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publicado originalmente no Q.I. — Quociente de Inteligência,
suplemento do Diário de Notícias, a 26 de maio de 2012

 

MOSTRAR OS PULSOS, rir alto, ter um walkman. Ou pintar-se, lábios e olhos. Pequenos gestos quotidianos, quase banais, mas que nas ruas de Teerão, finais dos anos 80, são um ato de resistência. Marjane tem 19 anos, regressou ao Irão dos ayatollah, depois de viver quatro anos na Áustria. Está em casa, mas não se sente em casa, uma ocidental no Irão, uma iraniana no ocidente. 

Adolescente, os pais quiseram proporcionar-lhe o bem maior usurpado por um regime de barbudos: a liberdade. "Eu e a tua mãe decidimos mandar-te para a Áustria", anuncia-lhe o pai. "Amamos-te tanto que queremos que vás", justifica-se. E a mãe confessa à filha que "é melhor para ti estares longe e feliz do que perto e tão triste". 

Perto e triste é o país de Marjane, onde rapazes e raparigas são enviados para fora, para fugir à ditadura dos guardiães e à Guerra Irão-Iraque. No aeroporto de Mehrabad, "havia uma fila enorme. Muita gente estava a deixar o país. Especialmente rapazes. Considerados futuros soldados, estavam proibidos de sair do país depois dos 13 anos". 

Anos depois, Marjane Satrapi (1) contou a sua história. Persépolis – A História de Uma Infância e a História de Um Regresso é o resultado aos quadradinhos que, nos escaparates das livrarias portuguesas, reúne num só livro aquilo que começou por surgir em dois volumes autónomos. 

Esta banda desenhada desvela o horror de uma ditadura quase contínua — do regime do xá iraniano (de 1941 a 1979) ao estado fundamentalista da revolução islâmica (desde 1979), num traço quase ingénuo. Mas não há qualquer infantilização na forma e no conteúdo do texto e do traço de Marjane Satrapi, mesmo que a infância seja o mote para este retrato de um regime cruel — aquele que subjuga ainda hoje o povo iraniano. 

A família expia a memória. Também com Art Spiegelman (2), na sua obra-prima Maus, dois volumes que desapareceram do mercado português arrastados pela falência da sua editora (agora já reeditados num único tomo). É à infância que Spiegelman também vai buscar o início da sua narrativa. Em Nova Iorque, 1958, Artie magoa-se a brincar. É no pai que procura consolo, enquanto chora pelos amigos que fugiram. "Amigos? Teus amigos? Se os fechares juntos numa sala durante uma semana, sem comida… logo verás o que são os amigos!…" O pai fala do que viveu na pequena cidade polaca, nos guetos da guerra, no campo da morte de que Auschwitz é nome próprio. Ao filho de 10 anos escapa-se-lhe esta vida.

A família é o pretexto para este autor de comics, judeu, já se vê, nascido em Estocolmo em 1948, se embrenhar na Alemanha nazi e no terror do Holocausto. Mas Maus é também um ajuste de contas com a memória que Art guarda da mãe que se suicidou e do pai que lhe narra a história. Uma memória assombrada pelo "irmão-fantasma", Richieu, morto durante a guerra, uma memória de sobrevivência. A História de Um Sobrevivente (subtítulo da obra) não é apenas o relato literal de um sobrevivente de Auschwitz mas também a narrativa de uma família que se sobrevive. "Se não consigo entender a minha relação com o meu pai… como é que poderei entender Auschwitz?… ou o Holocausto?", angustia-se Art Spiegelman. 

A provocação é nossa. Cruzar num texto, este texto, as histórias de dois povos que se temem e se guerreiam nas palavras dos seus líderes. Histórias de opressão e morte, nos olhos e nos dias de duas famílias. Uma no Irão do xá e dos mulás. A outra judaica, na Polónia, dos dias de chumbo que antecedem a Segunda Guerra Mundial, e depois no calvário longo até à morte anunciada dos campos nazis. 

Houve quem só olhasse para Maus por este lado familiar, como se o Holocausto fosse apenas um pormenor para um desenhador ajustar contas edipianas. Como em Persépolis, Maus centra-se na família para colocar no centro da narrativa o que, só na aparência, passa em pano de fundo — as ditaduras iranianas, o Holocausto. O autor questiona-se, como Marjane o faz em Persépolis ("Era uma ocidental no Irão, uma iraniana no ocidente. Não tinha identidade. Já nem sabia porque continuava a viver." — e Marjane tenta suicidar-se e expõe perante nós, leitores, essas tentativas, esses fracassos: "Cheguei à conclusão que não era feita para morrer."). 

No caso de Artie sobrevive-se à culpa de um pai que sobreviveu muitas semanas, meses, anos, enfiado numa "sala" sem comida. "De certa forma ele assemelha-se à caricatura racista do velho judeu miserável", lamenta-se o filho perante a madrasta. Vladek, o pai, é inteligente no jogo do rato e do gato. E é disso que se trata em Maus ("rato" em alemão), a magistral metáfora que Art Spiegelman encontrou para nos trazer uma vez mais a narrativa do Holocausto. Os ratos são os judeus, os gatos os alemães — e há os porcos que são polacos. "Spiegelman transformou a Alemanha nazi numa monstruosa ratoeira", constatava a Associated Press sobre Maus (originalmente publicado em 1986). 

