Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

u2.jpg

 

Primeiro ato. The Whole of the Moon 

O ato é de celebração, as palavras são conhecidas e os gestos já muito ensaiados, mas há algo de refrescante no que ali se festeja: as canções têm 30 anos e ganham todo o sentido cantadas assim, do princípio ao fim, num espetáculo no qual os U2 comemoram os 30 anos do álbum The Joshua Tree. E chegaram há pouco mais de uma semana à Europa para esta digressão sem ponta de nostalgia. Estas canções fazem-se eco da América e do mundo de hoje, nas palavras e sons que são também manifestos políticos, projetados num imenso ecrã.

É com The Whole of the Moon, tema de 1985 dos Waterboys, que se insere a palavra-passe para o início do concerto, depois de Noel Gallagher's High Flying Birds ter entusiasmado a multidão com os sucessos dos Oasis. Larry Mullen Jr. entra para a bateria e marca o ritmo e, com a abertura sincopada de Sunday Bloody Sunday, os outros elementos da banda vão chegando ao palco para interpretar uma canção que é também senha para este concerto. Como explicou The Edge, na Mojo, cantar e tocar este tema de War (1983), logo a abrir, é “para deixar claro que banda é esta”.

As quatro canções com que arranca o concerto — depois de Sunday Bloody Sunday, em Londres ouviram-se New Year's Day, Bad e Pride (In the Name of Love) — são tocadas num palco mais pequeno, uma sombra da árvore de Joshua, que se destaca no ecrã panorâmico e é assim “projetada” no relvado do estádio de Twickenham. 

A lua tenta romper por entre a luz do sol, mas não há imagens no ecrã, remetendo assim para 1987, quando os espetáculos em estádios ainda não faziam uso da capacidade cénica de hoje (e onde os U2 sempre foram pioneiros e ousados). Apresentadas cronologicamente, estas canções de War e The Unforgettable Fire antecipam o álbum de 1987, mas também se inserem na linhagem política da banda irlandesa.

 

Segundo ato. The Joshua Tree

Os tempos de hoje, antecipava a banda antes da digressão, parecem completar um círculo regressando ao período de Ronald Reagan/Margaret Thatcher com diferentes personagens — agora Donald Trump, o brexit, Theresa May. “The Joshua Tree assemelha-se de alguma forma a um espelho das mudanças que estavam a acontecer no mundo”, dizia o baixista Adam Clayton. O ato é, pois, também político: os U2 nunca esconderam que olham de forma crítica para o mundo — e este álbum trintão conta-o por todas as espiras.

O público (no caso, londrino) sabe as letras de cor e salteado e sabe que é por Where the Streets Have No Nameque se inicia o álbum e que depois dessa vem I Still Haven't Found What I'm Looking For e depois With or Without You e depois... Esse reconhecimento poderia jogar contra o espetáculo, mas não. Percebe-se que faz sentido ouvir de novo Where the Streets Have No Name ou Bullet the Blue Sky. Uma e outra vez. “É importante para nós que isto não dependa de nenhum tipo de nostalgia. É um olhar fresco sobre estas canções, uma nova forma de as apresentar e aproveitar uma qualquer qualidade intemporal que tenham. Elas parecem ter ganho uma nova vida agora”, confessava o guitarrista The Edge à Mojo.

Em palco, nas quase duas horas e meia de concerto, a banda também faz da encenação uma forma de luta: no ecrã panorâmico gigante projetam-se curtas-metragens realizadas por Anton Corbijn (responsável pelas fotos que acompanham o álbum de 1987) e filmadas nos californianos parque de Joshua Tree e Zabriskie Point, no vale da Morte. 

São metáforas para estes dias. Em Where the Streets Have No Name, as ruas sem nome são uma longa reta que rasga o deserto com migrantes a caminharem sob o sol (e ali projetado com o sol ainda a fazer-se ver no Twickenham Stadium). Estes filmes são sobre “como pôr The Joshua Tree na América de hoje”, explicou Corbijn à revista Mojo.

Quando arranca a interpretação na íntegra de The Joshua Tree, o ecrã do espetáculo concebido por Willie Williams assume também protagonismo no palco, transportando os cerca de 55 mil presentes para essa América que é a de Donald Trump e de Barack Obama.

Se ao longo destes 30 anos as canções de Joshua Tree foram ganhando outros contextos e mantendo um olhar fresco sobre a América e o mundo, basta chegar a Bullet the Blue Sky, que nasceu de uma viagem de Bono e da mulher à América Central das guerras civis violentas e dos esquadrões da morte dos anos 80 e que hoje podia ser cantada sobre a Síria, o Iémen ou a República Centro-Africana.

Em 1987, “a música falava sobre os tempos e sobre o que estava a acontecer na cultura, de uma maneira que não se faz agora. Talvez no hip-hop haja um pouco mais”, apontou o guitarrista nas páginas da Q

Ouvindo The Edge, é mais fácil de perceber o que se passa no concerto: Exit é antecipado por um excerto de uma série de western onde um Trump, Walter, assusta a população de uma cidadezinha do Texas com a iminente colisão de um cometa a construção e garantindo que a solução mágica passa por construir um “muro magnético” que os protegerá do mal que se anuncia. Sounds familiar? Sim. E é a referência mais explícita a Trump, Donald, que se ouvirá no concerto. 

 

Terceiro ato. Miss Síria

Junte-se Mothers of the Disappeared, por exemplo, logo a seguir, e temos retratos de um mundo que está ainda presente. Ou Miss Sarajevo, já a abrir um encore com sete temas mais recentes dos U2, que acaba por ser uma miss Síria, Omaima, a jovem refugiada de 15 anos do campo jordano de Zaatari que vê os seus olhos abrirem-se no ecrã gigante enquanto uma bandeira com o seu rosto é levada pelos braços do público que compõe as bancadas de Twickenham.

Já antes, a antecipar a canção que celebra a América de forma clara, In God’s Country, Bono deixou uma declaração de amor a Brian Eno, pelo seu trabalho no álbum. “Não haveria um lado 2, ou um lado 1, se não fosse Brian Eno, que está aqui esta noite”, explicou-se o vocalista.

Há um verso neste In God's Country que ajudou Bono a explicar a vontade de tocar Joshua Tree agora na íntegra nos palcos. “We need new dreams tonight.” Precisamos de novos sonhos nos tempos que vivemos. Hoje a digressão, que passou entretanto por Berlim e Roma, chega a Barcelona. Para continuarmos a sonhar outra América — e outro mundo.

 

[texto publicado na Máquina de Escrever, a 18/7/17, elaborado, revisto e aumentado, a partir de uma crónica escrita para o DN, publicada a 15/7/17; o concerto em Londres aqui narrado foi a 9 de julho.]

Autoria e outros dados (tags, etc)

Humanz, a banda sonora para o fim do mundo

por Miguel Marujo, em 10.08.17

Gorillaz-press-photo-cr-J-C.-Hewlett.jpg

O aviso vem em letra de forma na capa de Humanz, o álbum que assinala seis anos depois o regresso dos Gorillaz: "Aqueles que têm medo da música são perigosos." Sabe-se que Damon Albarn pediu a Pusha T, ainda antes daquele mau dia de novembro de 2016, que imaginasse "uma festa para o fim do mundo, como se Donald Trump ganhasse". Trump ganhou a presidência americana e o mundo ganhou a banda sonora para esse fim do mundo como o conhecemos.

Quem há muito anda distraído pode achar que vai encontrar neste alter ego de Damon Albarn um pouco mais de Blur, o grupo a que deu voz na explosão da britpop e na guerra alimentada no espaço mediático com os Oasis, sem cuidar que os seus ouvidos vão mergulhar num mundo que atravessa pontes entre o hip hop, o tecno e o dub (e Albarn prometia canções de "125 batidas por minuto e nada abaixo disso") ou o reggae e a pop.

Esta banda virtual de Damon Albarn e Jamie Hewlett, responsável pela imagem gráfica dos Gorillaz, suga os anos 1980, no encontro com os De La Soul (também eles a viver uma segunda vida, como se pôde ou-ver no ano passado em Lisboa), mas também recuperando gente que seria proscrita, insultada e caricaturada por muitos na década final do século XX, como Jean-Michel Jarre (sim, os seus sintetizadores ressuscitam em três temas), a inesperada Carly Simon ou a sempre enigmática Grace Jones.

Também há Vince Staples, Danny Brown, Pusha T, Mavis Staples, D.R.A.M., Jehnny Beth, das Savages (que se mostraram no Primavera Sound de 2016 no Porto) e Kelela, que também no ano passado se apresentou a solo no Super Bock Super Rock, longe do palco principal dos De La Soul. E com Damon quase sumido nas vocalizações, há ainda a voz de Benjamin Clementine, sempre inclassificável, sempre brilhante, apesar de quase discreta nos tons fortes que fazem desta voz um templo sagrado. E, por fim, Noel Gallagher, um dos irmãos desavindos dos Oasis, também acompanha Damon e Jehnny Beth em We Got the Power, um gesto que motivou a fúria de Liam Gallagher.

Há coisa de três anos, este álbum começou a ganhar forma e, em outubro de 2015, Damon Albarn admitia que já estava a trabalhar em novas canções. Elas deviam transmitir três ideias centrais para este registo: "Dor, alegria, urgência." E Albarn era citado numa entrevista a pedir a festa de um mundo que se desfazia. "Eu disse a todos para imaginarem que estavam na América após a tomada de posse [do presidente] e que pensassem no pior cenário: como se sentiriam naquela noite? Vamos fazer um disco festivo sobre o mundo a ficar doido."

