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Sobre o futebol e outros suicídios do jornalismo

por Miguel Marujo, em 15.01.17

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(ou como jornalistas e católicos são tão parecidos)

António Marujo

 

"Hesitei muito sobre a minha participação no congresso e sobre a possibilidade de fazer ou não esta comunicação – já direi porquê. Desde há anos, foi crescendo o meu desencanto com algumas práticas do jornalismo. A 7 de Julho de 2014, esse desencanto ficou gravado como um espinho na carne: nesse dia, estive à porta do DN, numa manifestação contra os despedimentos que a então Controlinveste se preparava para fazer em vários meios do grupo. Nesse dia, ou na véspera, tinha ouvido na TSF (rádio do grupo, onde também haveria despedimentos) um noticiário que abriu com as declarações de um treinador de futebol sobre as suas expectativas acerca de um jogo que seria disputado dois dias depois. 

Dei comigo a pensar que estávamos ali alguns (não muitos, aliás...) a protestar contra mais uma decisão intolerável de uma administração, mas que muito do que está a acontecer com as redacções e o jornalismo é cada vez mais da nossa responsabilidade. 

Infelizmente, situações deste género repetem-se com demasiada frequência sobretudo nas televisões e em algumas rádios, dando um espaço desmesurado a coisas que, em si, não são notícia (é notícia ouvir “a minha equipa vai dar o melhor?” ou são notícia cuspidelas em balneários?...); promovemos programas de suposto debate que, exacerbando clubites já de si agudas, não debatem coisa nenhuma e só contribuem para degradar o nível do debate público; somos, enquanto jornalistas, veículo da publicidade dos patrocinadores de campeonatos ou clubes; fazemos entrevistas rápidas em cenários de marcas comerciais; designamos campeonatos com o nome dos patrocinadores... Há anos, o Parlamento quis impor restrições à livre circulação dos jornalistas em S. Bento; durante um mês, omitimos o noticiário parlamentar, em protesto contra essa ideia e os deputados recuaram. Pelos vistos, é mais fácil enfrentarmos o poder político que o poder do futebol...

Em síntese, o jornalismo desportivo audiovisual reflecte a tremenda inversão das prioridades noticiosas. Recordo-me de ouvir um camarada de televisão que esteve na Alemanha a acompanhar o Mundial de Futebol de 2006, contar que nem os jogos nem o próprio torneio eram notícia nos jornais televisivos daquele país; havia, isso sim, programas especiais, bem feitos e criativos, a propósito do futebol, mas ele não ocupava horas infindas de emissão até à náusea, sem nada para dizer.

Não quero generalizar e também não digo que o jornalismo é pior agora do que antes – não creio que alguma vez tenha havido uma idade de ouro do jornalismo. Mas, para os problemas de cada tempo, os jornalistas foram procurando respostas. E hoje não vejo que isso aconteça. Este congresso pode ser o início da inversão desta tendência e por isso estou muito grato a quem teve a ideia e o organizou.  

As situações que referia não são receita para o sucesso. Se fosse, não teríamos cada vez menos leitores e audiências.

Claro que não é só o futebol o problema. Matamos o jornalismo e o melhor de nós, também, pelo facto de não querermos saber, muitas vezes, da vida das pessoas. Saúde, educação ou justiça, por exemplo, interessam, na maior parte dos casos, mais pelas guerras políticas do que pelos efeitos para cidadãos e utentes. Suspiramos por equipas Soptlight mas não investigamos coisas básicas até ao fim: em Fevereiro de 2010, o então presidente do governo regional da Madeira decretou que havia 47 mortos nas inundações no Funchal. Bastaria perguntar aos vários padres da cidade quantos funerais tinham feito e contar a história de cada pessoa que morrera para perceber se aquele número é verdadeiro ou não. Aqui fica uma ideia para o próximo 20 de Fevereiro (e não cobro direitos de autor por ela, apesar de estar desempregado). Esquecemos a importância de contar profundamente as histórias da actualidade – o que se passou com a alegada agressão dos filhos do embaixador iraquiano, em que estivemos vários dias sem perceber importantes detalhes do sucedido, é exemplo disso.