No caso de Spiegelman sobrevive-se ao peso dos seis milhões de judeus mortos pelos nazis. Sobre uma pilha de cadáveres, sentado à secretária, ele conta-nos como "o tempo voa". É uma página inquietante esta, a 41 do segundo volume de Maus: o pai morreu em 1982, ele desenha a página no final de fevereiro de 1987, ano em que ele e a mulher esperam um bebé. Pelo meio, vivemos outros meses: "Entre 16 de maio de 1944 e 24 de maio do mesmo ano, foram gaseados em Auschwitz mais de 100 000 judeus húngaros." Oito dias. "Em setembro de 1986, depois de 8 anos de trabalho, a primeira parte de Maus foi publicada. Foi um sucesso de público e de crítica. Estão a sair pelo menos quinze edições estrangeiras, Tive quatro importantes ofertas para adaptar o meu livro à televisão ou ao cinema. (Não quero.) Em maio de 1968 a minha mãe matou-se. (Não deixou nenhuma mensagem.) Ultimamente tenho-me sentido deprimido." 

Regressa-se a Persépolis. A mesma banalidade e o horror que irrompe no dia a dia. "Estava a falar com a minha criada. Contou-me que estão a recrutar crianças para a frente [de batalha]. É verdade?", pergunta a mãe de Marjane. E o pai que confirma. "É horrível, todos os dias vejo chegarem autocarros cheios de crianças. Vêm das zonas pobres, vê-se logo… primeiro convencem-nos de que a outra vida é melhor do que a Disneylândia, depois põem-nos em transe com aquelas canções... É de loucos! Hipnotizam-nos e atiram-nos para o campo de batalha. É uma autêntica carnificina." Vira-se a página: há corpos miúdos a voar, estilhaços, chaves ao peito. "As chaves do paraíso eram para os pobres, milhares de rapazes, a quem tinha sido prometida uma vida melhor, rebentaram nos campos de minas com as suas chaves à volta do pescoço." O paraíso não morava ali. 

O pai de Marjane é um herói para a filha pequena. Mas há momentos em que a criança duvida. "O meu pai não é herói — se tivesse estado preso…", quando confrontada com a história do pai de Laly, torturado na cadeia. "Aquelas histórias deram-me novas ideias para brincadeiras. 'Quem perder, é torturado'." 

Este jogo não é do gato e do rato, é de miúdos e miúdas que brincam com os dias que lhes apresentam sem futuro. É a mãe que a sossega depois de ficar "devastada" com o jogo de torcer braços, puxar bocas, engolir lixo, "As pessoas más são perigosas, mas perdoar-lhes também é. Não te preocupes, há justiça no mundo", diz-lhe a mãe. O consolo maior é outro, para Marjane: "Não sabia o que era a justiça. Agora que a revolução acabara de vez, abandonei o materialismo dialético da banda desenhada. O único lugar onde me sentia segura era nos braços do meu amigo." 

Deus aparece. Em Persépolis e um velho barbudo; mas diferente dos barbudos do regime. É um velho que Marjane abraça, acarinha, a quem pede ajuda, que repudia. Quando o seu tio Anoosh morre (e a morte de quem nos é querido, é o momento em que tudo vacila), o amigo pergunta-lhe: "Marji, que se passa?" A miúda chora e aponta-lhe o dedo: ''Cala-te! Sai da minha vida!!! Nunca mais te quere ver! Sai!" Abre-se a página: "E então, fiquei perdida, sem nenhum suporte… Haverá alguma coisa pior?" Há. Parece haver sempre quando se vive numa "sala sem comida". "Marji! Corre para a cave! Estamos a ser bombardeados!" Fecha-se a página: "Era o início da guerra." 

Em Auschwitz, Vladek arranja uns sapatos para o seu amigo. "Deus mandou-me uns sapatos por ti", agradece-lhe o amigo. Dias depois o amigo Mandelbaum desaparece, morto no trabalho forçado do campo de concentração, ou morto sem motivo por um qualquer soldado nazi. "Deus não aparecia por ali. Estávamos todos por nossa conta", resume Vladek. Parecem ressoar as palavras de Bento XVI, quando o Papa alemão tocou o solo deste campo, em maio de 2006. "Num lugar como este, as palavras falham. No fim, só pode haver um terrível silêncio, um silêncio que é um sentido grito dirigido a Deus: Porquê, Senhor, permaneceste em silêncio? Como pudeste tolerar isto? Onde estava Deus nesses dias? Porque esteve Ele silencioso? Como pôde Ele permitir esta matança sem fim, este triunfo do demónio?" 