O álbum avança entre canções de corpo inteiro e interlúdios que experimentam palavras de ordem para o ritmo dos corpos. Temos o poder de nos espantar num universo que extravasa a música. Os Gorillaz têm uma existência virtual de quatro personagens animadas, completamente ficcionadas, sem qualquer correspondência com a realidade — apenas emprestam os nomes a vídeos e filmes, como também a instrumentos, como 2-D na voz e teclas, Murdoc Niccals no baixo, Noodle na guitarra e teclas e Russel Hobbs na bateria e percussão.

Já no final do álbum (na versão standard, que se fica pelos 20 temas - há uma edição deluxe que acrescenta mais seis canções de bónus), Jehnny Beth toma a palavra para nos dizer que temos o poder de nos amarmos, sem que mais nada importe: "We've got the power to be loving each other/ No matter what happens/ We've got the power to do that/ On a le pouvoir de s'aimer, okay?" E aqueles que têm medo da música são perigosos.

Num ano em que já tivemos Kendrick Lamar no seu Damn e Thundercat com Drunk, este Humanz ajuda a compor uma trilogia destes tempos modernos de inquietação de que qualquer coisa está para acontecer. É este o fim do mundo como o conhecemos — e sentimo-nos bem. Já se sabe: estas canções hão de afugentar os perigosos que têm medo da música. É a banda sonora perfeita.

[publicado originalmente no DN a 27/5/17]

Autoria e outros dados (tags, etc)

Placebo.jpg

É uma foto destes tempos: dois jovens estendidos no chão beijam-se, com um polícia em primeiro plano e, ao fundo, o caos instalado nas ruas de Vancouver. Scott contou que procurou acalmar a namorada, Alexandra, com o beijo, depois de os dois terem tropeçado numa fuga precipitada da multidão e a polícia lhes ter batido — estávamos em 2011.

Cinco anos depois, os Placebo fizeram desta imagem a sua capa da coletânea A Place for Us to Dream, com que festejam os 20 anos do seu primeiro álbum homónimo, de 1996. Este lugar para sonharmos anda desde outubro último pelos palcos europeus e chega hoje [1/5/17] ao Pavilhão Multiusos de Gondomar e amanhã [2/5/17] ao Coliseu dos Recreios em Lisboa.

A avaliar pelos alinhamentos dos concertos mais recentes, pode esperar-se uma entrada em palco com dois momentos de Without You I"m Nothing, o segundo disco de originais da banda e que a Pitchfork incluiu na lista dos 50 melhores álbuns da britpop. Every You Every Me será projetado nos ecrãs e Pure Morning já contará com Brian Molko e Stefan Olsdal no palco para uma noite em que se espera mais de uma vintena de canções, encores incluídos, entre originais e algumas surpresas — a banda tem fechado os concertos com a sua versão contida de Running up That Hill (A Deal with God), o tema de Kate Bush, e tem interpretado Without You I'm Nothing, com David Bowie (que canta no original) a visitar-nos nos ecrãs.

No palco, garante Stefan Olsdal, as coisas têm corrido bem. "Eu penso que nos aproximámos mais um pouco de um estilo festivo do que em digressões anteriores porque, afinal, sempre é o nosso 20.º aniversário, e em vez de sairmos e de tocarmos com má vontade velhas canções de que não gostamos, preferimos ter uma abordagem que foi a de 'vamos celebrar o nosso passado e vamos aceitar aquilo que nos fez o que somos hoje e nos trouxe até aqui hoje'", confessou o guitarrista-baixista num concerto na Alemanha ao jornal britânico Yorkshire Evening Post. "Chegámos a um acordo com o passado: celebrá-lo e estar gratos pelo que temos, basicamente."

Nestes 20 anos, Stefan reconhece que têm tido "alguns espetáculos, algumas colaborações e alguns momentos", mas que o melhor é manterem as suas armas e não seguir caminhos demasiado rápidos. Afinal, "também vivemos períodos em que estávamos realmente fora de moda e não podemos deixar que isso nos afete".

Para Brian Molko e Stefan Olsdal, o importante foi "fazer o que parecia certo e cumprir a sua própria visão". "Se fizermos isto durante um tempo suficiente, como que crias o teu próprio mundo. Até porque, se andares por aqui muito tempo, as pessoas também não te podem ignorar."

A banda não tem sido ignorada, regista Stefan. Ao longo destes 20 anos tiveram os seus momentos, como a primeira vez em que tocaram na Brixton Academy, em Londres, ou quando colaboraram com alguns dos seus "heróis", como lhes chama Stefan, de Frank Black a Robert Smith e David Bowie. Ou quando tocaram nos templos de Angkor Wat, no Camboja — "nós fomos a primeira banda de rock a fazê-lo". "Posso sentar-me e conversar sobre isto durante um bom bocado."

Na compilação, os Placebo incluíram ainda um inédito, Jesus' Son, que agora têm levado aos concertos, um tema que assenta como uma luva no longo percurso de uma banda desde sempre arrumada nas categorias do rock independente e da britpop. "And I am unafraid and blissful, here I come/ I am unashamed at getting nothing done", canta Brian na canção.

De fora tem ficado Life's what You Make It, a canção inscrita no panteão dos Talk Talk, registada num EP homónimo com temas que lançaram recentemente para ajudar na festa dos 20 anos. Mas aos 20 anos deixa-se a adolescência para trás — e festeja-se o que fazemos da vida.

Antes de iniciarem esta digressão dos 20 anos, os Placebo fizeram uma pequena homenagem a Leonard Cohen e Stefan Olsdal e Brian Molko olharam um para o outro e disseram-se: "Ainda nos temos um ao outro e ainda estamos a fazer isto. Somos abençoados com o que temos."

[publicado originalmente no DN a 1/5/17]

Autoria e outros dados (tags, etc)

MF.jpg

Harpas, órgãos, sintetizadores, ábacos, pianos, ukulelés, tambores, pandeiretas ou um cavaquinho. Desafiado a festejar os seus 50 anos com 50 canções, Stephin Merritt não deixou a coisa por menos. Pegou em mais de cem instrumentos, grande parte tocados pelo próprio, alinhou ano a ano letras autobiográficas e reuniu cinco discos numa caixa épica e conceptual, 50 Song Memoir, e sob o nome pelo qual é mais conhecido o seu múltiplo trabalho — Magnetic Fields.

A empreitada remete logo para outro disco com que Stephin Merritt fechou o século XX: então em 1999, também sob o nome de Magnetic Fields, o canadiano apresentou-nos um épico triplo álbum de amor, 69 Love Songs, literalmente 69 canções de amor divididas por três discos.

Dezoito anos depois, chegados a 2017, Merritt estabelece a ponte entre os seus dois discos: "Penso neste álbum como parte de uma resposta a 69 Love Songs, no qual era tudo ficção, mais ou menos, pelo menos no sentido em que as canções de amor são ficção ou não. Em 50 Song Memoir é tudo não ficção, mais ou menos, pelo menos no sentido em que uma autobiografia é extremamente construída...", explicou-se numa conversa que acompanha a edição desta nova caixa. E aí volta a dizer que "é a pessoa menos autobiográfica que provavelmente encontrarão", antecipando que a sua velha discrição pessoal deve regressar. "Provavelmente não vou escrever mais nenhumas canções verdadeiras depois disto como fiz antes, mas foi interessante trabalhar nisto."

A história deste 50 Song Memoir é conhecida: Robert Hurwitz, o presidente da sua editora, a Nonesuch, levou Stephin Merritt ao Oyster Bar na Grand Central Station, em Nova Iorque, e desafiou o mentor dos Magnetic Fields a fazer o tal álbum de 50 canções pelos "50 anos de Stephin no planeta" — "e fazer disso uma extravagância".

É um homem que gosta de complicar o que é aparentemente simples. Ao uso de mais de cem instrumentos, impôs-se a regra de que cada canção não teria mais do que sete. No passado lançou um trabalho em que todas as canções tinham como inicial a letra "i" (e o álbum chamava-se obviamente i). Ou outro, inspirado nos escoceses The Jesus and Mary Chain, em que as pessoas sabem musicalmente ao que vão: Distortion.

Talvez se expliquem estas manias com o texto "The Formulist Manifesto", que Merritt elaborou para explicar que "toda a arte aspira à condição do Top 40 bubblegum pop". Mastiga e deita fora? Não, neste caso.

Talvez seja por isto que este novo álbum dos Magnetic Fields navegue por territórios cujas sonoridades se reconhecem e remetem para trabalhos anteriores de Stephin Merritt, nomeadamente o já referido 69 Love Songs. Mas até chegar ao amor, neste 50 Song Memoir, há a infância de descobertas e memórias (também musicais, como quando aos 5 anos foi a um concerto dos Jefferson Airplane com a mãe).

Stephin nasceu em 1965 e a primeira canção é de 1966, no seu primeiro aniversário (as canções são identificadas pelos anos, até 2015, quando fez 50 anos). Em 1971, tinha sonhos próprios dos seus 6 anos: "Eu penso que farei um outro mundo e vou enchê-lo com tudo o que quiser", diz em I Think I'll Make Another World.

As ilusões parecem esboroar-se nos anos 1980, depois da explosão do disco e das idas à danceteria. Em 1985, em Why I Am not a Teenager, a sida assoma à porta, quando se ouve "When you never get paid/ And you never get laid/ And you're full of these stupid hormones/ And just then they come out with AIDS". Cinco anos depois, é o fim da inocência, que se joga em Dreaming in Tetris: "All the young dudes of 25/ Caught diseases, few survived/ Dreaming in Tetris/ We expected nuclear war/ What should we take precautions for?"