Também foi muito triste assistir aos debates televisivos que acompanharam as manifestações de Paris, no Domingo seguinte aos atentados contra o Charlie Hebdo; todos os moderadores e convidados peroravam sobre segurança, islão, terrorismo, história e religião, manifestando uma profunda ignorância sobre o islão, a história ou questões religiosas. 

Suicidamo-nos enquanto profissionais quando misturamos informação e entretenimento; quando abdicamos de ser jornalistas e entregamos esse papel a comentadores que mais não são que políticos ou economistas com interesses a defender; quando destratamos a língua, adoptando o “economês”, o “politiquês” ou o inglês porque é mais sexy; quando nos encerramos cada vez mais numa bolha, sem conhecer a realidade de tantas vidas; quando as questões laborais passam a interessar quase só na sua vertente económica ou economicista; quando o emprego e o desemprego são estatísticas que se debitam sem rosto e sem nome; quando não somos críticos para com os verdadeiros poderes que hoje nos dominam e que ninguém elegeu – o financeiro e o económico. O que se passou, por exemplo, com a inconsequente divulgação dos Panama Papers, é revelador. Mas essa falta de espírito crítico revela-se na forma como se acolhe cada vez mais, no jornalismo, a legitimidade de banqueiros, agências de notação financeira e outras entidades que não são escrutinadas por ninguém e que ameaçam a sobrevivência da própria democracia enquanto escolha livre dos cidadãos sobre a forma como querem ser governados. 

Grave também é que nos preocupamos cada vez mais em ser os primeiros em dar a notícia, sacrificando a correcção e o rigor. O que se passou com os obituários do Presidente Mário Soares é exemplo disso. 

Esta não é, repito, a receita para o sucesso. Se fosse, não estaríamos a falar da crise do jornalismo. Falta-nos espírito autocrítico. Aliás, como eu tenho feito jornalismo religioso, vejo que muitos jornalistas e muitos católicos se parecem: num caso, a culpa é da internet, das novas tecnologias ou dos patrões; no outro, é a perda de valores e os novos padrões culturais. Nem uns nem outros procuram entender as razões profundas que levam ao afastamento das pessoas. 

Entre parêntesis: mais dificilmente eu estaria no desemprego se tratasse de futebol ou de economia. Mas como trato de religião (apesar de ter ajudado várias vezes o jornal onde trabalhei a aumentar as vendas com trabalhos que fiz), sinto-me às vezes como acontece muito com as mulheres em algumas áreas: tenho de provar duplamente a minha competência, sendo-me exigidas coisas que não o são noutros trabalhos. 

Também desvirtuámos o nosso papel: passámos a ter directores e editores que, em boa parte do tempo, abdicam dessas funções e da exigência de pensar o trabalho editorial, para passar a ser gestores do tempo, de orçamentos e de dinheiro; pior: em vez de assumirem o seu papel de jornalistas e se colocarem ao lado dos seus jornalistas e redacções, colocam-se, muitas vezes, contra eles, ao lado das administrações ( o caso Relvas no Público foi lamentável). 

Para quem está desempregado como eu, a conversa sobre a falta de dinheiro tem uma variante: pergunta-se se estamos disponíveis para fazer um trabalho e avisa-se logo, à cabeça, que não há muito dinheiro para pagar (forma suave de dizer que o que se paga roça por vezes a indignidade). Nunca quis ser rico, só quero que o meu trabalho seja dignamente pago. E são camaradas meus que me propõem estas coisas mas, a seguir, lamentam o estado a que chegámos. 

Hernest J. Gans escrevia em 2003, no livro Democracy and the news, que as pressões pelo lucro e as reduções orçamentais nos meios de comunicação “afectaram também o controlo dos jornalistas sobre as notícias e a sua autonomia profissional” na concepção das mesmas. Com isso, romperam-se os “antigos muros entre ‘igreja’ e ‘estado’” (sendo igreja, nesta leitura, o jornalismo, aquilo que para nós deveria ser sagrado, e correspondendo o estado às administrações), com os executivos do marketing e da publicidade a sugerirem aos directores e editores “que prestem mais atenção às necessidades comerciais das empresas”.

A 19 de Janeiro de 2016, Dillon Baker situava o fim dessa separação nos EUA em Setembro de 2015, quando Margaret Sullivan, editora do The New York Times, anunciou que um editor sénior do jornal iria trabalhar com a redacção para “analisar artigos e projetos” que poderiam ser patrocinados. Mas admitia que a separação vinha “morrendo lentamente há anos” e que a maioria dos editores/directores tem promovido a ideia de quebrar essa separação, alegando que uma melhor cooperação e mais transparência irá melhorar a paisagem editorial como um todo.