Os demónios são outros para algum Islão dos dias de hoje, aquele que, mesmo de rosto minoritário, mais assusta e mais se faz ouvir no palco mediático. Um Alá de barbas que provocou rasto de escândalo. O diretor de uma estação de televisão tunisina foi acusado de "ataque aos valores sagrados", já depois da Primavera Árabe no país, por ter permitido a exibição do filme de animação que resultou do livro (curiosamente, esta longa-metragem chegou a Portugal antes do livro). Nabil Karoui, da Nessma TV, pediu desculpas por ter mostrado um filme cujo pecado maior é esse, ter "exibido" Deus. 

Os demónios só mais tarde assaltam a consciência. A inocência ficou perdida antes, nos véus que velavam os cabelos delas e nas barbas que cobriam os rostos deles. "De início, era um pouco difícil, mas, depressa aprendi a mentir." Ou já depois do início da Guerra Irão-Iraque (1980-1988), as meninas alinhadas no pátio da escola de véu e mão no peito. "Também tentei pensar na vida. Mas nem sempre era fácil: na escola alinhavam-nos duas vezes por dia para chorar os mortos de guerra. Tocavam marchas fúnebres e tínhamos de bater no peito." Ou como ouve Marjane da boca da mãe, "quando vem uma onda grande, baixa a cabeça e deixa-a passar!" — "é algo muito persa, a filosofia da resignação". 

Mais tarde, Marjane conhece a história da guerra contada pelos 'rapazes da sua idade, aqueles que também a fizeram. "— O quê? Mataste pessoas?" "— Sei lá. Quando disparas, não sabes exatamente onde acerta… E também, durante o combate, não tens tempo para divagações. É tudo uma questão de sobrevivência."

É mesmo uma questão de sobrevivência, recorda Vladek. Maus está repleto de exemplos de sobrevivência. Os polícias judaicos que espancam os seus. A economia de guerra em que tudo se transaciona. "Lá podia trocar as joias por marcos e os marcos por alimentos." Os passadores que traem os judeus, denunciando-os à Gestapo. Ou os amigos que ficaram para sempre fora da sala. "Não te preocupes com as tuas amigas. Elas não se preocupam contigo. Podes crer no que te digo. Só se preocupam em obter uma ração maior do que a tua", diz Vladek a Anja, a mulher, já em Auschwitz. 

Nas ruas de Teerão, que se erguem dos escombros da guerra dos anos 80 em muros de intolerância pública e liberdade doméstica — "o nosso comportamento em público e o nosso comportamento em privado estavam em polos opostos. Essa disparidade tomava-nos esquizofrénicos." — Marjane encontra um amigo de infância, que ficou deficiente na guerra ("quase morto"). Kia vive numa cadeira de rodas, mas ri-se, de si e de tudo. "A única maneira de suportar o insuportável é rirmo-nos dele", avalia Marjane no regresso a casa. 

A nona arte é muitas vezes esquecida como objeto de arte maior. Estes dois romances gráficos, de difícil definição, cruzam-se no retrato impiedoso da tortura, da guerra, da dor. Mesmo que Art ouça do pai, "ninguém pode perceber nada sobre Auschwitz". 

 

 

(1) Marjane Satrapi  nasceu em Rasht, no Irão, a 22 de novembro de 1969, e distinguiu-se com a obra Persépolis. Esta bisneta de um imperador persa vive hoje em Paris, França, onde é ilustradora, escritora de livros infantis e romancista gráfica. O filme baseado em Persépolis esteve nomeado para os Óscares, na categoria de Melhor Filme de Animação. Tem ilustrações publicadas no New York Times e na New Yorker.

(2) Art Spiegelman nasceu em Estocolmo, em 1948. Cofundador e editor de uma revista de banda desenhada Raw, este filho de judeus sobreviventes de Auschwitz casou com uma francesa, Françoise, de quem tem uma filha. Professor de artes visuais, tem trabalhos publicados no New York Times, Playboy e Village Voice.

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mon amour, la mort

por Miguel Marujo, em 29.01.17

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Emmanuelle Riva. 1927-2017. Em "Hiroxima, meu amor" é o rosto e o corpo de uma história impossível. Em "Amor" é o rosto e a memória da história possível. Dois filmes filmados com mais de meio século de diferença, em que ela nos ensinou a fazer a diferença. Morreu no sábado, dia 28.

E no mesmo dia 28 morreu John Hurt. O homem elefante, o ator imperador.

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Listen very carefully: morreu René

por Miguel Marujo, em 23.01.17

 

Morreu Gorden Kaye, o René de 'Allo 'Allo!. Ator tinha 75 anos e foi o principal rosto de uma das mais populares séries de humor da televisão britânica dos anos 1980.

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Sobre o futebol e outros suicídios do jornalismo

por Miguel Marujo, em 15.01.17

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(ou como jornalistas e católicos são tão parecidos)

António Marujo

 

"Hesitei muito sobre a minha participação no congresso e sobre a possibilidade de fazer ou não esta comunicação – já direi porquê. Desde há anos, foi crescendo o meu desencanto com algumas práticas do jornalismo. A 7 de Julho de 2014, esse desencanto ficou gravado como um espinho na carne: nesse dia, estive à porta do DN, numa manifestação contra os despedimentos que a então Controlinveste se preparava para fazer em vários meios do grupo. Nesse dia, ou na véspera, tinha ouvido na TSF (rádio do grupo, onde também haveria despedimentos) um noticiário que abriu com as declarações de um treinador de futebol sobre as suas expectativas acerca de um jogo que seria disputado dois dias depois. 