Mergulhados no Tetris, à espera da guerra nuclear dos anos 1980, quando se instalavam mísseis nucleares nas fronteiras da Europa dividida, as precauções foram nulas. Merritt mergulha num boletim clínico de "estranhas doenças" que o afetaram, de "quistos renais realmente dolorosos" à "hiperacusia", uma intolerância a determinadas frequências sonoras que o aflige desde 1992.

Já o amor toca-lhe agora na frequência certa. Em Somebody's Fetish, a fechar o álbum, Merritt diz-nos: "Nothing's too strange for somebody's palate / Some spank the maid, and some wank the valet." Ou, como confessou ao The Guardian, não é só aí que se diz apaixonado. "Eu estou enamorado noutros lugares do álbum, mas acho que a mensagem é mais podermos encontrar um final feliz no rio da vida. Eu podia dar-lhe um final trágico. Há várias coisas em que nos podemos concentrar — na política americana, por exemplo."

[publicado originalmente no DN a 25/3/17]

Autoria e outros dados (tags, etc)

NC.jpg

 

Há um momento no filme no qual o rapaz que está no palco volta para mais uma canção, "mais uma canção e acabou", pensa ele, "mas não lhes vou falar de uma rapariga, não lhes vou falar", e quando se chega ao microfone diz o contrário: "Vou falar-vos de uma rapariga" - e a banda começa a tocar, enquanto ele canta sobre a rapariga que vive no quarto 29, exatamente por cima do dele, onde ela passeia descalça a chorar.

Foi assim que, pela primeira vez, Nick Cave e os seus Bad Seeds apareceram num filme, Der Himmel über Berlin/As Asas do Desejo (1987), de Wim Wenders, a interpretar em palco The Carny e From Her To Eternity, a canção da rapariga do quarto 29. E é por este tema, do primeiro álbum homónimo, que nos iniciamos neste acontecimento maior que é a mais abrangente coletânea de Nick Cave and The Bad Seeds, Lovely Creatures: The Best of Nick Cave and The Bad Seeds (1984-2014) — descontados um primeiro best of, curto nos seus 16 temas, de 1998, os discos ao vivo e uma box que reuniu lados B e raridades, em 2005 — que [foi] lançada a 5 de maio.

Esta viagem percorre os 15 álbuns de originais do australiano e da sua banda de From Her To Eternity (1984) até Push The Sky Away (2012), só deixando de fora o mais recente Skeleton Tree (2016) e [chega] às lojas em duas versões que só aparentemente são iguais. A edição standard fica-se por 21 temas, a deluxe atira-se para os 45.

E, senhoras e senhores, como apetece tanto puxar os cordões à bolsa para poder ouvir esta antologia na sua versão de luxo (e falamos só da música): desfiando as canções cronologicamente, os 45 temas permitem parar em cada um dos álbuns com tempo, percebendo a importância de cada um na construção do edifício musical de Nick Cave and The Bad Seeds, da carnalidade dos cinco primeiros discos ao lirismo hipnotizante que o acompanha, com mais ou menos arroubos viscerais, sobretudo desde Murder Ballads (1996) e The Boatman's Call (1997).

Da edição standard à edição deluxe, o embrulho é cuidado. A primeira é um duplo CD, com um booklet de 24 páginas de fotos pessoais e raras da banda. A versão de luxo traz um livro de 36 páginas que acompanha três CD e um DVD de duas horas. Por fim, para fãs, há uma edição limitada super deluxe a pedir a atenção dos sentidos, num livro luxuoso de 256 páginas, com ensaios originais, muitas fotos e memorabilia.

As criaturas adoráveis que são as canções deste álbum mostram um Nick Cave e os seus Bad Seeds em empolgantes hinos rock, como The Mercy Seat ou Deanna, em que órgãos Hammond gingam de forma despudorada com guitarras apocalípticas e coros guturais.

Até 2014 não há álbum de originais que fique de fora, exceto (lá está) na edição standard. Nocturama (2003) é o disco menos amado e quase esquecido nesta coletânea, com um único tema na versão deluxe. Mas não há muito por aferir sobre amores e desamores de Nick Cave na seleção final feita. Your Funeral... My Trial também é quase esquecido (Stranger Than Kindnessouve-se nas duas versões, acompanhada de Sad Waters e The Carny, no triplo que reúne os 45 termas), quando o australiano dizia em 1992 que era o seu disco preferido. "Este disco em particular, que é o meu disco favorito dos que fizemos, é muito especial para mim e muitas coisas espantosas aconteceram, musicalmente, no estúdio", contava então. "Há algumas canções que, no que me toca, são tão perfeitas como as podemos fazer. Canções como The Carny, Your Funeral, My Trial e Stranger Than Kindness, penso que são de facto brilhantes."

O génio atormentado que sobe ao palco em As Asas do Desejoestá sempre presente nas letras que fazem este longo percurso de 30 anos, em que o amor, o sexo e a religião se cruzam de forma quase omnipresente. Há The Good Son (2000) e The Boatman's Call, ou ainda Kicking Against the Pricks, o álbum decovers de 1986 que ganhou o nome a partir de um versículo dos Atos dos Apóstolos, que cita um provérbio grego apenas referido numa tradução anglicana da Bíblia.

Mesmo que possamos apontar o dedo a uma ou outra ausência (onde andam o fantástico dueto com PJ Harvey, Henry Lee, de Murder Ballads, ou Black Hair, de The Boatman's Call?) — o que acaba por acontecer naturalmente mais vezes ao olharmos para o alinhamento da edição mais económica — há um esforço para contar o essencial destas ervas daninhas.

Quem aqui chegar pela primeira vez fica a saber com o que conta, desde a história da rapariga do quarto 29 até à de uma outra rapariga, que se passeia pela Jubilee Street. É uma viagem e tanto, de antologia mesmo.

[publicado originalmente no DN de 15/4/17]

Autoria e outros dados (tags, etc)

BH.jpg

 

É um disco que pode enganar: promete-nos lados b e raridades, mas na verdade aquilo que se ouve não são canções de refugo nem apenas curiosidades para colecionadores. Os Beach House, de Victoria Legrand e Alex Scally, fazem do seu sétimo disco de longa duração (agora lançado) uma compilação de todas as canções gravadas que não constavam dos seus seis anteriores discos: juntaram 14.

Novidades, novidades fresquinhas, só duas: Chariot e Baseball Diamond, canções inéditas recuperadas das sessões de gravações dos dois últimos álbuns editados em 2015, Depression Cherry e Thank Your Lucky Stars, então editados com um intervalo de dois meses (uma surpresa que não evitou que a maior parte dos tops desse ano incluísse ambos os trabalhos).

Ao ouvir este B-Sides and Rarities — nome apenas factual pela dificuldade de encontrar hoje em dia alguns destes registos — podemos imaginá-lo como que um terceiro capítulo daqueles álbuns, completando um tríptico final em que as texturas dos Beach House se depuraram por entre as florestas frias de Twin Peaks (ouça-se Chariot e, por entre as sombras, surge-nos Julee Cruise), as sonoridades dos Cocteau Twins ou contos infantis com as suas personagens assustadoras (há sempre um lobo mau ou uma bruxa má que pregam sustos a capuchinhos e frágeis princesas).

Talvez desta amálgama de referências se entenda o sonho em que se entra com a voz de Victoria e as guitarras de Alex, o voo planante que se inicia em cada uma das notas, como as que escutamos em 10 Mile Stereo, numa remistura que tornou mais lentos todos os movimentos desta canção gravada nas sessões de Teen Dream em julho de 2009. Como explicam os próprios, na apresentação do álbum no site da sua editora Sub Pop, desde que usam cassetes, muitas vezes desaceleram a cassete para criar efeitos durante a gravação. "Quando estávamos a fazer isso em 10 Mile Stereo, decidimos que queríamos fazer uma versão alternativa onde toda a canção seria mais lenta." Dito e feito, como se ouve nesta Cough Syrup Remix.

Este tema é recuperado de um dos períodos "mais prolíficos até à data" do duo, o de 2009/2010 - o outro é 2014, que deu origem aos tais dois álbuns de 2015 - e é destes anos que encontramos umas quantas canções nesta compilação, como explicam Victoria e Alex: Baby foi escrita e gravada em outubro de 2009, The Arrangement e White Moon não se adequavam a Teen Dream (2010). Esta versão de White Moon é recuperada da sessão ao vivo do iTunes, tal como Norway, e se a primeira foi remisturada para melhor responder à "estética atual", a segunda estabelece uma ponte bem distinta da versão original.

I Do Not Care for the Winter Sun é uma canção escrita numa pausa na digressão do "ano louco" de 2010, ao sentirem-se bastante agradecidos aos fãs "por tudo o que tinha acontecido". O tema foi libertado à borla na internet, sem qualquer masterização. "Agora, foi finalmente remasterizado", explicam os Beach House.

Ao ler as explicações de Victoria e Alex para só agora estas canções surgirem em formato de álbum, percebe-se também melhor o processo criativo da franco-americana de Paris que cresceu em Filadélfia e do americano de Baltimore, cidade de Maryland onde os dois formaram a banda. Wherever You Go, por exemplo, também daquela época, mas "como soava muito à música antiga" dos Beach House, a sua escrita ficou a marinar até 2011, quando já preparavam Bloom. E surgiu originalmente como uma canção escondida neste álbum de 2012. Ou Equal Mind, também gravada nas sessões de Bloom, de que gostam muito mas que acabou de fora por parecer uma canção gémea de Other People. "Tinha exatamente o mesmo tempo", recordam.