Sabendo das dificuldades de ser director e editor hoje em dia, o que gostaria era de ver directores e editores serem um pouco mais consequentes com o que dizem em público. 

Não ignoro que a crise de alguns pilares do jornalismo coincide com a profunda crise da democracia ocidental que também atravessamos. Como profissão e serviço essenciais à democracia, a minha preocupação com o futuro da profissão coincide com a preocupação que tenho em relação ao futuro da democracia. Faltou aqui, na minha perspectiva, a leitura de alguém que nos ajudasse a relacionar o que se passa no mundo com o que se passa na profissão. 

Dizia no início que hesitei muito sobre a minha participação no congresso e sobre a possibilidade de fazer ou não esta comunicação. Acabei por decidir participar pelo respeito que tenho ainda pelo trabalho de muitas e muitos camaradas que, contra ventos da moda, das imposições ou das pressões, continuam a tentar trazer-nos o melhor do jornalismo (incluindo pessoas das mais novas gerações). E também porque não desisti de ser jornalista e de acreditar que esta profissão é essencial à sociedade, quando é capaz de cumprir o seu papel. Por isso quis ajudar neste diagnóstico, com mais um contributo para um momento de que precisamos com urgência: o de parar para pensar. Espero sinceramente que este congresso confirme a minha expectativa de vir a ser o primeiro momento desse momento."

[intervenção do meu irmão, este sábado, 14, no 4º Congresso dos Jornalistas]

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Os dois sonetos de amor da hora triste

por Miguel Marujo, em 10.01.17

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I
Quando eu morrer - e hei-de morrer primeiro
do que tu - não deixes fechar-me os olhos
meu Amor. Continua a espelhar-te nos meus olhos
e ver-te-ás de corpo inteiro

como quando sorrias no meu colo.
E, ao veres que tenho toda a tua imagem
dentro de mim, se, então, tiveres coragem,
fecha-me os olhos com um beijo.

Eu, Marco Pólo,

farei a nebulosa travessia
e o rastro da minha barca
segui-lo-ás em pensamento. Abarca

nele o mar inteiro, o porto, a ria...
E, se me vires chegar ao cais dos céus,
ver-me-ás, debruçado sobre as ondas, para dizer-te adeus.

II
Não um adeus distante
ou um adeus de quem não torna cá,
nem espera tornar. Um adeus de até já,
como a alguém que se espera a cada instante.

Que eu voltarei. Eu sei que hei-de voltar
de novo para ti, no mesmo barco
sem remos e sem velas, pelo charco
azul do céu, cansado de lá estar.

E viverei em ti como um eflúvio, uma recordação.
E não quero que chores para fora,
Amor, que tu bem sabes que quem chora

assim, mente. E, se quiseres partir e o coração
to peça, diz-mo. A travessia é longa... Não atino
talvez na rota. Que nos importa, aos dois, ir sem destino.

Álvaro Feijó, lido na evocação de Mário Soares, pela voz de Maria Barroso

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"Peço desculpa, mas retiro-me."

por Miguel Marujo, em 07.01.17

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Morreu hoje Mário Soares. A notícia da morte aos 92 anos do antigo primeiro-ministro e antigo Presidente da República foi confirmada pelo Hospital da Cruz Vermelha, em Lisboa, depois de Mário Alberto Nobre Lopes Soares ter sido internado nessa instituição, já na madrugada de 13 de dezembro.

Nascido em Lisboa, a 7 de dezembro de 1924, Mário Soares era visto cada vez menos em público. A última vez tinha sido a 28 de setembro passado, numa homenagem do atual Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, à sua mulher, Maria Barroso, que morreu em 2015, a 7 de julho, no mesmo hospital onde estava agora internado o marido. Mário Alberto estava então de rosa amarela na mão e rosto enrugado do sorriso, amparado enquanto caminhava mas capaz de uma palmada mais vigorosa nas costas de Marcelo.