Dei comigo a pensar que estávamos ali alguns (não muitos, aliás...) a protestar contra mais uma decisão intolerável de uma administração, mas que muito do que está a acontecer com as redacções e o jornalismo é cada vez mais da nossa responsabilidade. 

Infelizmente, situações deste género repetem-se com demasiada frequência sobretudo nas televisões e em algumas rádios, dando um espaço desmesurado a coisas que, em si, não são notícia (é notícia ouvir “a minha equipa vai dar o melhor?” ou são notícia cuspidelas em balneários?...); promovemos programas de suposto debate que, exacerbando clubites já de si agudas, não debatem coisa nenhuma e só contribuem para degradar o nível do debate público; somos, enquanto jornalistas, veículo da publicidade dos patrocinadores de campeonatos ou clubes; fazemos entrevistas rápidas em cenários de marcas comerciais; designamos campeonatos com o nome dos patrocinadores... Há anos, o Parlamento quis impor restrições à livre circulação dos jornalistas em S. Bento; durante um mês, omitimos o noticiário parlamentar, em protesto contra essa ideia e os deputados recuaram. Pelos vistos, é mais fácil enfrentarmos o poder político que o poder do futebol...

Em síntese, o jornalismo desportivo audiovisual reflecte a tremenda inversão das prioridades noticiosas. Recordo-me de ouvir um camarada de televisão que esteve na Alemanha a acompanhar o Mundial de Futebol de 2006, contar que nem os jogos nem o próprio torneio eram notícia nos jornais televisivos daquele país; havia, isso sim, programas especiais, bem feitos e criativos, a propósito do futebol, mas ele não ocupava horas infindas de emissão até à náusea, sem nada para dizer.

Não quero generalizar e também não digo que o jornalismo é pior agora do que antes – não creio que alguma vez tenha havido uma idade de ouro do jornalismo. Mas, para os problemas de cada tempo, os jornalistas foram procurando respostas. E hoje não vejo que isso aconteça. Este congresso pode ser o início da inversão desta tendência e por isso estou muito grato a quem teve a ideia e o organizou.  

As situações que referia não são receita para o sucesso. Se fosse, não teríamos cada vez menos leitores e audiências.

Claro que não é só o futebol o problema. Matamos o jornalismo e o melhor de nós, também, pelo facto de não querermos saber, muitas vezes, da vida das pessoas. Saúde, educação ou justiça, por exemplo, interessam, na maior parte dos casos, mais pelas guerras políticas do que pelos efeitos para cidadãos e utentes. Suspiramos por equipas Soptlight mas não investigamos coisas básicas até ao fim: em Fevereiro de 2010, o então presidente do governo regional da Madeira decretou que havia 47 mortos nas inundações no Funchal. Bastaria perguntar aos vários padres da cidade quantos funerais tinham feito e contar a história de cada pessoa que morrera para perceber se aquele número é verdadeiro ou não. Aqui fica uma ideia para o próximo 20 de Fevereiro (e não cobro direitos de autor por ela, apesar de estar desempregado). Esquecemos a importância de contar profundamente as histórias da actualidade – o que se passou com a alegada agressão dos filhos do embaixador iraquiano, em que estivemos vários dias sem perceber importantes detalhes do sucedido, é exemplo disso.

Também foi muito triste assistir aos debates televisivos que acompanharam as manifestações de Paris, no Domingo seguinte aos atentados contra o Charlie Hebdo; todos os moderadores e convidados peroravam sobre segurança, islão, terrorismo, história e religião, manifestando uma profunda ignorância sobre o islão, a história ou questões religiosas. 

Suicidamo-nos enquanto profissionais quando misturamos informação e entretenimento; quando abdicamos de ser jornalistas e entregamos esse papel a comentadores que mais não são que políticos ou economistas com interesses a defender; quando destratamos a língua, adoptando o “economês”, o “politiquês” ou o inglês porque é mais sexy; quando nos encerramos cada vez mais numa bolha, sem conhecer a realidade de tantas vidas; quando as questões laborais passam a interessar quase só na sua vertente económica ou economicista; quando o emprego e o desemprego são estatísticas que se debitam sem rosto e sem nome; quando não somos críticos para com os verdadeiros poderes que hoje nos dominam e que ninguém elegeu – o financeiro e o económico. O que se passou, por exemplo, com a inconsequente divulgação dos Panama Papers, é revelador. Mas essa falta de espírito crítico revela-se na forma como se acolhe cada vez mais, no jornalismo, a legitimidade de banqueiros, agências de notação financeira e outras entidades que não são escrutinadas por ninguém e que ameaçam a sobrevivência da própria democracia enquanto escolha livre dos cidadãos sobre a forma como querem ser governados. 

Grave também é que nos preocupamos cada vez mais em ser os primeiros em dar a notícia, sacrificando a correcção e o rigor. O que se passou com os obituários do Presidente Mário Soares é exemplo disso. 