Outra canção escondida, no primeiro álbum homónimo da banda (2006), e a mais antiga deste B-Sides and Rarities é Rain in Numbers, gravada em 2005, no verão em que os dois se juntaram como Beach House. "Nós não tínhamos um piano, e pedimos ao nosso amigo se podíamos usar o dele, que estava bastante desafinado. Usámos o microfone que estava no gravador de quatro pistas para gravar o piano e as vozes." E sim, tudo isso se percebe na fantasmagoria desta chuva em números.

Como se percebe a ironia de Victoria e Alex, ao serem confrontados com um tweet de alguém quando se soube da edição deste álbum. "Um disco de lados b? Porque põe cá fora os Beach House um disco de lados b? Os lados a deles são como lados b." Sim, é verdade, concordam os dois. "O nosso objetivo nunca foi fazer música que seja explicitamente comercial. Ao longo dos anos, na forma como trabalhámos nos nossos seis álbuns, não foram as 'melhores' músicas ou as mais atraentes que foram escolhidas, mas sim as que melhor se encaixaram para fazer um trabalho coeso." Tal e qual este B-Sides and Rarities.

[publicado originalmente no DN a 3/7/17]

Autoria e outros dados (tags, etc)

oknotok.jpg

 Há 20 anos, quando vinha aí a correr o século XXI, os Radiohead anteciparam-se ao milénio para nos cantarem logo como era - OK Computer, nascido entre 1996 e 1997, fechou-nos em casa, dias a fio assim, a ouvir o álbum que profetizaria a idade digital que vivemos sem o adivinharmos, uma revolução em forma de disco.

Agora, 20 anos depois de 21 de maio de 1997, data do seu lançamento, os Radiohead revisitam uma das suas obras maiores (e a mais icónica) juntando três inéditos e muitos lados b à história perfeita dos 12 temas originais, aqui remasterizados, numa edição a que deram o nome de OK Computer OKNOTOK.

A história é conhecida: o vocalista Thom Yorke dizia que andava a preparar um álbum "positivo", depois de Creep ter feito o sucesso de Pablo Honey (1994) e de The Bends (1995), o seu segundo álbum, ter entreaberto a porta a novas sonoridades. Faltou em otimismo o que sobrou em claustrofobia e nem as suspeitas guitarras que abrem Airbag, no início de OK Computer, disfarçam o que logo se intui: este álbum seria diferente, romperia com a britpop em que já tinham sido arrumados estes rapazes de Oxford. E se dúvidas restassem, Paranoid Android, o segundo tema, desfazia numa assentada, com a voz sempre aparentemente frágil e perdida de Thom Yorke a deambular por entre personagens que nos assustam. Será também assim em Karma Police, outra canção que entrou num panteão onde o difícil é indicar alguma que fique de fora. This is what you'll get, When you mess with us, canta Thom.

Como se escreveu no jornal britânico The Guardian, "o facto de continuarmos a achar que OK Computer é muito mais do que estrelas de rock a gemerem por serem estrelas de rock tem tanto que ver com a música como com a habilidade lírica de Yorke em transformar os seus medos e ansiedades pessoais em algo mais universal".

Nem todas as canções eram novidade: Lucky tinha surgido no álbum a favor das crianças vítimas da guerra na Bósnia, HELP, gravado num único dia, e Exit Music (For a Film) acompanhava os créditos finais de um filme do ano anterior, a fantástica versão pop shakespeariana de Romeo+Juliet de Baz Luhrmann, mas tinha ficado de fora da banda sonora publicada. O contributo para HELP é também importante por outro facto: Nigel Godrich, que já tinha trabalhado com a banda como engenheiro de som, produziu Lucky e seria chamado depois para OK Computer, tornando-se a partir daí um sexto radiohead, ajudando a cozinhar a complexidade sonora de várias camadas de que vive o álbum - e que seria aprofundado até aos limites da desconstrução pop em Kid A (2000) e Amnesiac (2001), as obras que se lhe seguiram.

Num tempo em que o YouTube ou o streaming eram quase ficção científica e que os telemóveis não cabiam num bolso nem estavam à distância de todos os bolsos, OK Computer teve honras de apresentação mundial, durante três noites de maio de 1997, em Lisboa, num Paradise Garage que nunca esgotou, apesar do sucesso de culto que os britânicos já iam conhecendo por cá.

Vinte anos depois, OKNOTOK deixa-nos KO, ao redescobrir que o sopro de inventividade e genialidade do álbum de 1997 permanece intacto e que os lados b e as canções inéditas ajudam a compreender o processo criativo do grupo e a perceber porque é que OK Computer ainda é essencial. Já estamos no século XXI, sem necessidade de nos fecharmos em casa, mas podemos sair a correr enquanto Thom Yorke nos pede aos ouvidos: "Please could you stop the noise/ I'm trying to get some rest/ From all the unborn chicken voices in my head/ What's that?" É um objeto belo este.

[texto publicado originalmente no DN a 25/6/17]

Autoria e outros dados (tags, etc)

Pet Shop Boys: licença para dançar

por Miguel Marujo, em 04.08.17

PSB.jpg

 É uma festa para os corpos esta que se anuncia por estes dias de verão e os rapazes da loja de animais de estimação não fazem a coisa por menos: os Pet Shop Boys revisitam toda a sua obra, o catálogo completo dos álbuns de estúdio de 1985 a 2012, editados pela Parlophone, para uma releitura que promete muitos inéditos e bastantes remisturas. Desde ontem [28/7/17] estão à venda os três álbuns — Nightlife (1999), Release (2002) e Fundamental (2006) — que abrem este programa de reedições muito especiais, anunciadas pelo duo em junho passado, sob o nome de Catalogue: 1985-2012, sempre acompanhados de material extra, reunido sob o nome comum de Further Listening. Para baralhar, o projeto começa num ano em que não se festeja uma data redonda: foi em agosto de 1981 que Neil Tennant e Chris Lowe se conheceram, passam 33 anos do primeiro single (e primeiro êxito, diga-se), West End Girls, o primeiro álbum Please é de março de 1986 — e este catálogo arranca com a edição dos sétimo, oitavo e nono álbuns dos Pet Shop Boys. 

Neil e Chris focam-se num período criativo que percorre 11 anos de produção: de 1996 a 2007 — onde também houve tempo para um musical, Closer to Heaven (2001), uma coletânea de sucessos, PopArt (2003), ou uma obra instrumental composta para acompanhar o clássico do cinema mudo soviético, Battleship Potemkin (2005).

Lowe confessou agora ao The Times que estes três álbuns são os seus três preferidos dos Pet Shop Boys. Tennant também se disse "sempre surpreendido" sobre o "quão bons eles são". Talvez seja exagero promocional. Afinal, Release é ainda hoje o álbum com mais fragilidades de uma obra já extensa de três décadas, apesar da presença do ex-Smiths Johnny Marr, nas guitarras (ou se calhar por causa disso...). E apesar de Nightlife e Fundamental arrumarem nas suas versões originais alguns dos melhores exemplos da pop apelativamente dançante e também socialmente comprometida dos Pet Shop Boys.

No libreto que acompanha esta edição prolixa, Neil explica abundantemente o lifting aplicado no som dos britânicos com este Release. "Nós decidimos a determinada altura que o álbum anterior [Nightlife] era o fim dos velhos Pet Shop Boys e que íamos fazer uma coisa radicalmente diferente. Era uma coisa muito do Chris, isto." Queriam fazer canções simples e com guitarras, para evitar o som previsível dos Pet Shop Boys, atreve-se a explicar Tennant. O mais velho dos rapazes, hoje com 63 anos, acaba por desvalorizar o som mais despido que o álbum ganhou com as guitarras. "As pessoas falam muito do 'solo de guitarra' em Love Is a Catastrophe, mas foi tocado no órgão", apontou Neil.

Voltemos atrás, a Nightlife — o sucessor de Bilingual, a experiência luxuriante em que os britânicos flirtam com a música da América Latina —, que acompanha a composição das canções para Closer to Heaven, peça estreada no londrino Arts Theatre em 2001.

O álbum do fim do milénio antecipa alguns dos temas dessa peça, mas não se resume a uma banda sonora exclusiva do musical de Jonathan Harvey. É antes uma saudação ao século XXI, que já ali espreitava, que nos trouxe como cartões-de-visita dois dos singles essenciais desta história de 30 anos, que são I Don't Know What You Want But I Can't Give It Any More ou New York City Boy, por entre as orquestrações negras de Craig Armstrong, os sons das pistas que Rollo e David Morales conheciam como a palma da mão (são eles os três produtores de Nightlife) ou a colaboração vocal de Kylie Minogue em In Denial.

Os dois álbuns extra de Further Listening que acompanham a edição de Nightlife ajudam a descobrir mais temas do musical, alguns cantados até aí apenas pelo casting da peça, e a vontade sempre presente de experimentar, esticar, reler, remisturar e rever canções próprias e de outros. Por isso, ouvimos um divertimento como Paris City Boy, pastiche delicioso de New York City Boy, em que se substitui a Sétima Avenida pelos Campos Elísios, mesmo que num francês macarrónico que muitos não entenderiam e que "foi uma pura perda de tempo", mas "divertido". Ou a colaboração com Elton John emBelieve/Song for Guy - o mesmo Sir Elton John que os volta a acompanhar em In Private e Alone Again, Naturally nos dois volumes de Further Listening que se juntam a Release.

