas com aquela canção que tinham ouvido no Porto. "Passávamos a vida a dizer, oh, e há esta canção popular portuguesa", recordou Neil. A vontade aguçou o engenho, mas neste caso sem grande sucesso. Os britânicos procuraram inspirar-se nos acordes de Zeca. "Originalmente começámos a tentar fazer uma versão da canção, mas não conseguimos fazer nada daquilo", argumentou Chris.

Optaram por avançar para aquilo que seria Together, que funcionaria como single de apresentação da coletânea Ultimate, que a editora dos Pet Shop Boys por esses dias - estávamos em 2010 - queria pôr cá fora. E Together acabou por beber mais em sonoridades russas (como explicou Neil) do que na canção popular minhota de Zeca. A letra também foi uma inspiração, defende Neil, que confunde o ano em que a canção foi escrita com o retrato que Zeca faz da revolução da Maria da Fonte em 1846. "Julgo que foi escrita há mais de cem anos como uma canção revolucionária", confunde-se ele, o que não retira uma vírgula à delícia que é esta (quase) inspiração.

Toda esta história é agora revelada pelos dois numa conversa transcrita no booklet que acompanha a edição de Yes+Further Listening. mais um álbum reeditado no plano de edições de toda a obra dos Pet Shop Boys, que estão a revisitar o catálogo completo dos álbuns de estúdio de 1985 a 2012 da Parlophone.

Estas reedições, sob o nome de Catalogue: 1985-2012, iniciaram-se com os três álbuns anteriores a estes — Nightlife (1999), Release (2002) e Fundamental (2006) — acompanhados de muito material extra reunido sob o nome comum de Further Listening. Depois dos sétimo, oitavo e nono álbuns dos Pet Shop Boys (que foi por onde começou este catálogo), o duo britânico recupera agora os seus 10.º e 11.º álbuns, Yes e Elysium.

Yes, publicado em 2009, com Johnny Marr nas guitarras (o ex-Smiths já tinha tocado em Release), Neil e Chris apresentam um punhado de canções de primeira água, em que a pop mais descaradamente pop (abusemos da redundância) se mistura entre temas que fazem o corpo suar, como Love etc. ou Pandemonium, e baladas cheias de elegância, como em King of Rome.

A acompanhar Yes, os dois álbuns extra de Further Listening contam histórias paralelas dos Pet Shop Boys de 2008 a 2010: há I Cried for Us, uma bela canção de homenagem à mãe de Rufus Wainwright, Kate McGarrigle, cuja interpretação mereceu de Nick Cave um só adjetivo: "Imaculada"; há novas versões de canções de Natal, recuperadas do EP Christmas; há Phil Oakey a acompanhar na voz em This Used to Be the Future; há canções infantis de uma peça de teatro, My Dad's a Birdman; há My Girl dos Madness; ou uma versão de Viva la Vida, dos Coldplay, de onde irrompe Domino Dancing. Neil não se recorda porque misturaram os dois temas, Chris lembra que andavam a fazer medleys.

Por falar em medleys, no segundo volume deste Further Listening encontram-se também 11 minutos de algumas das principais canções dos Pet Shop Boys que Neil e Chris misturaram para a cerimónia dos Brit Awards, onde receberam um prémio de carreira, desde Suburbia a West End Girls, passando por Always on My Mind ou Go West — uma luxúria para os sentidos.

Elysium, de 2012, nasceu de uma antiga proposta de Trevor Horn, para a gravação de um disco em Los Angeles, algo "suave e bonito", uma proposta que os intrigou mas que acabou por ser concretizada sem ser cumprida à risca e voltando também aos sons latinos de Bilingual. "Algumas das minhas canções favoritas dos Pet Shop Boys estão neste álbum", reconhece Chris. Esta nova audição pode vir a dar-lhe razão.