Um dos 27 que se juntou em abril de 1973 na cidade alemã de Bad Münstereifel para fundar o Partido Socialista teve uma vida intensa dedicada à política e à democracia. Advogado e professor, envolveu-se desde cedo em atividades de oposição à ditadura do Estado Novo. Preso 12 vezes, acabou deportado para São Tomé, em 1968, e depois exilou-se em França. A seguir ao 25 de Abril, regressou a Lisboa três dias depois, no que ficou conhecido como o "comboio da Liberdade", tendo a aguardá-lo uma multidão na estação de Santa Apolónia.

Desde então o Portugal democrático deve-lhe muito — é reconhecido como sendo o principal líder civil do campo da democracia na convulsão dos dias do PREC (Processo Revolucionário Em Curso) e, nestes 42 anos de liberdade no país, foi ministro dos Negócios Estrangeiros (1974-75) e primeiro-ministro por três vezes (1976-77, 1978 e 1983-85) e foi o obreiro da adesão de Portugal à CEE (a União Europeia de hoje) assinada em 1985.

Chegou a Presidente da República em 1986, como o primeiro Presidente "de todos os portugueses", como se afirmou nessa noite de 26 de janeiro em que foi eleito (numas eleições que dividiram o país ao meio). O seu primeiro mandato foi de tal modo consensual que seria reeleito com uns estratosféricos 70,35% (quase três milhões e meio de votos, resultado nunca alcançado por outro político em eleições nacionais).

Este largo consenso nunca escondeu o facto de Mário Soares não ser unânime. Houve um país à direita que nunca lhe perdoou o processo de descolonização nos anos de 1974-75, como se este processo não estivesse atrasado pela obstinação de uma ditadura. Houve outro país à esquerda que nunca lhe perdoou o 25 de novembro e um certo socialismo enfiado numa gaveta. Houve um país que lhe apontou uma relação nem sempre transparente com a coisa pública e outro país que nunca esqueceu um segundo mandato presidencial com o propósito de derrubar Cavaco Silva. Há um país que se lembra do último combate político permanente contra o governo de Passos Coelho — e em forma de letra todas as semanas nas páginas do DN — mas também da amizade que fez questão de manifestar até muito recentemente para com o ex-primeiro-ministro José Sócrates, a quem visitou na cadeia várias vezes.

Mário Soares deixou Belém em 1996, nas mãos de outro socialista, Jorge Sampaio, mas não se resignou a ser senador da República. Primeiro, ensaiou um percurso internacional, ainda em dezembro de 1995, com a presidência da Comissão Mundial Independente sobre os Oceanos, mas a política doméstica voltaria a impor-se no seu percurso. Foi o cabeça de lista socialista às eleições europeias de 1999 e ensaiou a candidatura a presidente do Parlamento Europeu, que perderia para Nicole Fontaine, a quem se dirigiria de forma deselegante.

Anos mais tarde, em 2005, voltou a colocar-se na corrida a Belém, apenas para impedir que o então secretário-geral do PS, José Sócrates, apoiasse Manuel Alegre, outro histórico socialista, com quem estava zangado. A zanga foi má conselheira: Soares acabou humilhado em terceiro lugar e Alegre em segundo não evitou a eleição à primeira volta de... Cavaco Silva. Os dois só fariam as pazes oito anos depois, por telefone, mediados pelo líder socialista de então, António José Seguro, depois de Soares ter estado internado com uma forte encefalite, em janeiro de 2013.

Com quem Mário Soares nunca ultrapassou ressentimentos foi com Francisco Salgado Zenha. Amigos de longa data, socialistas, os dois divergiram em 1980 sobre o apoio a dar ao presidente recandidato Ramalho Eanes - e entraram em rutura, mais tarde sublinhada na candidatura dos dois às presidenciais em 1986.

A 20 de fevereiro de 2015, em entrevista ao jornal i, Mário Soares dizia que não seria "um homem imortal" para a história. "Eu? Não! Eu sou um pobre homem que teve a sorte de ter tomado posições e de ter acertado, e de ter sido auxiliado por muita gente." Em 2004, nas páginas do DN, já dizia de si: "Não acredito na eternidade, na imortalidade, na alma. O que fica de mim é um rodapé num livro de história."

Em 2013, numa homenagem a Aquilino Ribeiro, logo depois da doença que o atirou para a cama do hospital durante nove dias, Mário Soares fez uma intervenção em que deliciou quem o ouvia com pequenas histórias em que a memória já o atraiçoava. No final, arrumou os seus óculos no bolso interior do sobretudo. "Peço desculpa, mas retiro-me."