Fundamental esteve para se chamar Fundamentally e para ser fundamentalmente eletrónico, mais uma rutura com o som de Release, com catchy pop songs, que soassem muito eletropop, com sintetizadores gordos e sujos, nada como o som limpinho dos Kraftwerk, sem house ou sentimentos humanos.

Acabou por ser uma obra feita de orquestrações, na qual o produtor Trevor Horn, que se foi impondo ao longo das gravações, ficando como responsável pelo som cheio do álbum. "Nós estávamos sempre a dizer ao Trevor: "Nós somos um duo eletrónico"", recorda Neil. Ao contrário de Nightlife — na qual a música clássica irrompia, por exemplo, em Happiness Is an Option —, neste Fundamental, Neil e Chris não queriam uma cantora de ópera, como desejava Horn. "Este álbum não era sobre uma cantora de ópera. Mas depois, obviamente, o Trevor punha uma orquestra em tudo."

Estes três discos são obras que também se leem. Os libretos que os acompanham são longas conversas sobre cada um dos álbuns e nos quais Tennant e Lowe se demoram a explicar as canções, as histórias à volta de cada uma delas. Como a de We're the Pet Shop Boys, com a letra de um fã, que atravessa alguns dos títulos do duo e coloca um casal a olhar para os anos 1980, quando os dois gostavam dos Pet Shop Boys. "I close my eyes and see you/ better than before/ then I feel you touch me/ and it's 1984." Estes rapazes prometem continuar a tocar(-nos) por mais uns anos. E sempre com mais para ouvir.

[publicado no DN de 29/7/17]

Autoria e outros dados (tags, etc)

twin-peaks-1.jpg

 

É o regresso mais esperado do ano. A série de Mark Frost e David Lynch chega com muitas pontas soltas à espera de mais partes

É o regresso mais esperado do ano televisivo - e os fãs esperaram mais de 25 anos: Twin Peaks, a mítica série criada por Mark Frost e David Lynch, está de volta. Já se estreou nos Estados Unidos e no domingo chega ao pequeno ecrã em Portugal (no TV Séries).

É um regresso demorado a Twin Peaks, constata-se no primeiro episódio, ontem mostrado ao início da noite a uma plateia de jornalistas e fãs. A cidade da trama da série exibida em 1990 e 1991 vai pontuando a ação deste regresso da obra mas o espectador é levado também a Nova Iorque e a Buckhorn, no Dakota do Sul, em histórias paralelas que, por enquanto, não nos explicam o que podem ter que ver com Twin Peaks, mas que têm tudo a ver com o universo lynchiano.

Nuno Markl, o radialista que colecionou cromos numa caderneta sobre "tudo o que nos fez espernear de prazer", introduziu ontem com visível prazer a exibição desta nova temporada (e não é suposto, segundo Markl a citar Lynch, falarmos em "episódios" ou "temporada", mas já lá vamos). Este regresso é "mais David Lynch do que nunca", atirou - e é: já tínhamos estranhado este objeto televisivo feito de cinema dentro, no início da década de 1990, agora continuamos a entranhar, num universo que vai desconstruindo uma narrativa em torno da morte de uma jovem de Twin Peaks, Laura Palmer, e desvelando uma pequena comunidade que vive enfiada entre segredos, bizarrias, árvores e montanhas.

Para trás ficaram 30 episódios de como fomos descendo por aquele buraco de Alice no país das maravilhas, na comparação feliz de Markl, oito "maravilhosos" episódios numa primeira temporada e 22 numa segunda que se prolongou para lá do desejável e apresentando a resposta à pergunta que atormentava o agente do FBI Dale Cooper e todos nós, espectadores: "Quem matou Laura Palmer?"

Neste regresso, a narrativa desconcerta-nos entre o humor e o terror, entre o desejo e o surreal. É Lynch, como já tínhamos experimentado em Estrada Perdida (1997), Mulholland Drive(2001) ou Inland Empire (2006), que nos leva por uma viagem dos sentidos, sem grande vontade de nos ter de explicar tudinho. Por enquanto, o benefício da dúvida vem do facto de se tratar da "primeira parte" de "um longo filme de 18 horas" (e é assim que o realizador apresenta agora Twin Peaks), com muitas pontas soltas, sem preocupação de as atar para já - algures saberemos.

Este regresso à série e à cidade fez-se também de percalços: David Lynch ressuscitou o projeto, saiu dele e regressou para completar estas 18 novas partes atrás das câmaras, mas também a desenhar o som. Talvez por isso, o Gigante que conhecíamos dos sonhos da série original regresse logo no início para avisar o agente Cooper: "Escute os sons."

Escutemos também: com o genérico, aquelas letras transparentes envoltas num verde forte, regressam também a banda sonora de Angelo Badalamenti, aquelas guitarras e sintetizadores a marcarem os passos de uma cidade envolta num crime e em mistérios de muitos dos seus habitantes (e ontem já revimos a mulher do tronco).

Não sabemos ainda o que vai ser desvelado neste novo Twin Peaks. Naquela sala de pesados cortinados vermelhos e chão de mosaico, o agente Cooper ensaia uma resposta aos avisos do Gigante: "Eu entendo." Aquele homem quase disforme responde-lhe: "Está muito distante." No final desta primeira parte, só podemos concordar.
[texto originalmente publicado no DN de 23 de maio de 2017]

Autoria e outros dados (tags, etc)

BD Qi.jpg
publicado originalmente no Q.I. — Quociente de Inteligência,
suplemento do Diário de Notícias, a 26 de maio de 2012

 

MOSTRAR OS PULSOS, rir alto, ter um walkman. Ou pintar-se, lábios e olhos. Pequenos gestos quotidianos, quase banais, mas que nas ruas de Teerão, finais dos anos 80, são um ato de resistência. Marjane tem 19 anos, regressou ao Irão dos ayatollah, depois de viver quatro anos na Áustria. Está em casa, mas não se sente em casa, uma ocidental no Irão, uma iraniana no ocidente. 

Adolescente, os pais quiseram proporcionar-lhe o bem maior usurpado por um regime de barbudos: a liberdade. "Eu e a tua mãe decidimos mandar-te para a Áustria", anuncia-lhe o pai. "Amamos-te tanto que queremos que vás", justifica-se. E a mãe confessa à filha que "é melhor para ti estares longe e feliz do que perto e tão triste". 

Perto e triste é o país de Marjane, onde rapazes e raparigas são enviados para fora, para fugir à ditadura dos guardiães e à Guerra Irão-Iraque. No aeroporto de Mehrabad, "havia uma fila enorme. Muita gente estava a deixar o país. Especialmente rapazes. Considerados futuros soldados, estavam proibidos de sair do país depois dos 13 anos". 

Anos depois, Marjane Satrapi (1) contou a sua história. Persépolis – A História de Uma Infância e a História de Um Regresso é o resultado aos quadradinhos que, nos escaparates das livrarias portuguesas, reúne num só livro aquilo que começou por surgir em dois volumes autónomos. 

Esta banda desenhada desvela o horror de uma ditadura quase contínua — do regime do xá iraniano (de 1941 a 1979) ao estado fundamentalista da revolução islâmica (desde 1979), num traço quase ingénuo. Mas não há qualquer infantilização na forma e no conteúdo do texto e do traço de Marjane Satrapi, mesmo que a infância seja o mote para este retrato de um regime cruel — aquele que subjuga ainda hoje o povo iraniano. 

A família expia a memória. Também com Art Spiegelman (2), na sua obra-prima Maus, dois volumes que desapareceram do mercado português arrastados pela falência da sua editora (agora já reeditados num único tomo). É à infância que Spiegelman também vai buscar o início da sua narrativa. Em Nova Iorque, 1958, Artie magoa-se a brincar. É no pai que procura consolo, enquanto chora pelos amigos que fugiram. "Amigos? Teus amigos? Se os fechares juntos numa sala durante uma semana, sem comida… logo verás o que são os amigos!…" O pai fala do que viveu na pequena cidade polaca, nos guetos da guerra, no campo da morte de que Auschwitz é nome próprio. Ao filho de 10 anos escapa-se-lhe esta vida.

A família é o pretexto para este autor de comics, judeu, já se vê, nascido em Estocolmo em 1948, se embrenhar na Alemanha nazi e no terror do Holocausto. Mas Maus é também um ajuste de contas com a memória que Art guarda da mãe que se suicidou e do pai que lhe narra a história. Uma memória assombrada pelo "irmão-fantasma", Richieu, morto durante a guerra, uma memória de sobrevivência. A História de Um Sobrevivente (subtítulo da obra) não é apenas o relato literal de um sobrevivente de Auschwitz mas também a narrativa de uma família que se sobrevive. "Se não consigo entender a minha relação com o meu pai… como é que poderei entender Auschwitz?… ou o Holocausto?", angustia-se Art Spiegelman. 

A provocação é nossa. Cruzar num texto, este texto, as histórias de dois povos que se temem e se guerreiam nas palavras dos seus líderes. Histórias de opressão e morte, nos olhos e nos dias de duas famílias. Uma no Irão do xá e dos mulás. A outra judaica, na Polónia, dos dias de chumbo que antecedem a Segunda Guerra Mundial, e depois no calvário longo até à morte anunciada dos campos nazis. 

Houve quem só olhasse para Maus por este lado familiar, como se o Holocausto fosse apenas um pormenor para um desenhador ajustar contas edipianas. Como em Persépolis, Maus centra-se na família para colocar no centro da narrativa o que, só na aparência, passa em pano de fundo — as ditaduras iranianas, o Holocausto. O autor questiona-se, como Marjane o faz em Persépolis ("Era uma ocidental no Irão, uma iraniana no ocidente. Não tinha identidade. Já nem sabia porque continuava a viver." — e Marjane tenta suicidar-se e expõe perante nós, leitores, essas tentativas, esses fracassos: "Cheguei à conclusão que não era feita para morrer."). 