[originalmente publicado a 4 de novembro de 2017 no DN]

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music brings hope for a better tomorrow

por Miguel Marujo, em 02.11.17

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[ainda ao meu Pai]

Queimaram-se ontem as velas derradeiras do dia de todos os santos, que o feriado e a tradição popular fazem de memória, celebração e comemoração dos mortos. Afinal, o dia dos finados de hoje transplanta-se para o dia em que se glorificam santos e santas. Os mortos, homens e mulheres, todos e todas, são assim santificados, por calendário, numa subversão eventualmente inconsciente — de vitória da vida sobre a morte. Uma ressurreição da festa. E os vivos que julgam apenas cuidar dos mortos, acabam por cuidar da celebração da sua vida. Na memória dos amigos e familiares mortos lembramos sempre os momentos de alegria, raramente nos recordamos da tristeza, dificilmente se festejam as angústias. Por isso, toda a alegria deve ser festejada — não condenada.

Da aparelhagem ouviram-se os sons da terra que deus sonhou: Johnny Cash canta o repertório de hinos religiosos de um livro da sua mãe (é o disco 4 da absolutamente imperdível caixa "Unearthed"). Cash gravou estes temas já marcado por um cancro, que à medida que avançava lhe debilitava a voz e engrandecia a vida. E é de vida, que esta voz à beira da morte, canta. É de vida que se sonha, com estes temas. Afinal, a mãe sempre lhe ensinou que a música é uma coisa festiva. «I'll just sing 'em, me and my guitar, simple, no adornment, knowing that God loves music and that music brings hope for a better tomorrow», escreve Cash. A música deste tempo pode ser também um Requiem — mas lembrando que a festa da vida celebra-se sobre a morte. Assim os vivos santificam os finados.

[escrito a 1 de novembro de 2005, brevemente atualizado em 2012, revisto, ilustrado e cantado agora]

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As novas polifonias tribalistas

por Miguel Marujo, em 24.10.17

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É quase um fantasma que por instantes deixa o ecrã, fugidio, de vestido pérola, a afastar-se do microfone e a pousar os auscultadores e a sair de copo na mão. Carminho, é ela, a cantora portuguesa, acabou de cantar Os Peixinhos com os Tribalistas e sai de cena - deixando a sós os três loucos, "loucos não, Tribalistas", corrigem eles entre gargalhadas, sentados num alpendre, a noite escura, e eles de óculos escuros. É assim que fecha o filme que acompanha a gravação das dez novas canções do trio que junta Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte, num DVD lançado em simultâneo à edição em CD, 15 anos depois do seu primeiro álbum.

Tribalistas é também de novo o nome do álbum, sem necessidade de dizer mais e é, mais uma vez, uma espantosa combinação de vozes, polifonias soltas e em uníssono, em que Arnaldo é Arnaldo, Marisa é Marisa e Carlinhos é Carlinhos - e depois vem Carminho e é Carminho. Mas destas quatro vozes distintas faz-se uma só, Um só, cantam logo no segundo tema: "1 2 3, somos muitos, quando juntos,/ somos um só, um só".

A guitarra é dedilhada, enquanto se prepara a gravação, e Marisa impacienta-se por começar, "depois a gente vai fazendo outras vozes", e Arnaldo avisa, "depois tem as loucas". Sim tem, concorda Marisa. "Depois que fizerem as de vocês, a gente faz as loucas", e as vozes entram em Diáspora, canção que retrata êxodos destes tempos, onde há migrantes e refugiados - "atravessamos o mar Egeu/ um barco cheio de fariseus/ com os cubanos, sírios, ciganos/ como romanos sem Coliseu/ atravessamos pro outro lado".

Está dado o mote para um álbum onde se canta a política e o amor, eles que há quatro anos se juntaram para cantar Joga Arroz, uma quase-canção em que apoiaram a campanha pelo casamento igualitário, que é como quem diz o casamento alargado a pessoas do mesmo sexo. À época, o casamento civil igualitário, assim chamado no Brasil, já tinha sido regulamentado pelo Conselho Nacional de Justiça mas faltava a sua aprovação no Congresso e os três juntaram-se para fazer "uma música para sensibilizar os deputados, senadores e a sociedade brasileira em nome da liberdade de amar".