 

[texto da minha autoria publicado hoje no DN online, com o título Morreu o primeiro Presidente "de todos os portugueses", foto Arquivo DN/Global Imagens]

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Then He smiled at me, pa rum pum pum pum

por Miguel Marujo, em 24.12.16

 

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Música de encantar serpentes

por Miguel Marujo, em 29.11.16

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Este é um dos meus discos de eleição da música portuguesa. Não é fácil, nem simples entrar nesta Plux Quba — Música para 70 Serpentes, de Nuno Canavarro, obra minimal e abstrata de 1988 (reeditada em CD pela editora de Jim O'Rourke em 1998). É o próprio texto deste "vídeo" que antecipa a dificuldade de entrar nos três primeiros temas e aconselha a passar para os 4'22. Talvez seja preferível, e no fim retomar de novo o fio à meada, incorporando os sons aparentemente desordenados em que, de quando em vez, se ouvem vozes de crianças (Bruma, no seu minuto e pouco, e a Untitled, que se lhe segue, são notáveis) ou uma reverberação masculina que nos remete para uma viagem sonora de sonhos. É isso: este álbum, a que volto tantas vezes, talvez seja uma banda sonora de sonhos.

 

 

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Ain't no cure for love

por Miguel Marujo, em 23.11.16

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Uma longa noite de memórias boas com os Cure

Há coisas que não se explicam ou são indizíveis: amores de verão, danças adolescentes ou canções que trauteamos pela vida fora. E há coisas que não se explicam, apenas se cantam e dançam, como esta terça-feira à noite em que os Cure nos apresentaram o nosso álbum de memórias, das coisas que não conseguimos explicar.

Foi uma noite assim. Os Cure abriram a porta a uma multidão de amigos, mostrando-lhes velhos álbuns de fotografias, demorando-se em episódios que muitos já não se lembram, mas cujas histórias se ouvem com regalo na voz de Robert Smith. Pelo meio outras canções eram cantadas por todos, mas seria já na hora final de concerto que a festa se faria num coro de coreografias espontâneas, de braços no ar e telemóveis a filmar.

Sem álbum novo desde 2008, sem êxitos reconhecidos desde os anos 1990, a banda britânica de Robert Smith levou ao Meo Arena, em Lisboa, um longo desfile de canções em que tocaram, nas quase três horas de concerto, grande parte da sua discografia, com direito a um tema inédito, Step Into the Light, que, desde maio, tem sido tocado nesta digressão.

Com 40 anos de história a ser celebrada, a banda tocou canções de 13 dos seus álbuns. A primeira metade do concerto de 16 canções (que abriu com Open e fechou com End, ambas do álbum Wish, de 1992) deixou de fora muitos dos êxitos que os Cure colecionaram nos anos 1980 e 90, guardando-se para os três encores quase tantas outras canções, numa sucessão de 15 temas que fizeram a delícia dos corpos e da memória.

Logo com o segundo tema, All I Want, da obra prima que é Kiss Me, Kiss Me, Kiss Me (1987), percebeu-se que o grupo trazia uma barragem sonora em que as guitarras tiravam o pó aos trejeitos mais pop de temas como Hot Hot Hot!!! ou The Caterpillar. Não facilitando na escolha dos temas, In Between Days e Pictures of You seriam exceções nessa primeira metade do concerto. E foi já a fechar o primeiro encore, com A Forest, opus maior de Seventeen Seconds (1980), num longo diálogo de guitarra, baixo, bateria e palmas que a festa se soltaria definitivamente no Meo Arena.

Veio então mais um "obrigado" de Robert Smith e Fascination Street, dessa pérola pop que é Disintegration (1989), para o vocalista da voz que se mantém impecável, de cabelo sempre despenteado e lábios muito pintados dar um ar da teatralidade que se lhe conhecia dos palcos e dos telediscos (era assim que se dizia no tempo destas memórias).

Freakshow antecedeu a imensa festa de Friday, I'm In Love, para uma festança sem parar: Just Like Heaven, Boys Don't Cry e (no último encore) Lullaby, Hot Hot Hot!!!, Close to me e Why Can't I Be You? a fechar, batia a meia-noite.