No caso de Artie sobrevive-se à culpa de um pai que sobreviveu muitas semanas, meses, anos, enfiado numa "sala" sem comida. "De certa forma ele assemelha-se à caricatura racista do velho judeu miserável", lamenta-se o filho perante a madrasta. Vladek, o pai, é inteligente no jogo do rato e do gato. E é disso que se trata em Maus ("rato" em alemão), a magistral metáfora que Art Spiegelman encontrou para nos trazer uma vez mais a narrativa do Holocausto. Os ratos são os judeus, os gatos os alemães — e há os porcos que são polacos. "Spiegelman transformou a Alemanha nazi numa monstruosa ratoeira", constatava a Associated Press sobre Maus (originalmente publicado em 1986). 

No caso de Spiegelman sobrevive-se ao peso dos seis milhões de judeus mortos pelos nazis. Sobre uma pilha de cadáveres, sentado à secretária, ele conta-nos como "o tempo voa". É uma página inquietante esta, a 41 do segundo volume de Maus: o pai morreu em 1982, ele desenha a página no final de fevereiro de 1987, ano em que ele e a mulher esperam um bebé. Pelo meio, vivemos outros meses: "Entre 16 de maio de 1944 e 24 de maio do mesmo ano, foram gaseados em Auschwitz mais de 100 000 judeus húngaros." Oito dias. "Em setembro de 1986, depois de 8 anos de trabalho, a primeira parte de Maus foi publicada. Foi um sucesso de público e de crítica. Estão a sair pelo menos quinze edições estrangeiras, Tive quatro importantes ofertas para adaptar o meu livro à televisão ou ao cinema. (Não quero.) Em maio de 1968 a minha mãe matou-se. (Não deixou nenhuma mensagem.) Ultimamente tenho-me sentido deprimido." 

Regressa-se a Persépolis. A mesma banalidade e o horror que irrompe no dia a dia. "Estava a falar com a minha criada. Contou-me que estão a recrutar crianças para a frente [de batalha]. É verdade?", pergunta a mãe de Marjane. E o pai que confirma. "É horrível, todos os dias vejo chegarem autocarros cheios de crianças. Vêm das zonas pobres, vê-se logo… primeiro convencem-nos de que a outra vida é melhor do que a Disneylândia, depois põem-nos em transe com aquelas canções... É de loucos! Hipnotizam-nos e atiram-nos para o campo de batalha. É uma autêntica carnificina." Vira-se a página: há corpos miúdos a voar, estilhaços, chaves ao peito. "As chaves do paraíso eram para os pobres, milhares de rapazes, a quem tinha sido prometida uma vida melhor, rebentaram nos campos de minas com as suas chaves à volta do pescoço." O paraíso não morava ali. 

O pai de Marjane é um herói para a filha pequena. Mas há momentos em que a criança duvida. "O meu pai não é herói — se tivesse estado preso…", quando confrontada com a história do pai de Laly, torturado na cadeia. "Aquelas histórias deram-me novas ideias para brincadeiras. 'Quem perder, é torturado'." 

Este jogo não é do gato e do rato, é de miúdos e miúdas que brincam com os dias que lhes apresentam sem futuro. É a mãe que a sossega depois de ficar "devastada" com o jogo de torcer braços, puxar bocas, engolir lixo, "As pessoas más são perigosas, mas perdoar-lhes também é. Não te preocupes, há justiça no mundo", diz-lhe a mãe. O consolo maior é outro, para Marjane: "Não sabia o que era a justiça. Agora que a revolução acabara de vez, abandonei o materialismo dialético da banda desenhada. O único lugar onde me sentia segura era nos braços do meu amigo." 

Deus aparece. Em Persépolis e um velho barbudo; mas diferente dos barbudos do regime. É um velho que Marjane abraça, acarinha, a quem pede ajuda, que repudia. Quando o seu tio Anoosh morre (e a morte de quem nos é querido, é o momento em que tudo vacila), o amigo pergunta-lhe: "Marji, que se passa?" A miúda chora e aponta-lhe o dedo: ''Cala-te! Sai da minha vida!!! Nunca mais te quere ver! Sai!" Abre-se a página: "E então, fiquei perdida, sem nenhum suporte… Haverá alguma coisa pior?" Há. Parece haver sempre quando se vive numa "sala sem comida". "Marji! Corre para a cave! Estamos a ser bombardeados!" Fecha-se a página: "Era o início da guerra." 

Em Auschwitz, Vladek arranja uns sapatos para o seu amigo. "Deus mandou-me uns sapatos por ti", agradece-lhe o amigo. Dias depois o amigo Mandelbaum desaparece, morto no trabalho forçado do campo de concentração, ou morto sem motivo por um qualquer soldado nazi. "Deus não aparecia por ali. Estávamos todos por nossa conta", resume Vladek. Parecem ressoar as palavras de Bento XVI, quando o Papa alemão tocou o solo deste campo, em maio de 2006. "Num lugar como este, as palavras falham. No fim, só pode haver um terrível silêncio, um silêncio que é um sentido grito dirigido a Deus: Porquê, Senhor, permaneceste em silêncio? Como pudeste tolerar isto? Onde estava Deus nesses dias? Porque esteve Ele silencioso? Como pôde Ele permitir esta matança sem fim, este triunfo do demónio?" 

Os demónios são outros para algum Islão dos dias de hoje, aquele que, mesmo de rosto minoritário, mais assusta e mais se faz ouvir no palco mediático. Um Alá de barbas que provocou rasto de escândalo. O diretor de uma estação de televisão tunisina foi acusado de "ataque aos valores sagrados", já depois da Primavera Árabe no país, por ter permitido a exibição do filme de animação que resultou do livro (curiosamente, esta longa-metragem chegou a Portugal antes do livro). Nabil Karoui, da Nessma TV, pediu desculpas por ter mostrado um filme cujo pecado maior é esse, ter "exibido" Deus. 

Os demónios só mais tarde assaltam a consciência. A inocência ficou perdida antes, nos véus que velavam os cabelos delas e nas barbas que cobriam os rostos deles. "De início, era um pouco difícil, mas, depressa aprendi a mentir." Ou já depois do início da Guerra Irão-Iraque (1980-1988), as meninas alinhadas no pátio da escola de véu e mão no peito. "Também tentei pensar na vida. Mas nem sempre era fácil: na escola alinhavam-nos duas vezes por dia para chorar os mortos de guerra. Tocavam marchas fúnebres e tínhamos de bater no peito." Ou como ouve Marjane da boca da mãe, "quando vem uma onda grande, baixa a cabeça e deixa-a passar!" — "é algo muito persa, a filosofia da resignação". 

Mais tarde, Marjane conhece a história da guerra contada pelos 'rapazes da sua idade, aqueles que também a fizeram. "— O quê? Mataste pessoas?" "— Sei lá. Quando disparas, não sabes exatamente onde acerta… E também, durante o combate, não tens tempo para divagações. É tudo uma questão de sobrevivência."

É mesmo uma questão de sobrevivência, recorda Vladek. Maus está repleto de exemplos de sobrevivência. Os polícias judaicos que espancam os seus. A economia de guerra em que tudo se transaciona. "Lá podia trocar as joias por marcos e os marcos por alimentos." Os passadores que traem os judeus, denunciando-os à Gestapo. Ou os amigos que ficaram para sempre fora da sala. "Não te preocupes com as tuas amigas. Elas não se preocupam contigo. Podes crer no que te digo. Só se preocupam em obter uma ração maior do que a tua", diz Vladek a Anja, a mulher, já em Auschwitz. 

Nas ruas de Teerão, que se erguem dos escombros da guerra dos anos 80 em muros de intolerância pública e liberdade doméstica — "o nosso comportamento em público e o nosso comportamento em privado estavam em polos opostos. Essa disparidade tomava-nos esquizofrénicos." — Marjane encontra um amigo de infância, que ficou deficiente na guerra ("quase morto"). Kia vive numa cadeira de rodas, mas ri-se, de si e de tudo. "A única maneira de suportar o insuportável é rirmo-nos dele", avalia Marjane no regresso a casa. 

A nona arte é muitas vezes esquecida como objeto de arte maior. Estes dois romances gráficos, de difícil definição, cruzam-se no retrato impiedoso da tortura, da guerra, da dor. Mesmo que Art ouça do pai, "ninguém pode perceber nada sobre Auschwitz". 

 

 

(1) Marjane Satrapi  nasceu em Rasht, no Irão, a 22 de novembro de 1969, e distinguiu-se com a obra Persépolis. Esta bisneta de um imperador persa vive hoje em Paris, França, onde é ilustradora, escritora de livros infantis e romancista gráfica. O filme baseado em Persépolis esteve nomeado para os Óscares, na categoria de Melhor Filme de Animação. Tem ilustrações publicadas no New York Times e na New Yorker.

(2) Art Spiegelman nasceu em Estocolmo, em 1948. Cofundador e editor de uma revista de banda desenhada Raw, este filho de judeus sobreviventes de Auschwitz casou com uma francesa, Françoise, de quem tem uma filha. Professor de artes visuais, tem trabalhos publicados no New York Times, Playboy e Village Voice.