Esta não é, repito, a receita para o sucesso. Se fosse, não estaríamos a falar da crise do jornalismo. Falta-nos espírito autocrítico. Aliás, como eu tenho feito jornalismo religioso, vejo que muitos jornalistas e muitos católicos se parecem: num caso, a culpa é da internet, das novas tecnologias ou dos patrões; no outro, é a perda de valores e os novos padrões culturais. Nem uns nem outros procuram entender as razões profundas que levam ao afastamento das pessoas. 

Entre parêntesis: mais dificilmente eu estaria no desemprego se tratasse de futebol ou de economia. Mas como trato de religião (apesar de ter ajudado várias vezes o jornal onde trabalhei a aumentar as vendas com trabalhos que fiz), sinto-me às vezes como acontece muito com as mulheres em algumas áreas: tenho de provar duplamente a minha competência, sendo-me exigidas coisas que não o são noutros trabalhos. 

Também desvirtuámos o nosso papel: passámos a ter directores e editores que, em boa parte do tempo, abdicam dessas funções e da exigência de pensar o trabalho editorial, para passar a ser gestores do tempo, de orçamentos e de dinheiro; pior: em vez de assumirem o seu papel de jornalistas e se colocarem ao lado dos seus jornalistas e redacções, colocam-se, muitas vezes, contra eles, ao lado das administrações ( o caso Relvas no Público foi lamentável). 

Para quem está desempregado como eu, a conversa sobre a falta de dinheiro tem uma variante: pergunta-se se estamos disponíveis para fazer um trabalho e avisa-se logo, à cabeça, que não há muito dinheiro para pagar (forma suave de dizer que o que se paga roça por vezes a indignidade). Nunca quis ser rico, só quero que o meu trabalho seja dignamente pago. E são camaradas meus que me propõem estas coisas mas, a seguir, lamentam o estado a que chegámos. 

Hernest J. Gans escrevia em 2003, no livro Democracy and the news, que as pressões pelo lucro e as reduções orçamentais nos meios de comunicação “afectaram também o controlo dos jornalistas sobre as notícias e a sua autonomia profissional” na concepção das mesmas. Com isso, romperam-se os “antigos muros entre ‘igreja’ e ‘estado’” (sendo igreja, nesta leitura, o jornalismo, aquilo que para nós deveria ser sagrado, e correspondendo o estado às administrações), com os executivos do marketing e da publicidade a sugerirem aos directores e editores “que prestem mais atenção às necessidades comerciais das empresas”.

A 19 de Janeiro de 2016, Dillon Baker situava o fim dessa separação nos EUA em Setembro de 2015, quando Margaret Sullivan, editora do The New York Times, anunciou que um editor sénior do jornal iria trabalhar com a redacção para “analisar artigos e projetos” que poderiam ser patrocinados. Mas admitia que a separação vinha “morrendo lentamente há anos” e que a maioria dos editores/directores tem promovido a ideia de quebrar essa separação, alegando que uma melhor cooperação e mais transparência irá melhorar a paisagem editorial como um todo.

Sabendo das dificuldades de ser director e editor hoje em dia, o que gostaria era de ver directores e editores serem um pouco mais consequentes com o que dizem em público. 

Não ignoro que a crise de alguns pilares do jornalismo coincide com a profunda crise da democracia ocidental que também atravessamos. Como profissão e serviço essenciais à democracia, a minha preocupação com o futuro da profissão coincide com a preocupação que tenho em relação ao futuro da democracia. Faltou aqui, na minha perspectiva, a leitura de alguém que nos ajudasse a relacionar o que se passa no mundo com o que se passa na profissão. 

Dizia no início que hesitei muito sobre a minha participação no congresso e sobre a possibilidade de fazer ou não esta comunicação. Acabei por decidir participar pelo respeito que tenho ainda pelo trabalho de muitas e muitos camaradas que, contra ventos da moda, das imposições ou das pressões, continuam a tentar trazer-nos o melhor do jornalismo (incluindo pessoas das mais novas gerações). E também porque não desisti de ser jornalista e de acreditar que esta profissão é essencial à sociedade, quando é capaz de cumprir o seu papel. Por isso quis ajudar neste diagnóstico, com mais um contributo para um momento de que precisamos com urgência: o de parar para pensar. Espero sinceramente que este congresso confirme a minha expectativa de vir a ser o primeiro momento desse momento."

[intervenção do meu irmão, este sábado, 14, no 4º Congresso dos Jornalistas]

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Os dois sonetos de amor da hora triste

por Miguel Marujo, em 10.01.17

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I
Quando eu morrer - e hei-de morrer primeiro
do que tu - não deixes fechar-me os olhos
meu Amor. Continua a espelhar-te nos meus olhos
e ver-te-ás de corpo inteiro

como quando sorrias no meu colo.
E, ao veres que tenho toda a tua imagem
dentro de mim, se, então, tiveres coragem,
fecha-me os olhos com um beijo.