Ain't no cure for love, não há cura para este amor, como cantava Cohen. Por isso, o melhor é continuar a abrir álbuns, com memórias destas, sem ter pressa, sem estar sempre à espera de ouvir uma novidade. Quem precisa de novidades quando as recordações são tão boas?

[crónica publicada no DN online, fotos de Alexandre Antunes/Everything is New]

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I'm ready, my Lord.

por Miguel Marujo, em 11.11.16

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Hineni, que canta no seu álbum de despedida, é uma palavra hebraica que significa “aqui estou”, dita por Abraão a Deus. Este dia 10, Leonard cantou-a pela última vez.

 

 
Leonard Cohen, 1934-2016.

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Um americano em Lisboa

por Miguel Marujo, em 10.11.16

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Sozinho em palco, com um violino que soava a ukelélé ou cavaquinho e guitarra elétrica (e outras vezes era só violino), com uma guitarra elétrica que ia afinando entre acordes, uma voz irrepreensível e um assobio feito instrumento sem falhas, as luzes a sublinharem o equilíbrio de uns pés que regiam uma orquestra, somando camadas às camadas dos sons, e as mãos que resgatavam das cordas uma paleta de tons.

Andrew Bird disse da sua vergonha na manhã de Lisboa perante as notícias que lhe chegaram dos seus EUA e que caminhou para a raiva de quem descobre que hoje, no estrangeiro, são cantores e músicos de rock que representam a dignidade de uma nação. E atualizou uma canção que escreveu na reeleição de George Bush, agora que Trump ganhou o que impensável, Sic of Elephants. E arrepiou quando nos deu Estranha Forma de Vida, o fado imortalizado por Amália que entre o violino-que-também-parecia-guitarra-portuguesa e o seu belo assobio ganhou outro corpo. Não espanta o aplauso, não admira como Andrew gosta de Portugal — e como até seria uma boa opção para viver nestes tempos. "Mas devemos ficar e resistir." Como a magia que se soltou em palco no CCB.

 

 [foto Rui Pinheiro/TSF]

ARQUIVO de outros textos (no DN) de concertos:
Rodrigo Leão & Scott Matthew | Lloyd Cole | Caetano Veloso e Teresa Cristina

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 um belo poema de infância

 Wim Wenders, Der Himmel über Berlin/Peter Handke, Lied Vom Kindsein.

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O acontecimento feito mestre

por Miguel Marujo, em 26.09.16

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Talvez o cenário desconcertante, na livraria Almedina, por entre tratados de direito e livros sobre as obrigações, ajudasse a concentrar no rito de iniciação ao livro As Boas Obras que a Susana Martins nos trouxe neste início de outono. Do paradoxo que é este livro tratou magistralmente (e com pitadas de humor) Guilherme d'Oliveira Martins, na apresentação do mesmo, e também a Susana ao meter-nos dentro das suas palavras. Se "o acontecimento será nosso mestre interior", na definição de Emmanuel Mounier, tão bem traduzida pelo presidente do CNC e vertida nos poemas da Susana, a mim, como me falham sempre as palavras, vou tantas vezes à música ouvir o que se pode dizer. Como nesta paixão adolescente, que se prolongou pela vida, que os Go-Betweens melhor cantaram, e na qual tropecei horas antes. "About this storm inside of me."

[a foto desfocada e em pequenino é para não deslustrar as presenças e só para tornar presente como o interior se mostra nos acontecimentos...]

 

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pobres dos ricos, neste país

por Miguel Marujo, em 20.09.16

"O desespero tomou conta
De toda a Quinta da Marinha
Em vez de lavagante
Comem lambujinha"

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A 26 de janeiro de 2016, líamos numa notícia que havia 240 muito ricos em Portugal: "Destes 240 contribuintes, segundo dados oficiais das Finanças, declararam ao Fisco, em 2014, 164,2 milhões de euros, o que indicia que terão mais património do que propriamente rendimentos." Talvez assim se percebam, lendo estes dados, como certos verbos se explicam e certas propostas se justificam. Ou, como dizia o ex-diretor-geral do Fisco na altura, os muito ricos pagam, afinal, uma fatura fiscal reduzida.