Autoria e outros dados (tags, etc)

mon amour, la mort

por Miguel Marujo, em 29.01.17

Riva.jpg

Emmanuelle Riva. 1927-2017. Em "Hiroxima, meu amor" é o rosto e o corpo de uma história impossível. Em "Amor" é o rosto e a memória da história possível. Dois filmes filmados com mais de meio século de diferença, em que ela nos ensinou a fazer a diferença. Morreu no sábado, dia 28.

E no mesmo dia 28 morreu John Hurt. O homem elefante, o ator imperador.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Listen very carefully: morreu René

por Miguel Marujo, em 23.01.17

 

Morreu Gorden Kaye, o René de 'Allo 'Allo!. Ator tinha 75 anos e foi o principal rosto de uma das mais populares séries de humor da televisão britânica dos anos 1980.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Sobre o futebol e outros suicídios do jornalismo

por Miguel Marujo, em 15.01.17

tv.jpg

 

(ou como jornalistas e católicos são tão parecidos)

António Marujo

 

"Hesitei muito sobre a minha participação no congresso e sobre a possibilidade de fazer ou não esta comunicação – já direi porquê. Desde há anos, foi crescendo o meu desencanto com algumas práticas do jornalismo. A 7 de Julho de 2014, esse desencanto ficou gravado como um espinho na carne: nesse dia, estive à porta do DN, numa manifestação contra os despedimentos que a então Controlinveste se preparava para fazer em vários meios do grupo. Nesse dia, ou na véspera, tinha ouvido na TSF (rádio do grupo, onde também haveria despedimentos) um noticiário que abriu com as declarações de um treinador de futebol sobre as suas expectativas acerca de um jogo que seria disputado dois dias depois. 

Dei comigo a pensar que estávamos ali alguns (não muitos, aliás...) a protestar contra mais uma decisão intolerável de uma administração, mas que muito do que está a acontecer com as redacções e o jornalismo é cada vez mais da nossa responsabilidade. 

Infelizmente, situações deste género repetem-se com demasiada frequência sobretudo nas televisões e em algumas rádios, dando um espaço desmesurado a coisas que, em si, não são notícia (é notícia ouvir “a minha equipa vai dar o melhor?” ou são notícia cuspidelas em balneários?...); promovemos programas de suposto debate que, exacerbando clubites já de si agudas, não debatem coisa nenhuma e só contribuem para degradar o nível do debate público; somos, enquanto jornalistas, veículo da publicidade dos patrocinadores de campeonatos ou clubes; fazemos entrevistas rápidas em cenários de marcas comerciais; designamos campeonatos com o nome dos patrocinadores... Há anos, o Parlamento quis impor restrições à livre circulação dos jornalistas em S. Bento; durante um mês, omitimos o noticiário parlamentar, em protesto contra essa ideia e os deputados recuaram. Pelos vistos, é mais fácil enfrentarmos o poder político que o poder do futebol...

Em síntese, o jornalismo desportivo audiovisual reflecte a tremenda inversão das prioridades noticiosas. Recordo-me de ouvir um camarada de televisão que esteve na Alemanha a acompanhar o Mundial de Futebol de 2006, contar que nem os jogos nem o próprio torneio eram notícia nos jornais televisivos daquele país; havia, isso sim, programas especiais, bem feitos e criativos, a propósito do futebol, mas ele não ocupava horas infindas de emissão até à náusea, sem nada para dizer.

Não quero generalizar e também não digo que o jornalismo é pior agora do que antes – não creio que alguma vez tenha havido uma idade de ouro do jornalismo. Mas, para os problemas de cada tempo, os jornalistas foram procurando respostas. E hoje não vejo que isso aconteça. Este congresso pode ser o início da inversão desta tendência e por isso estou muito grato a quem teve a ideia e o organizou.  

As situações que referia não são receita para o sucesso. Se fosse, não teríamos cada vez menos leitores e audiências.

Claro que não é só o futebol o problema. Matamos o jornalismo e o melhor de nós, também, pelo facto de não querermos saber, muitas vezes, da vida das pessoas. Saúde, educação ou justiça, por exemplo, interessam, na maior parte dos casos, mais pelas guerras políticas do que pelos efeitos para cidadãos e utentes. Suspiramos por equipas Soptlight mas não investigamos coisas básicas até ao fim: em Fevereiro de 2010, o então presidente do governo regional da Madeira decretou que havia 47 mortos nas inundações no Funchal. Bastaria perguntar aos vários padres da cidade quantos funerais tinham feito e contar a história de cada pessoa que morrera para perceber se aquele número é verdadeiro ou não. Aqui fica uma ideia para o próximo 20 de Fevereiro (e não cobro direitos de autor por ela, apesar de estar desempregado). Esquecemos a importância de contar profundamente as histórias da actualidade – o que se passou com a alegada agressão dos filhos do embaixador iraquiano, em que estivemos vários dias sem perceber importantes detalhes do sucedido, é exemplo disso.

Também foi muito triste assistir aos debates televisivos que acompanharam as manifestações de Paris, no Domingo seguinte aos atentados contra o Charlie Hebdo; todos os moderadores e convidados peroravam sobre segurança, islão, terrorismo, história e religião, manifestando uma profunda ignorância sobre o islão, a história ou questões religiosas. 

Suicidamo-nos enquanto profissionais quando misturamos informação e entretenimento; quando abdicamos de ser jornalistas e entregamos esse papel a comentadores que mais não são que políticos ou economistas com interesses a defender; quando destratamos a língua, adoptando o “economês”, o “politiquês” ou o inglês porque é mais sexy; quando nos encerramos cada vez mais numa bolha, sem conhecer a realidade de tantas vidas; quando as questões laborais passam a interessar quase só na sua vertente económica ou economicista; quando o emprego e o desemprego são estatísticas que se debitam sem rosto e sem nome; quando não somos críticos para com os verdadeiros poderes que hoje nos dominam e que ninguém elegeu – o financeiro e o económico. O que se passou, por exemplo, com a inconsequente divulgação dos Panama Papers, é revelador. Mas essa falta de espírito crítico revela-se na forma como se acolhe cada vez mais, no jornalismo, a legitimidade de banqueiros, agências de notação financeira e outras entidades que não são escrutinadas por ninguém e que ameaçam a sobrevivência da própria democracia enquanto escolha livre dos cidadãos sobre a forma como querem ser governados. 

Grave também é que nos preocupamos cada vez mais em ser os primeiros em dar a notícia, sacrificando a correcção e o rigor. O que se passou com os obituários do Presidente Mário Soares é exemplo disso. 

Esta não é, repito, a receita para o sucesso. Se fosse, não estaríamos a falar da crise do jornalismo. Falta-nos espírito autocrítico. Aliás, como eu tenho feito jornalismo religioso, vejo que muitos jornalistas e muitos católicos se parecem: num caso, a culpa é da internet, das novas tecnologias ou dos patrões; no outro, é a perda de valores e os novos padrões culturais. Nem uns nem outros procuram entender as razões profundas que levam ao afastamento das pessoas. 

Entre parêntesis: mais dificilmente eu estaria no desemprego se tratasse de futebol ou de economia. Mas como trato de religião (apesar de ter ajudado várias vezes o jornal onde trabalhei a aumentar as vendas com trabalhos que fiz), sinto-me às vezes como acontece muito com as mulheres em algumas áreas: tenho de provar duplamente a minha competência, sendo-me exigidas coisas que não o são noutros trabalhos. 

Também desvirtuámos o nosso papel: passámos a ter directores e editores que, em boa parte do tempo, abdicam dessas funções e da exigência de pensar o trabalho editorial, para passar a ser gestores do tempo, de orçamentos e de dinheiro; pior: em vez de assumirem o seu papel de jornalistas e se colocarem ao lado dos seus jornalistas e redacções, colocam-se, muitas vezes, contra eles, ao lado das administrações ( o caso Relvas no Público foi lamentável). 

Para quem está desempregado como eu, a conversa sobre a falta de dinheiro tem uma variante: pergunta-se se estamos disponíveis para fazer um trabalho e avisa-se logo, à cabeça, que não há muito dinheiro para pagar (forma suave de dizer que o que se paga roça por vezes a indignidade). Nunca quis ser rico, só quero que o meu trabalho seja dignamente pago. E são camaradas meus que me propõem estas coisas mas, a seguir, lamentam o estado a que chegámos. 

Hernest J. Gans escrevia em 2003, no livro Democracy and the news, que as pressões pelo lucro e as reduções orçamentais nos meios de comunicação “afectaram também o controlo dos jornalistas sobre as notícias e a sua autonomia profissional” na concepção das mesmas. Com isso, romperam-se os “antigos muros entre ‘igreja’ e ‘estado’” (sendo igreja, nesta leitura, o jornalismo, aquilo que para nós deveria ser sagrado, e correspondendo o estado às administrações), com os executivos do marketing e da publicidade a sugerirem aos directores e editores “que prestem mais atenção às necessidades comerciais das empresas”.

A 19 de Janeiro de 2016, Dillon Baker situava o fim dessa separação nos EUA em Setembro de 2015, quando Margaret Sullivan, editora do The New York Times, anunciou que um editor sénior do jornal iria trabalhar com a redacção para “analisar artigos e projetos” que poderiam ser patrocinados. Mas admitia que a separação vinha “morrendo lentamente há anos” e que a maioria dos editores/directores tem promovido a ideia de quebrar essa separação, alegando que uma melhor cooperação e mais transparência irá melhorar a paisagem editorial como um todo.

Sabendo das dificuldades de ser director e editor hoje em dia, o que gostaria era de ver directores e editores serem um pouco mais consequentes com o que dizem em público. 