Talvez seja por isso que Arnaldo Antunes tenha explicado, em agosto ao jornal Globo, que este disco "não é volta dos Tribalistas, porque os Tribalistas nunca foram". "A gente sempre esteve aí", acrescentou. E Marisa Monte confirmou que os três foram fazendo trabalhos em conjunto nestes 15 anos, encontrando-se para compor, mas sem pensar num disco. "E há um ano e meio surgiu o desejo de fazer um registo juntos. Temos mais músicas juntos, mas essas pareciam mais potentes com a gente junto", contou. Juntos, nestas novas polifonias, de vozes e causas nossas.

O regresso anunciou-se com uma foto nas redes sociais e uma legenda - "Juntos somos um só", como em Um só: "A música fala da convivência com as diferenças. A gente vê um momento que está tudo muito dividido e a gente gosta de poder juntar as coisas e poder conviver com os paradoxos e viver nossas contradições", contou Arnaldo Antunes.

Daí o reencontro, 15 anos depois desse primeiro álbum dos Tribalistas, como se recorda a abrir o DVD: "Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte se reencontram para gravar suas novas parcerias - dez novas canções, uma canção por dia." "Vamos fazer isso agora, depois faz dez, depois mais dez e mais dez, e aí tem o "Tri", o "ba" e o "lista", a lista da tribo", sintetiza Carlinhos Brown no filme.

Mais à frente, o mesmo Carlinhos insiste em tocar uma flauta. "Tem que inventar algum som com o que tem", diz, "e usar o que tem", para "tirar do meu jeito". E tira do seu jeito qualquer som. Na ficha técnica de cada canção é delicioso ir tomando nota dos instrumentos que Carlinhos Brown toca. Ou com o que tem mais à mão: eletrónicos artesanais, palmas, cajóns, afoxés, karkabou, bacurinha, beatbox, berimbau, shaker, tamborim, conga, bongô, pandeiro, zampogna, ganzá, temple block, wood block, gongo, prato-condução, clave, timbau, pulseira, gã, tumbadora... - numa lista não exaustiva (que só atrapalhou o corretor automático do computador). "Todos os instrumentos têm alma", argumenta Carlinhos.

Este homem dos muitos instrumentos soma o mais importante deste álbum, a voz, à voz dos seus outros companheiros de canção. É essa a mais valia de um álbum que faz de Fora de Memória, Trabalivre (e há um diálogo delicioso no filme que dá conta de como surgiu o nome), Ânima ou Lutar e Vencer temas essenciais (para além dos já citados) deste trabalho.

E há, no fim, já dissemos, Os Peixinhos, uma lullaby de encantar, uma canção de embalar, com percussão de boca, na qual "os peixinhos são/ flores sem o chão/ nadam, boiam, fazem bolhas/ e bolinhas de sabão". E Carminho a puxar este fado-bossanova que nos faz sonhar entre bolhas e bolinhas de sabão. De óculos escuros para melhor sentir os outros sentidos.

[publicado originalmente no DN a 21 de outubro de 2017]

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A banda sonora e as canções que fazem a nova temporada da série de David Lynch revelam um universo onde cabe a pop mais atmosférica, o rock mais pesado e a atmosfera muito própria criada por Angelo Badalamenti. São dois discos que recuperam em sons as paisagens frias e húmidas de Twin Peaks, a cidade onde todos têm algo a esconder

Nos últimos meses, desde que o mundo soube que ia regressar à cidade de Twin Peaks, houve quem arrumasse listas musicais numa Lynchlândia imaginária — o universo de David Lynch não se encerra nos filmes e nesta série já mítica, que regressou para um "longo filme de 18 horas", completa-se e ganha outra dimensão com a banda sonora desta nova temporada de Twin Peaks.

É o próprio realizador que o confessou à revista Pitchfork, ao antecipar que "a música de Twin Peaks foi parte integrante da experiência". "Houve tanto que saiu da música que a série ganhou vida e um estado de espírito" com estas composições, apontou Lynch. Afinal, reconhece o americano, a música acaba muitas vezes por apontar um caminho ou uma ideia, ditar um movimento de um filme. "O mundo está cheio de acidentes bonitos", replicou David.