Já este sábado saiu outra notícia, como base num estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos, que curiosamente não vi ninguém da direita comentar: "Os números indicam que de 2009 a 2014 os rendimentos dos portugueses tiveram uma quebra de 12% (116 euros por mês), mas mostram também que os 10% mais pobres perderam 25% por cento do rendimento enquanto os 10% mais ricos apenas perderam 13%." Talvez esta justiça fiscal beba mais da doutrina social da Igreja que aquela que tivemos nos anos do Governo da troika (2011-2015).

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Lloyd Cole e os amigos em Portugal

por Miguel Marujo, em 16.09.16

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foto Nuno Pinto Fernandes/Global Imagens

 

Há uns 20 anos, um britânico descia ao Cais do Sodré, quando o Cais do Sodré não era o que é hoje, e sentava-se no British Bar a beber cerveja. O tipo atrás do balcão que servia o rapaz nunca sorria - e, com o passar dos anos, mesmo depois de terem ficado amigos continuou sem sorrir ao rapaz. “Gosto disso”, conta o britânico, hoje já menos rapaz - já tem 55 anos.

Lloyd Cole é esse rapaz e vive hoje as angústias próprias de quem começou a ter de usar óculos para afinar a guitarra. O britânico entra no palco, garrafa de água na mão, um pano preto com que vai limpando o braço e as cordas do instrumento e um caderno preto, onde alinha as canções deste concerto, the classic songbook, e aproveita as pausas entre as canções para ir debitando, numa fina ironia e humor, pequenas histórias das suas passagens por Lisboa com que pontua cada corda afinada.

Na segunda parte do concerto terá a seu lado o filho, William, 22 anos, “e como imaginam levou muitos anos” até poder ter alguém tão parecido como ele a tocar a seu lado. O mimetismo repete-se: Will também bebe a sua garrafa de água entre as canções, limpa o braço da guitarra e o cabelo solto e grande a cair nos olhos remete-nos como num flashback a preto e branco para o rapaz que, em 1983, lançou o single Perfect Skin. É um rapaz da sua idade, diz o pai, que revela que o filho aproveitou uns dias de férias em Lisboa para se deitar às 5, 6 da manhã, enquanto Lloyd já dormia. “Não me posso queixar, também fazia isso há uns 20 anos, quando ia para o Bairro Alto.”

Sente-se que Lloyd retribui a devoção que os seus amigos em Portugal lhe demonstram. É o único sítio onde o cumprimentam na rua, “Mr. Lloyd”. Gosta de Portugal, ele que vem cá com frequência e por estes dias se apresenta em quatro palcos (começou na quarta em Aveiro, atuou na quinta-feira à noite no CCB em Lisboa, hoje à noite está na Guarda e amanhã vem no Porto) em formato acústico recuperando o seu livro clássico de canções de 1983 a 1996.

Classic Songbook é pois tudo aquilo que se ouviu no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém: de Patience, que abriu o concerto, a Forest Fire, com que fechou já no final do encore, Lloyd Cole despe as canções ao osso (primeiro a solo, depois acompanhado de William) e apresenta-as em versões em que a voz só se faz acompanhar de guitarra.

Todas as palavras - e que poeta é Lloyd Cole! - ganham em ser escutadas quase sem mais, ainda para mais perante um público que as reconhece muitas vezes logo aos primeiros versos mas que as bebe num silêncio cúmplice de quem viveu afetos e desamores adolescentes ao som de My Bag, Jennifer She Said, Perfect Skin ou Are You Ready To Be Heartbroken?

Lloyd Cole não canta só canções deprimentes, lembra o próprio. Mas a depressão não é para ali chamada: o humor pontua cada afinação das guitarras nas pausas entre canções e a noite é de nostalgia, sem qualquer receio, numa revisitação cheia de gosto, em que a voz continua cristalina, e as guitarras substituem sem falhas o som pop dos Commotions. O rapaz que sabe dizer duas palavras em português (“Super” e “Bock”, e ainda acrescenta “Sagres”) deixou o palco perante um público rendido. Os seus amigos em Portugal.