Não ignoro que a crise de alguns pilares do jornalismo coincide com a profunda crise da democracia ocidental que também atravessamos. Como profissão e serviço essenciais à democracia, a minha preocupação com o futuro da profissão coincide com a preocupação que tenho em relação ao futuro da democracia. Faltou aqui, na minha perspectiva, a leitura de alguém que nos ajudasse a relacionar o que se passa no mundo com o que se passa na profissão. 

Dizia no início que hesitei muito sobre a minha participação no congresso e sobre a possibilidade de fazer ou não esta comunicação. Acabei por decidir participar pelo respeito que tenho ainda pelo trabalho de muitas e muitos camaradas que, contra ventos da moda, das imposições ou das pressões, continuam a tentar trazer-nos o melhor do jornalismo (incluindo pessoas das mais novas gerações). E também porque não desisti de ser jornalista e de acreditar que esta profissão é essencial à sociedade, quando é capaz de cumprir o seu papel. Por isso quis ajudar neste diagnóstico, com mais um contributo para um momento de que precisamos com urgência: o de parar para pensar. Espero sinceramente que este congresso confirme a minha expectativa de vir a ser o primeiro momento desse momento."

[intervenção do meu irmão, este sábado, 14, no 4º Congresso dos Jornalistas]

Autoria e outros dados (tags, etc)

Os dois sonetos de amor da hora triste

por Miguel Marujo, em 10.01.17

MSMB.jpg

 

I
Quando eu morrer - e hei-de morrer primeiro
do que tu - não deixes fechar-me os olhos
meu Amor. Continua a espelhar-te nos meus olhos
e ver-te-ás de corpo inteiro

como quando sorrias no meu colo.
E, ao veres que tenho toda a tua imagem
dentro de mim, se, então, tiveres coragem,
fecha-me os olhos com um beijo.

Eu, Marco Pólo,

farei a nebulosa travessia
e o rastro da minha barca
segui-lo-ás em pensamento. Abarca

nele o mar inteiro, o porto, a ria...
E, se me vires chegar ao cais dos céus,
ver-me-ás, debruçado sobre as ondas, para dizer-te adeus.

II
Não um adeus distante
ou um adeus de quem não torna cá,
nem espera tornar. Um adeus de até já,
como a alguém que se espera a cada instante.

Que eu voltarei. Eu sei que hei-de voltar
de novo para ti, no mesmo barco
sem remos e sem velas, pelo charco
azul do céu, cansado de lá estar.

E viverei em ti como um eflúvio, uma recordação.
E não quero que chores para fora,
Amor, que tu bem sabes que quem chora

assim, mente. E, se quiseres partir e o coração
to peça, diz-mo. A travessia é longa... Não atino
talvez na rota. Que nos importa, aos dois, ir sem destino.

Álvaro Feijó, lido na evocação de Mário Soares, pela voz de Maria Barroso

Autoria e outros dados (tags, etc)

"Peço desculpa, mas retiro-me."

por Miguel Marujo, em 07.01.17

MS.jpg

 

Morreu hoje Mário Soares. A notícia da morte aos 92 anos do antigo primeiro-ministro e antigo Presidente da República foi confirmada pelo Hospital da Cruz Vermelha, em Lisboa, depois de Mário Alberto Nobre Lopes Soares ter sido internado nessa instituição, já na madrugada de 13 de dezembro.

Nascido em Lisboa, a 7 de dezembro de 1924, Mário Soares era visto cada vez menos em público. A última vez tinha sido a 28 de setembro passado, numa homenagem do atual Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, à sua mulher, Maria Barroso, que morreu em 2015, a 7 de julho, no mesmo hospital onde estava agora internado o marido. Mário Alberto estava então de rosa amarela na mão e rosto enrugado do sorriso, amparado enquanto caminhava mas capaz de uma palmada mais vigorosa nas costas de Marcelo.

Um dos 27 que se juntou em abril de 1973 na cidade alemã de Bad Münstereifel para fundar o Partido Socialista teve uma vida intensa dedicada à política e à democracia. Advogado e professor, envolveu-se desde cedo em atividades de oposição à ditadura do Estado Novo. Preso 12 vezes, acabou deportado para São Tomé, em 1968, e depois exilou-se em França. A seguir ao 25 de Abril, regressou a Lisboa três dias depois, no que ficou conhecido como o "comboio da Liberdade", tendo a aguardá-lo uma multidão na estação de Santa Apolónia.

Desde então o Portugal democrático deve-lhe muito — é reconhecido como sendo o principal líder civil do campo da democracia na convulsão dos dias do PREC (Processo Revolucionário Em Curso) e, nestes 42 anos de liberdade no país, foi ministro dos Negócios Estrangeiros (1974-75) e primeiro-ministro por três vezes (1976-77, 1978 e 1983-85) e foi o obreiro da adesão de Portugal à CEE (a União Europeia de hoje) assinada em 1985.

Chegou a Presidente da República em 1986, como o primeiro Presidente "de todos os portugueses", como se afirmou nessa noite de 26 de janeiro em que foi eleito (numas eleições que dividiram o país ao meio). O seu primeiro mandato foi de tal modo consensual que seria reeleito com uns estratosféricos 70,35% (quase três milhões e meio de votos, resultado nunca alcançado por outro político em eleições nacionais).

Este largo consenso nunca escondeu o facto de Mário Soares não ser unânime. Houve um país à direita que nunca lhe perdoou o processo de descolonização nos anos de 1974-75, como se este processo não estivesse atrasado pela obstinação de uma ditadura. Houve outro país à esquerda que nunca lhe perdoou o 25 de novembro e um certo socialismo enfiado numa gaveta. Houve um país que lhe apontou uma relação nem sempre transparente com a coisa pública e outro país que nunca esqueceu um segundo mandato presidencial com o propósito de derrubar Cavaco Silva. Há um país que se lembra do último combate político permanente contra o governo de Passos Coelho — e em forma de letra todas as semanas nas páginas do DN — mas também da amizade que fez questão de manifestar até muito recentemente para com o ex-primeiro-ministro José Sócrates, a quem visitou na cadeia várias vezes.

Mário Soares deixou Belém em 1996, nas mãos de outro socialista, Jorge Sampaio, mas não se resignou a ser senador da República. Primeiro, ensaiou um percurso internacional, ainda em dezembro de 1995, com a presidência da Comissão Mundial Independente sobre os Oceanos, mas a política doméstica voltaria a impor-se no seu percurso. Foi o cabeça de lista socialista às eleições europeias de 1999 e ensaiou a candidatura a presidente do Parlamento Europeu, que perderia para Nicole Fontaine, a quem se dirigiria de forma deselegante.

Anos mais tarde, em 2005, voltou a colocar-se na corrida a Belém, apenas para impedir que o então secretário-geral do PS, José Sócrates, apoiasse Manuel Alegre, outro histórico socialista, com quem estava zangado. A zanga foi má conselheira: Soares acabou humilhado em terceiro lugar e Alegre em segundo não evitou a eleição à primeira volta de... Cavaco Silva. Os dois só fariam as pazes oito anos depois, por telefone, mediados pelo líder socialista de então, António José Seguro, depois de Soares ter estado internado com uma forte encefalite, em janeiro de 2013.

Com quem Mário Soares nunca ultrapassou ressentimentos foi com Francisco Salgado Zenha. Amigos de longa data, socialistas, os dois divergiram em 1980 sobre o apoio a dar ao presidente recandidato Ramalho Eanes - e entraram em rutura, mais tarde sublinhada na candidatura dos dois às presidenciais em 1986.

A 20 de fevereiro de 2015, em entrevista ao jornal i, Mário Soares dizia que não seria "um homem imortal" para a história. "Eu? Não! Eu sou um pobre homem que teve a sorte de ter tomado posições e de ter acertado, e de ter sido auxiliado por muita gente." Em 2004, nas páginas do DN, já dizia de si: "Não acredito na eternidade, na imortalidade, na alma. O que fica de mim é um rodapé num livro de história."

Em 2013, numa homenagem a Aquilino Ribeiro, logo depois da doença que o atirou para a cama do hospital durante nove dias, Mário Soares fez uma intervenção em que deliciou quem o ouvia com pequenas histórias em que a memória já o atraiçoava. No final, arrumou os seus óculos no bolso interior do sobretudo. "Peço desculpa, mas retiro-me."

 

[texto da minha autoria publicado hoje no DN online, com o título Morreu o primeiro Presidente "de todos os portugueses", foto Arquivo DN/Global Imagens]

Autoria e outros dados (tags, etc)





Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2008
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2007
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2006
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2005
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2004
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2003
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D


Links

KO! [EM DESTAQUE]

  •  
  • OS QUE LINKAM A...

  •  
  • MUITO CÁ DE TODOS OS DIAS

  •  
  • CÁ DA CASA TUDO PARADO

  •  
  • MUITO CÁ DO PRÉDIO

  •  
  • MUITO CÁ DO BAIRRO

  •  
  • ESPECIALISTAS [CINEMÚSICA]

  •  
  • ESPECIALISTAS [COMUNICAÇÃO]

  •  
  • ESPECIALISTAS [ESCRITA]

  •  
  • ESPECIALISTAS [HISTÓRIA]

  •  
  • ESPECIALISTAS [FOTOGRAFIA+ILUSTRAÇÃO]

  •  
  • ESPECIALISTAS [IGREJA]

  •  
  • ESPECIALISTAS [HUMOR]

  •  
  • ESPECIALISTAS [SABERES]

  •  
  • PARA DESCOBRIR

  •  
  • FORA DOS BLOGUES





    Sitemeter