Eu, Marco Pólo,

farei a nebulosa travessia
e o rastro da minha barca
segui-lo-ás em pensamento. Abarca

nele o mar inteiro, o porto, a ria...
E, se me vires chegar ao cais dos céus,
ver-me-ás, debruçado sobre as ondas, para dizer-te adeus.

II
Não um adeus distante
ou um adeus de quem não torna cá,
nem espera tornar. Um adeus de até já,
como a alguém que se espera a cada instante.

Que eu voltarei. Eu sei que hei-de voltar
de novo para ti, no mesmo barco
sem remos e sem velas, pelo charco
azul do céu, cansado de lá estar.

E viverei em ti como um eflúvio, uma recordação.
E não quero que chores para fora,
Amor, que tu bem sabes que quem chora

assim, mente. E, se quiseres partir e o coração
to peça, diz-mo. A travessia é longa... Não atino
talvez na rota. Que nos importa, aos dois, ir sem destino.

Álvaro Feijó, lido na evocação de Mário Soares, pela voz de Maria Barroso

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"Peço desculpa, mas retiro-me."

por Miguel Marujo, em 07.01.17

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Morreu hoje Mário Soares. A notícia da morte aos 92 anos do antigo primeiro-ministro e antigo Presidente da República foi confirmada pelo Hospital da Cruz Vermelha, em Lisboa, depois de Mário Alberto Nobre Lopes Soares ter sido internado nessa instituição, já na madrugada de 13 de dezembro.

Nascido em Lisboa, a 7 de dezembro de 1924, Mário Soares era visto cada vez menos em público. A última vez tinha sido a 28 de setembro passado, numa homenagem do atual Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, à sua mulher, Maria Barroso, que morreu em 2015, a 7 de julho, no mesmo hospital onde estava agora internado o marido. Mário Alberto estava então de rosa amarela na mão e rosto enrugado do sorriso, amparado enquanto caminhava mas capaz de uma palmada mais vigorosa nas costas de Marcelo.

Um dos 27 que se juntou em abril de 1973 na cidade alemã de Bad Münstereifel para fundar o Partido Socialista teve uma vida intensa dedicada à política e à democracia. Advogado e professor, envolveu-se desde cedo em atividades de oposição à ditadura do Estado Novo. Preso 12 vezes, acabou deportado para São Tomé, em 1968, e depois exilou-se em França. A seguir ao 25 de Abril, regressou a Lisboa três dias depois, no que ficou conhecido como o "comboio da Liberdade", tendo a aguardá-lo uma multidão na estação de Santa Apolónia.

Desde então o Portugal democrático deve-lhe muito — é reconhecido como sendo o principal líder civil do campo da democracia na convulsão dos dias do PREC (Processo Revolucionário Em Curso) e, nestes 42 anos de liberdade no país, foi ministro dos Negócios Estrangeiros (1974-75) e primeiro-ministro por três vezes (1976-77, 1978 e 1983-85) e foi o obreiro da adesão de Portugal à CEE (a União Europeia de hoje) assinada em 1985.

Chegou a Presidente da República em 1986, como o primeiro Presidente "de todos os portugueses", como se afirmou nessa noite de 26 de janeiro em que foi eleito (numas eleições que dividiram o país ao meio). O seu primeiro mandato foi de tal modo consensual que seria reeleito com uns estratosféricos 70,35% (quase três milhões e meio de votos, resultado nunca alcançado por outro político em eleições nacionais).

Este largo consenso nunca escondeu o facto de Mário Soares não ser unânime. Houve um país à direita que nunca lhe perdoou o processo de descolonização nos anos de 1974-75, como se este processo não estivesse atrasado pela obstinação de uma ditadura. Houve outro país à esquerda que nunca lhe perdoou o 25 de novembro e um certo socialismo enfiado numa gaveta. Houve um país que lhe apontou uma relação nem sempre transparente com a coisa pública e outro país que nunca esqueceu um segundo mandato presidencial com o propósito de derrubar Cavaco Silva. Há um país que se lembra do último combate político permanente contra o governo de Passos Coelho — e em forma de letra todas as semanas nas páginas do DN — mas também da amizade que fez questão de manifestar até muito recentemente para com o ex-primeiro-ministro José Sócrates, a quem visitou na cadeia várias vezes.

Mário Soares deixou Belém em 1996, nas mãos de outro socialista, Jorge Sampaio, mas não se resignou a ser senador da República. Primeiro, ensaiou um percurso internacional, ainda em dezembro de 1995, com a presidência da Comissão Mundial Independente sobre os Oceanos, mas a política doméstica voltaria a impor-se no seu percurso. Foi o cabeça de lista socialista às eleições europeias de 1999 e ensaiou a candidatura a presidente do Parlamento Europeu, que perderia para Nicole Fontaine, a quem se dirigiria de forma deselegante.

Anos mais tarde, em 2005, voltou a colocar-se na corrida a Belém, apenas para impedir que o então secretário-geral do PS, José Sócrates, apoiasse Manuel Alegre, outro histórico socialista, com quem estava zangado. A zanga foi má conselheira: Soares acabou humilhado em terceiro lugar e Alegre em segundo não evitou a eleição à primeira volta de... Cavaco Silva. Os dois só fariam as pazes oito anos depois, por telefone, mediados pelo líder socialista de então, António José Seguro, depois de Soares ter estado internado com uma forte encefalite, em janeiro de 2013.