[versão revista e aumentada da crónica original publicada no DN]

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agarrar-nos à vida depois da morte

por Miguel Marujo, em 11.09.16

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Há um espanto permanente em cada uma das canções de Skeleton Tree, um sobressalto indizível (naquele que é já, para mim, o melhor álbum deste meu ano), seja em Jesus Alone ou I Need You, como em Magneto ou Girl In Amber, mas depois, quando entramos no penúltimo sopro deste novo álbum de Nick Cave and The Bad Seeds, Distant Sky, somos arrebatados por uma polifonia de afetos, a duas vozes (à de Cave junta-se a da soprano dinamarquesa Else Torp), num diálogo de companheiros feridos. E em que a vida assoma vestida de esperança aos nossos ouvidos...
«Let us go now, my only companion
Set out for the distant skies
Soon the children will be rising, will be rising
This is not for our eyes»

 

[o título deste post parte do título do texto de Vítor Belanciano para o Público]

 

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[foto de Gerardo Santos/Global Imagens]

 

O pano subiu e Caetano fez mesmo as honras da casa: apresentou Teresa, como promete esta digressão, que ontem chegou ao Coliseu dos Recreios, em Lisboa, onde hoje regressa para novo concerto. "Esse espetáculo resume-se a uma cantora, um violonista e um compositor" para melhor mostrar a essência e "a profundidade" do samba, disse o baiano referindo-se a Teresa Cristina, que vem da Lapa, no Rio de Janeiro, para cantar Cartola, o compositor sambista da Mangueira, com a companhia de Carlinhos Sete Cordas no violão.

A carioca disse um "boa noite" quase sumido, ela que já tinha confessado a sua timidez ao DN, e atacou Chega de Demanda ou O Mundo é um Moinho ou Corra e Olhe o Céu, para melhor explicar porque "o samba às vezes engana muito a gente". A dificuldade é mesmo a que canção nos agarrarmos.

Tingindo os sons de Cartola, sobrava o violão que enchia o palco e um corpo que, por vezes, apenas por breves olhares ou gestos quase indecifráveis, teatralizava as palavras de sambas que soavam familiares nestas versões descarnadas. Foi assim em crescendo, com o público a ser tornado cativo por aquela voz de magia, como a definiu Caetano - e também Over the Rainbow assomou para melhor nos enfeitiçar.

Houve humor, muito calor, risos e lágrimas, na emoção de estar num "sítio lindo". Houve também a canção que ela achava que "era dor de cotovelo" e afinal "é uma cantada" que é Senhora Tentação (Meu Drama), antes de Teresa Cristina apresentar um samba constrangedor como Evite Meu Amor e temas como Amor Proibido (Toda Culpa) e Tive Sim, que mostram que o samba que é samba também carrega nas notas de uma tristeza só.

Para a carioca, em Portugal, "a rua, a padaria, a farmácia, é tudo lindo". Afinal, ela trabalha com a língua, cantando, o que não acontece onde se falam outras línguas: "Aqui não, aqui penso com a minha língua e é isso que eu penso."

Já Caetano Veloso não precisa de quem o apresente ao público, mas despe o paletó (o calor, claro) para melhor cantar um repertório cujas palavras e acordes são tão familiares de todos. Também só com violão em palco, a voz aos 74 anos é tudo menos frágil e dança com a sensualidade de pronomes e verbos.

Caetano ironiza com a situação política do Brasil: "Vocês pensaram que eu ia dizer "fora Temer"" - e acabou a dizer, arrancando fortes apupos a Michel Temer, ele que lhe deu o mote para incluir Luz do Sol no alinhamento, por também o compositor usar mesóclises (o uso de pronomes no meio de verbos) como o presidente brasileiro.

A palavra é uma arma, já se sabe. Talvez por isso o espetáculo de Caetano Veloso comece por Um Índio e Os Passistas, antes de mergulhar em clássicos como O Leãozinho, Menino do Rio, Minha Voz, Minha Vida ou Cucurrucucu Paloma. Talvez por isso Caetano assuma o risco de cantar num português contido Libertação, o poema de David Mourão-Ferreira interpretado por Amália. Talvez por isso o baiano remate com A Luz de Tieta, pedindo o coro que o acompanha sem falhas, "quero ouvir outra vez", antes de regressar para dois encores.

Ele e ela: Caetano apresenta Teresa e os dois cantam Desde que o Samba é Samba porque "cantando eu mando a tristeza embora". O samba tinge a noite quente e Odara é interpretada já com o público a ocupar a frente do palco - "pra ficar tudo jóia rara qualquer coisa que se sonhara".

[texto hoje publicado no online do DN]

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