Com a assinatura inconfundível de Angelo Badalamenti, que acompanha há muito Lynch e assinou em 1990 as composições originais da série (e do filme que se lhe seguiu em 1992, Twin Peaks: Fire Walk with Me), David Lynch propõe-nos dois registos distintos para a série. No primeiro, Twin Peaks (Limited Event Series Original Soundtrack), o palco é quase todo de Badalamenti.

O compositor americano recupera três canções da sua banda sonora de 1990 — Twin Peaks Theme (Falling), Laura Palmer's Theme (Love Theme from Twin Peaks) e Audrey's Dance —, e projeta o seu trabalho recente para a dimensão mais sombria, misteriosa e inexplicável deste opus televisivo criado por David Lynch e Mark Frost.

Nos seus temas, Angelo Badalamenti tanto parece ilustrar o tempo frio e chuvoso de Twin Peaks, numa atmosfera densa de sintetizadores, guitarras ou instrumentos de sopro, como se ouve por exemplo em Accident/Farewell Theme ou Dark Mood Woods/The Red Room, como nos transporta por entre sons mais soltos de percussões jazzísticas, uma influência óbvia na sua obra, como em Grady Groove, num tema que conta com a intervenção de Grady Tate.

Esta banda sonora não se esgota em Angelo Badalamenti: David Lynch ensaia-se em duas colaborações, com Dean Hurley e o próprio Badalamenti, os Chromatics seduzem num instrumental, Saturday, Muddy Magnolias cantam das entranhas American Woman (numa remistura do realizador) e Johnny Jewel não foge muito ao ambiente sonoro que se colou às paisagens de Twin Peaks, no tema Windswept.

A composição Threnody for the Victims of Hiroshima, interpretada pela Orquestra Filarmónica Nacional de Varsóvia e dirigida pelo maestro polaco Witold Rowicki, é mais uma prova do ecletismo de David Lynch, que recusa fechar-se em estereótipos.

No segundo registo musical da série, Twin Peaks (Music from the Limited Event Series), o palco é entregue aos muitos estilos e grupos e músicos que se cruzam neste universo — uma imagem de marca que as bandas sonoras de alguns dos filmes mais populares de Lynch, como Blue Velvet, Twin Peaks: Fire Walk with Me, Lost Highway ou Mulholland Drive, já mostravam à saciedade. Logo no primeiro episódio do regresso da série, o agente do FBI Dale Cooper (interpretado por Kyle MacLachlan) ouvia um aviso sério: "Escute os sons."

Fiquemos então à escuta: este segundo disco é mais desequilibrado, habitado por uns indispensáveis Sharon van Etten, Au Revoir Simone ou os Nine Inch Nails (do colaborador de longa data de Lynch, Trent Reznor), como por uns ZZ Top de quem já não tínhamos saudades ou a esforçada pop de Lissie.

No mais, há (quase) clássicos como Eddie Vedder (já se pode incluir num panteão assim), Otis Redding e The Platters. E também há umas deliciosas Paris Sisters, as irmãs Paris que nos anos 1960 foram produzidas por Phil Spector, aqui em I Love How You Love Me.

Num álbum que abre com o tema principal de Twin Peaks, recuperado da banda sonora original, quase falta Julee Cruise, a voz que nos arrebatava nesse registo de 1990 com Falling, The Nightingale e Into the Night. Os Chromatics recuperam em Shadow algum desse mistério de Cruise, mas felizmente (a fechar este volume) há The World Spins, canção mágica do já longínquo ano de 1989, do seu álbum de estreia, Floating into the Night. É aí que Julee Cruise nos leva a sonhar de forma irresistível a cantar-nos Love/ Don't go away/ Come back this way/ Come back and stay/ Forever and ever. Há amores para a vida — e, com estes dois beijos, Lynch parece saber muito bem como nos conquistar.

[originalmente publicado no DN a 9 de setembro de 2017]

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