Com quem Mário Soares nunca ultrapassou ressentimentos foi com Francisco Salgado Zenha. Amigos de longa data, socialistas, os dois divergiram em 1980 sobre o apoio a dar ao presidente recandidato Ramalho Eanes - e entraram em rutura, mais tarde sublinhada na candidatura dos dois às presidenciais em 1986.

A 20 de fevereiro de 2015, em entrevista ao jornal i, Mário Soares dizia que não seria "um homem imortal" para a história. "Eu? Não! Eu sou um pobre homem que teve a sorte de ter tomado posições e de ter acertado, e de ter sido auxiliado por muita gente." Em 2004, nas páginas do DN, já dizia de si: "Não acredito na eternidade, na imortalidade, na alma. O que fica de mim é um rodapé num livro de história."

Em 2013, numa homenagem a Aquilino Ribeiro, logo depois da doença que o atirou para a cama do hospital durante nove dias, Mário Soares fez uma intervenção em que deliciou quem o ouvia com pequenas histórias em que a memória já o atraiçoava. No final, arrumou os seus óculos no bolso interior do sobretudo. "Peço desculpa, mas retiro-me."

 

[texto da minha autoria publicado hoje no DN online, com o título Morreu o primeiro Presidente "de todos os portugueses", foto Arquivo DN/Global Imagens]

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Then He smiled at me, pa rum pum pum pum

por Miguel Marujo, em 24.12.16

 

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Música de encantar serpentes

por Miguel Marujo, em 29.11.16

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Este é um dos meus discos de eleição da música portuguesa. Não é fácil, nem simples entrar nesta Plux Quba — Música para 70 Serpentes, de Nuno Canavarro, obra minimal e abstrata de 1988 (reeditada em CD pela editora de Jim O'Rourke em 1998). É o próprio texto deste "vídeo" que antecipa a dificuldade de entrar nos três primeiros temas e aconselha a passar para os 4'22. Talvez seja preferível, e no fim retomar de novo o fio à meada, incorporando os sons aparentemente desordenados em que, de quando em vez, se ouvem vozes de crianças (Bruma, no seu minuto e pouco, e a Untitled, que se lhe segue, são notáveis) ou uma reverberação masculina que nos remete para uma viagem sonora de sonhos. É isso: este álbum, a que volto tantas vezes, talvez seja uma banda sonora de sonhos.

 

 

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Ain't no cure for love

por Miguel Marujo, em 23.11.16

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Uma longa noite de memórias boas com os Cure

Há coisas que não se explicam ou são indizíveis: amores de verão, danças adolescentes ou canções que trauteamos pela vida fora. E há coisas que não se explicam, apenas se cantam e dançam, como esta terça-feira à noite em que os Cure nos apresentaram o nosso álbum de memórias, das coisas que não conseguimos explicar.

Foi uma noite assim. Os Cure abriram a porta a uma multidão de amigos, mostrando-lhes velhos álbuns de fotografias, demorando-se em episódios que muitos já não se lembram, mas cujas histórias se ouvem com regalo na voz de Robert Smith. Pelo meio outras canções eram cantadas por todos, mas seria já na hora final de concerto que a festa se faria num coro de coreografias espontâneas, de braços no ar e telemóveis a filmar.

Sem álbum novo desde 2008, sem êxitos reconhecidos desde os anos 1990, a banda britânica de Robert Smith levou ao Meo Arena, em Lisboa, um longo desfile de canções em que tocaram, nas quase três horas de concerto, grande parte da sua discografia, com direito a um tema inédito, Step Into the Light, que, desde maio, tem sido tocado nesta digressão.

Com 40 anos de história a ser celebrada, a banda tocou canções de 13 dos seus álbuns. A primeira metade do concerto de 16 canções (que abriu com Open e fechou com End, ambas do álbum Wish, de 1992) deixou de fora muitos dos êxitos que os Cure colecionaram nos anos 1980 e 90, guardando-se para os três encores quase tantas outras canções, numa sucessão de 15 temas que fizeram a delícia dos corpos e da memória.

Logo com o segundo tema, All I Want, da obra prima que é Kiss Me, Kiss Me, Kiss Me (1987), percebeu-se que o grupo trazia uma barragem sonora em que as guitarras tiravam o pó aos trejeitos mais pop de temas como Hot Hot Hot!!! ou The Caterpillar. Não facilitando na escolha dos temas, In Between Days e Pictures of You seriam exceções nessa primeira metade do concerto. E foi já a fechar o primeiro encore, com A Forest, opus maior de Seventeen Seconds (1980), num longo diálogo de guitarra, baixo, bateria e palmas que a festa se soltaria definitivamente no Meo Arena.

Veio então mais um "obrigado" de Robert Smith e Fascination Street, dessa pérola pop que é Disintegration (1989), para o vocalista da voz que se mantém impecável, de cabelo sempre despenteado e lábios muito pintados dar um ar da teatralidade que se lhe conhecia dos palcos e dos telediscos (era assim que se dizia no tempo destas memórias).

Freakshow antecedeu a imensa festa de Friday, I'm In Love, para uma festança sem parar: Just Like Heaven, Boys Don't Cry e (no último encore) Lullaby, Hot Hot Hot!!!, Close to me e Why Can't I Be You? a fechar, batia a meia-noite.

Ain't no cure for love, não há cura para este amor, como cantava Cohen. Por isso, o melhor é continuar a abrir álbuns, com memórias destas, sem ter pressa, sem estar sempre à espera de ouvir uma novidade. Quem precisa de novidades quando as recordações são tão boas?

[crónica publicada no DN online, fotos de Alexandre Antunes/Everything is New]

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I'm ready, my Lord.

por Miguel Marujo, em 11.11.16

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Hineni, que canta no seu álbum de despedida, é uma palavra hebraica que significa “aqui estou”, dita por Abraão a Deus. Este dia 10, Leonard cantou-a pela última vez.

 

 
Leonard Cohen, 1934-2016.

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Um americano em Lisboa

por Miguel Marujo, em 10.11.16

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Sozinho em palco, com um violino que soava a ukelélé ou cavaquinho e guitarra elétrica (e outras vezes era só violino), com uma guitarra elétrica que ia afinando entre acordes, uma voz irrepreensível e um assobio feito instrumento sem falhas, as luzes a sublinharem o equilíbrio de uns pés que regiam uma orquestra, somando camadas às camadas dos sons, e as mãos que resgatavam das cordas uma paleta de tons.

Andrew Bird disse da sua vergonha na manhã de Lisboa perante as notícias que lhe chegaram dos seus EUA e que caminhou para a raiva de quem descobre que hoje, no estrangeiro, são cantores e músicos de rock que representam a dignidade de uma nação. E atualizou uma canção que escreveu na reeleição de George Bush, agora que Trump ganhou o que impensável, Sic of Elephants. E arrepiou quando nos deu Estranha Forma de Vida, o fado imortalizado por Amália que entre o violino-que-também-parecia-guitarra-portuguesa e o seu belo assobio ganhou outro corpo. Não espanta o aplauso, não admira como Andrew gosta de Portugal — e como até seria uma boa opção para viver nestes tempos. "Mas devemos ficar e resistir." Como a magia que se soltou em palco no CCB.

 

 [foto Rui Pinheiro/TSF]

ARQUIVO de outros textos (no DN) de concertos:
Rodrigo Leão & Scott Matthew | Lloyd Cole | Caetano Veloso e Teresa Cristina

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DerHimmel.png

 um belo poema de infância

 Wim Wenders, Der Himmel über Berlin/Peter Handke, Lied Vom Kindsein.

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O acontecimento feito mestre

por Miguel Marujo, em 26.09.16

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Talvez o cenário desconcertante, na livraria Almedina, por entre tratados de direito e livros sobre as obrigações, ajudasse a concentrar no rito de iniciação ao livro As Boas Obras que a Susana Martins nos trouxe neste início de outono. Do paradoxo que é este livro tratou magistralmente (e com pitadas de humor) Guilherme d'Oliveira Martins, na apresentação do mesmo, e também a Susana ao meter-nos dentro das suas palavras. Se "o acontecimento será nosso mestre interior", na definição de Emmanuel Mounier, tão bem traduzida pelo presidente do CNC e vertida nos poemas da Susana, a mim, como me falham sempre as palavras, vou tantas vezes à música ouvir o que se pode dizer. Como nesta paixão adolescente, que se prolongou pela vida, que os Go-Betweens melhor cantaram, e na qual tropecei horas antes. "About this storm inside of me."

[a foto desfocada e em pequenino é para não deslustrar as presenças e só para tornar presente como o interior se mostra nos acontecimentos...]

 

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pobres dos ricos, neste país

por Miguel Marujo, em 20.09.16

"O desespero tomou conta
De toda a Quinta da Marinha
Em vez de lavagante
Comem lambujinha"

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A 26 de janeiro de 2016, líamos numa notícia que havia 240 muito ricos em Portugal: "Destes 240 contribuintes, segundo dados oficiais das Finanças, declararam ao Fisco, em 2014, 164,2 milhões de euros, o que indicia que terão mais património do que propriamente rendimentos." Talvez assim se percebam, lendo estes dados, como certos verbos se explicam e certas propostas se justificam. Ou, como dizia o ex-diretor-geral do Fisco na altura, os muito ricos pagam, afinal, uma fatura fiscal reduzida.

Já este sábado saiu outra notícia, como base num estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos, que curiosamente não vi ninguém da direita comentar: "Os números indicam que de 2009 a 2014 os rendimentos dos portugueses tiveram uma quebra de 12% (116 euros por mês), mas mostram também que os 10% mais pobres perderam 25% por cento do rendimento enquanto os 10% mais ricos apenas perderam 13%." Talvez esta justiça fiscal beba mais da doutrina social da Igreja que aquela que tivemos nos anos do Governo da troika (2011-2015).

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